Quando usar crase entre datas
Vou direto ao ponto. A pergunta uma data a outra tem crase aparece todo dia em correções de texto, e a resposta não é tão simples quanto muita gente acha.
Uma data a outra tem crase? A regra prática
O crase ocorre quando há a fusão da preposição "a" com o artigo definido feminino "a". Com datas, tudo depende do verbo ou da construção que rege a regência. A maioria das pessoas erra porque aplica a regra de cabeça sem verificar a regência antes. Aprenda primeiro a regência correta. Se você diz "chegou às 14h", usa crase porque o verbo "chegar" pede a preposição "a". Se diz "fui a Lisboa", não há crase porque "Lisboa" não leva artigo. A mesma lógica vale para datas.
Quando o crase é obrigatório entre datas
Considere a estrutura "de... a..." ligando dois períodos. A crase vai existir na segunda parte apenas se o termo seguinte exigir o artigo feminino. Veja os exemplos: "O evento ocorreu de 1º de março a 15 de março" — aqui não há crase porque os dias não levam artigo. Substitua "março" por "sexta-feira": "de 1º de março a sexta-feira" — mesmo assim, sem artigo, sem crase.
Agora mude para: "As inscrições foram de 1º de março a 30 de março". Sem artigo em nenhum dos dois, então continua sem crase. A dúvida real aparece quando você tem algo como "de segunda a sexta" — nesse caso, como "segunda" e "sexta" são dias da semana femininos e podem levar artigo, a crase se justifica: "de segunda à sexta".
O caso que todo mundo erra
Escrever "de uma data a outra" já carrega a preposição "a" separada, então a crase só entra se "outra" exigir o artigo. E "outra" é feminino, mas não leva artigo nessa construção. O correto é "de uma data a outra", sem crase. Ninguém coloca crase aí em contexto normal. O erro mais frequente que vejo é em frases como "Vendas de janeiro a março". Muita gente coloca crase em "a março" achando que todo "a" antes de mês pede acento. Não pede. Mês não leva artigo definido nessa construção. O certo continua sendo "a março".
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Dica técnica para testar antes de acentuar
Troque o termo masculino equivalente. Se o "a" vira "ao", tem crase. Se fica igual, não tem. Teste rápido: "Vou de segunda a sexta" — troque por masculino: "Vou de sábado a domingo". O "a" não muda. Logo, não há crase em "a sexta" nesse caso. Agora tente "Refiro-me à segunda-feira" — troque: "Refiro-me ao sábado". O "a" virou "ao". Tem crase.
Esse teste funciona na grande maioria dos casos com datas. Tem exceções, mas são raras no uso cotidiano.
Exceções que dão trabalho
Eu me deparei uma vez com um contrato em que a data de início era "àquele prazo" e a data de fim era apenas "um prazo futuro". A redação dizia algo como "vigência de 1º de junho à data de término". Isso está errado porque "data de término" é uma expressão indefinida que não aceita artigo definido, mesmo sendo feminina. O correto seria "à data de término" apenas se o contexto exigisse artigo, o que normalmente não ocorre em cláusulas contratuais assim. Meu workaround foi simple: substituir a estrutura por "até a data de término". Elimina toda a ambiguidade e evita a discussão sobre crase. Funciona em 99% dos documentos jurídicos que reviso.
Erros comuns que você vai evitar
Não use crase antes de palavra masculina. "De janeiro a fevereiro" nunca terá crase, ponto. Não use crase antes de verbos. "De segunda a trabalhar" está errado. A crase não existe nesse tipo de construção. Não confunda crase com simples preposição. A preposição "a" existe independentemente do crase. Crase é apenas a fusão gráfica dela com o artigo. Se não tem artigo, não tem crase, não importa o quanto a frase pareça pedir.
Evite usar crase em datas abstratas sem referência específica. "De tempos a tempos" é uma expressão fixa que não leva crase. Não force a regra onde ela não se aplica.
Resumo prático para consultar rápido
Verifique a regência do verbo ou da construção. Substitua por termo masculino e observe se o "a" se mantém. Se mantiver, sem crase. Se mudar para "ao", use crase. Quando em dúvida entre datas e nomes de meses, na maioria das vezes não há crase. Dias da semana femininos podem ter crase quando usados com artigo, mas isso depende do contexto, não da regra automática. A aplicação correta exige atenção ao contexto e à estrutura da frase. Não existe atalho mágico. Mas com prática, o teste de substituição por termo masculino resolve a maior parte dos casos em poucos segundos.