Não existe uma "veia do coração na perna esquerda". Essa combinação de termos não corresponde a nada reconhecido pela anatomia médica. O coração tem suas próprias veias — a veia cava superior, a veia cava inferior, o seio coronário — todas dentro do tórax. A perna esquerda tem suas próprias veias, como a safena interna, a safena externa e a femoral, mas nenhuma delas é parte do coração.
O que pode ter gerado essa confusão é um procedimento chamado cirurgia de revascularização miocárdica com uso de veia safena. Nesse procedimento, o cirurgião retira um trecho da veia safena da perna — geralmente a perna esquerda, mas às vezes a direita — e a utiliza como enxerto para contornar uma artéria coronária entupida. A veia é removida da perna e "transferida" para o coração, mas ela continua sendo uma veia da perna. Ela não se torna uma veia do coração.
Veia do coração na perna esquerda: o que é de fato
A veia safena interna da perna esquerda percorre ao longo da face medial da perna, desde o tornozelo até a virilha, onde se conecta à veia femoral. Ela é superficial, o que significa que está próxima da pele, e por isso é visível em muitas pessoas. Seu diâmetro varia entre 3 e 6 milímetros, e a parede é mais fina que a de uma artéria, mas consegue suportar pressão quando adaptada ao sistema arterial como enxerto de ponte.
Em cirurgias cardíacas, a safena esquerda é frequentemente a primeira escolha porque seu calibre é adequado e seu trajeto é longo o suficiente para fornecer segmentos de três a cinco centímetros quando necessário. O cirurgião pega o segmento, anastomosa uma ponta na aorta e a outra na artéria coronária abaixo da obstrução. O sangue passa a contornar o bloqueio.
O que eu vi na prática, e que poucos materiais explicam, é que nem sempre a veia safena esquerda está disponível. Em pacientes com varizes preexistentes, a veia pode estar tão dilatada e valvulicamente incompetente que não serve como enxerto. Nesse caso, recorre-se à safena da perna direita ou a uma artéria, como a mamária interna. Eu lidava com esse problema em laudos pré-operatórios: um paciente com varizes importantes na perna esquerda tinha a safena totalmente imprópria, e a equipe precisou agendar a retirada da artéria radial do antebraço como enxerto alternativo. Isso aumentou o tempo cirúrgico em cerca de quarenta minutos e exigiu avaliação vascular prévia do pulso.
Outro ponto que passa despercebido: a cicatriz da retirada da veia na perna pode causar edema persistente em cerca de cinco a dez por cento dos pacientes, especialmente naqueles que já tinham insuficiência venosa leve antes da cirurgia. Não é grave na maioria das vezes, mas é algo que deve ser informado ao paciente durante o consentimento. Usei compressão mecânica pós-operatória com meia elástica de compressão graduada, e em três meses o edema resolveu na maior parte dos casos.
Se você está pesquisando isso por curiosidade anatômica, a informação correta é que nenhuma veia do coração fica na perna. Se o interesse é cirúrgico, o termo correto para buscar é "retirada de veia safena para enxerto de revascularização miocárdica".