Na prática, a academia divide pesquisa em classes que só fazem sentido quando você está preso num projeto até 3 da manhã.
A classificação mais básica que você vai encontrar em qualquer material de metodologia separa as coisas em qualitativa, quantitativa e mista. É o tripé padrão. Mas se você for olhar com mais cuidado, vai perceber que existem variações importantes dentro de cada uma, e confundir isso na hora de montar seu projeto é um dos erros mais comuns que eu já vi em bancas de mestrado e doutorado. Eu já vi dissertação inteira ser desmontada por causa de uma classificação errada na descrição metodológica. Ninguém gosta disso.
Conheça os tipos de pesquisas científicas mais comuns
A pesquisa qualitativa lida com dados que não são números. Entrevistas, observações, análise de discurso, grupos focais. O foco aqui é entender o porquê das coisas, os significados que as pessoas atribuem aos fenômenos. Não tem generalização estatística tentando sair dali. Se alguém tentar te convencer de que qualitativo é pesquisa de segunda categoria, simplesmente não presta atenção nessa pessoa. A quantitativa é o oposto estrutural. Coleta dados numéricos, aplica estatística, busca padrões mensuráveis e testar hipóteses com rejetcibilidade ou aceitabilidade. Amostra maior, controle de variáveis, instrumentos padronizados. O resultado costuma ser mais fácil de publicar em periódicos indexados com fator de impacto elevado. Isso não torna automaticamente melhor, apenas mais fácil de vender para certas revistas.
A pesquisa mista combina as duas. Primeiro qual, depois quant, ou vice-versa, ou as duas paralelas. A parte que a maioria dos estudantes subestima é o momento da integração dos dados. Você pode ter dois conjuntos de resultados excelentes e ainda assim não conseguir juntar as peças num raciocínio coerente. Já passei por isso com uma pesquisa de saúde pública onde o modelo estatístico dizia uma coisa e os relatos das famílias diziam outra completamente diferente. A solução foi fazer uma triangulação explicita e admitir a tensão nos resultados, não tentar esconder. Além desses três grandes grupos, existe a classificação por objetivos. Pesquisa exploratória, descritiva e explicativa. A exploratória é aquela que você faz quando o tema ainda é quase inexplorado e precisa mapear o terreno antes de formular hipóteses sólidas. Eu usei esse tipo num projeto sobre adoção de ferramentas de IA em escritórios de contabilidade pequenos. Ninguém tinha feito nada estruturado sobre o assunto naquela região, então passei três meses só coletando casos piloto e ajustando o recorte do problema. Sem essa etapa, o resto do projeto teria desmoronado porque as variáveis nem estavam definidas.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
A descritiva apenas descreve fenómenos tal como eles são. Levantamentos, estudos de caso descritivos, perfil demográfico. Não tenta explicar causas, só documentar o que existe. A explicativa, por sua vez, busca as relações de causalidade. É a que mais exige controle metodológico porque a barba de confundimento entra fácil se você não estiver de olho. Quanto ao procedimiento, a bibliográfica é só revisão de literatura. Parece simples, mas muita gente confunde com fazer um resumo passivo. Uma boa revisão sistemática, seguindo protocolos tipo PRISMA, exige critérios de inclusão e exclusão explícitos, busca em pelo menos três bases de dados, seleção emduplicate, extração padronizada. O tempo que isso leva é absurdo para quem não conhece o processo. Eu levei seis semanas para montar uma revisão que parecia fácil num primeiro momento, porque a primeira varredura trouxe mil artigos e grande parte não servia pro recorte definido.
A empírica é aquela com coleta de dados no mundo real. Pode ser laboratório, campo, estudo de caso, survey, experimento. Aqui entra a questão do desenho experimental propriamente dito. Pesquisa experimental verdadeira tem grupo de controle, randomização, controle de variáveis estranhas. Pesquisa quasi-experimental não tem randomização completa, o que reduz a validade interna mas aumenta a validade externa em contextos reais. Eu já fiz quasi-experimento numa escola pública onde era politicamente inviável randomizar turmas. O resultado foi publizável, mas tive que ser muito transparente sobre as limitações de causalidade no artigo final. Existem ainda os métodos específicos que se sobrepõem às categorias acima. Etnografia, fenomenologia, ground theory, pesquisa-ação, estudo de caso, pesquisa operacional. A pesquisa-ação, por exemplo, é especialmente útil quando você precisa resolver um problema concreto enquanto gera conhecimento. Eu trabalhei num projeto dessa natureza com uma cooperativa de agricultura familiar que tinha problemas crônicos de distribuição. A pesquisa não ficou só na análise; ela mudou a rotina deles durante o processo. Isso é vantajoso, mas também é ético porque você não pode prometer resultados que não consegue entregar.
Um detalhe que pouca gente leva a sério na hora de escolher o tipo de pesquisa é a aderência ao problema de pesquisa. O erro mais frequente é começar pelo método e ajustar o problema depois. O caminho certo é o inverso: o problema define o método, não o contrário. Se o seu problema é "como os contadores percebem os riscos da automação", qualitativo ou misto faz sentido. Se o problema é "qual a relação entre autonomia percebida e intenção de adoção de IA", quantitativo com regressão talvez seja o mais direto. Trocar esses dois cegamente gera projeto inviável desde o início. Outro ponto obscuro: pesquisa aplicada versus básica. A básica pesquisa por conhecimento por conhecimento, sem obrigação de aplicação imediata. A aplicada resolve um problema concreto. Ninguém diz isso, mas a maioria dos programas de pós-graduação no Brasil financiam mais pesquisa aplicada do que básica, mesmo quando falam o contrário nos editais. Se você precisa de bolsa e escolheu um tema puramente teórico, prepare-se para uma luta longa.
Se quiser se aprofundar em referências confiáveis, o livro Metodologia do Trabalho Científico, de Andrea Freitas Richitti e Delzo Siqueira, é um dos mais completos em português, assim como o método de trilhos do Gil, amplamente adotado em cursos de graduação. A ABNT também tem normas específicas para cada tipo de trabalho, então garantir conformidade desde o início economiza horas de retrabalho na formatação final.