O que foi a Operação Condor
A Operação Condor foi uma rede de cooperação secreta entre as ditaduras militares do cone sul da América Latina durante as décadas de 1970 e 1980. O acordo formal foi assinado em Santiago do Chile em 1975, e reunia Brasil, Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Depois, Colômbia e Equador deram sinais de adesão, mas nunca participaram de fato. O nome vem do condor, ave simbólica dos Andes, e foi escolhido pelos serviços de inteligência para disfarçar o que era, na prática, uma aliança de extermínio.
operação condor o que foi na prática
A estrutura central funcionava por meio de um comitê permanente na Embaixada do Chile em Buenos Aires. Cada país designava um oficial de ligação. As informações fluíam principalmente pela via diplomática e pelos canais militares. Não era uma organização com sede própria ou orçamento fixo. Era uma rede descentralizada, o que hoje complica bastante a investigação histórica e jurídica. O objetivo declarado nas atas era a "cooperação contra o subversivo". O subversivo, nesse contexto, significava qualquer pessoa ligada a movimentos de esquerda, sindicatos, igrejas progressistas, estudantes ou qualquer dissidência política. Na prática, a operação operava por meio de três mecanismos principais: vigilância compartilhada, captura e transferência clandestina de prisioneiros, e eliminação física coordenada.
Uma coisa que pouca gente entende direito é como essa operação funcionava nos detalhes operacionais. Havia listas de perseguidos mantidas em Buenos Aires. Quando um opositor fugia para outro país, os serviços de intelligence desse país recebiam a informação de que aquela pessoa estava em trânsito. Muitas vezes, a prisão acontecia com participação conjunta de agentes de dois ou mais países. Há documentos que mostram que agentes argentinos atuavam abertamente no Brasil, e que agentes brasileiros participavam de missões no Chile e no Paraguai. Dos arquivos recuperados, estima-se que mais de 50 mil pessoas foram presas, torturadas ou executadas diretamente ligadas à operação. O número real pode ser maior porque muitos documentos foram destruídos. A Argentina, durante a última ditadura, sozinho, registrou cerca de 30 mil desaparecidos, e uma parcela significativa deles estava conectada à rede Condor. No Chile, após o golpe de 1973, a DINA de Pinochet foi o braço mais ativo na coordenação. No Brasil, o DOI-CODI e o SNI eram os principais atores.
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Um ponto que ninguém menciona com frequência é o papel dos Estados Unidos. Documentos desclassificados mostram que a CIA forneceu suporte técnico, treinamento e, em alguns casos, informationes de localização de opositores. O então secretário de Estado Henry Kissinger teve reuniões com embaixadores dos países membros em junho de 1976, poucos meses antes do reportage do New York Times revelar a existência da operação em dezembro daquele ano. A reação estadounidense foi de censura diplomática, mas sem sanções efetivas. Quando a Operação Condor começou a ruir? Não houve um fim oficial. O colapso foi gradual. Arededor de 1980, com a abertura política no Brasil e a pressão internacional, as atividades mais letais diminuíram. O retorno das democracias nos anos 1980 tornou a cooperação impossível. Mas a estrutura de inteligência permaneceu, e muitos dos agentes que atuaram no Condor nunca foram julgados. Na Argentina, algumas condenações aconteceram nas décadas de 2000 e 2010. No Brasil, a lei de anistia de 1979 bloqueou processos por décadas. Só recentemente os tribunais começam a contornar essa barreira com base na ausência de anistia para crimes contra a humanidade.
Há uma nuance importante sobre como a operação era organizada internamente. Os arquivos não mostram uma hierarquia rígida. Era mais parecido com uma colônia de formigas do que com uma pirâmide. Cada paísagia por conta própria, mas com conhecimento e, às vezes, com participação direta dos outros. Isso significa que não existe um "líder" único da operação. O Chile tinha a estrutura mais organizada, mas a Argentina tinha o maior número de vítimas. O Brasil tinha a vantagem logística por ser o maior país da região. Os documentos revelados até agora vêm principalmente de três fontes: arquivos desclassificados dos EUA, archivos secretos encontrados em Escuríthal (Paraguai), e a rede de memoriais e ONGs de direitos humanos nos próprios países. O trabalho de desclasificación ainda está em andamento. Novos documentos aparecem regularmente, e cada novo achado redefine um pouco a compreensão do que aconteceu.
O legado da Operação Condor não fica só no passado. A arquitetura de cooperação em segurança e inteligência que ela criou influenciou operações posteriores na região, inclusive durante a Guerra às Drogas e os regimes autoritários que se seguiram. Entender o que foi a Operação Condor continua sendo essencial para analisar a política de segurança contemporânea na América Latina.