Ultrassom De Gêmeos Na Mesma Placenta - Gêmeos da mesma placenta. O que isso significa, é de mais risco ...
Gêmeos da mesma placenta. O que isso significa, é de mais risco ...

O que é monozigotia monocoriônica e como identificar no ultrassom

A placenta monocoriônica significa que os dois fetos compartilham a mesma bolsa coriônica. O que isso implica na prática é que existe um único trofoblasto formando uma única placenta, e o septo divisório entre os embriões será apenas uma laminastra dupla. A importância clínica disso não é marginal. Gêmeos monocoriônicos representam algo em torno de 30% dos casos de gêmeos monozigóticos e têm risco significativamente maior de complicações quando comparados aos dicoriônicos. O diagnóstico correto no primeiro trimestre define tudo que vem depois.

Ultrassom de gêmeos na mesma placenta: o exame na prática

Vou explicar o procedimento do ponto de vista de quem faz o exame, não de quem lê um livro-texto. A primeira coisa que você precisa é de um transdutor com boa resolução para imagens superficiais, algo na faixa de 5 a 8 MHz. Não adianta brigar com sonda abdominal profunda quando o objetivo é visualizar o saco gestacional inicial com precisão. A gestação alvo costuma estar entre 6 e 12 semanas. O protocolo que eu sigo é direto. Mapeamento do número de sacos gestacionais. Contagem do coração fetal em cada um. Delimitação da membrana T-lambda ou da memória em T. Medição de NG para cada feto. Avaliação do local de inserção do cordão em ambos. Isso leva cerca de 25 minutos quando a anatomia permite, menos se a paciente estiver cooperando bem desde o início.

O achado que determina o cordão é a presença ou ausência do lambda. Na placa monocoriônica dicoriônica, que é o padrão dos gêmeos monozigóticos divididos entre 3 e 8 dias, você vê o trifolio coriônico formando um triângulo que se expande para a parede uterina. Esse é o sinal lambda. Ele não aparece em gêmeos dicoriônicos porque cada um tem sua própria bolsa coriônica isolada. É um erro comum achar que o septo é suficiente para diferenciar, mas o septo existe em ambos os tipos. O lambda é que diferencia. Para gêmeos monozigóticos tardios, divididos entre 9 e 12 dias, a situação muda. Nesse caso o corion ainda é único mas a é mais fina e não forma o triângulo. O sinal da memória em T aparece quando o septo se insere perpendicularmente na parede uterina sem alargar o corion. Identificar isso requer ângulo adequado do transdutor. Se você estiver com o feixe oblíquo, vai confundir com artefato. Eu já perdi contagem de vezes tentando interpretar um septo como lambda quando na verdade era apenas inclinação da sonda.

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No segundo trimestre, a avaliação continua. A espessura da membrana intercorporal deve ser mensurável. Se você não consegue ver a membrana com folga, provavelmente está diante de uma monozigotia tardia ou de uma interpretação ambígua. Recomendo confirmar com doppler dos fluxos umbilicais de ambos os fetos antes de fechar o laudo. Isso descarta anomalias de inserção que muitas vezes passam despercebidas. O acompanhamento de gêmeos monocoriônicos é frequente. Monitoramento quinzenal a partir da semana 16 até o parto. O risco de TPPN, transfusão feto-fetal e restrição de crescimento discrepante é real. Não existe protocolo único que resolva tudo, mas a vigilância contínua melhora desfechos. Quando há suspeita de desbalanceamento de fluxo, o Doppler venoso ductal e do fluxo umbilical de cada feto orienta a decisão. Em alguns centros, a lasercoagulação das anastomoses vasculares pode salvar ambos os fetos se feita antes das 26 semanas, mas isso depende da disponibilidade e da experiência da equipe.

Há umapegadinha técnica que poucos mencionam. Às vezes, a membrana separadora fica tão fina que parece não existir no exame inicial. Nessas situações, eu repito o exame em 48 a 72 horas com a paciente bem cheia, pois o volume de líquidoamnótico adequado melhora a visualização do septo. Se após repetição o septo não for evidente e o lambda não estiver presente, o diagnóstico provável é monozigotia tardia com monocorionicidade. Laudo deve registrar essa dúvida explicitamente, sem forçar uma classificação. Outro ponto prático. O peso estimado de cada feto em gêmeos monocoriônicos tende a divergir mais tarde na gestação. Eu uso curvas específicas para monocoriônicos, não curvas gerais de gemelaridade. As estimativas baseadas em fórmulas padrão subestimam ou superestimam o risco de restrição quando aplicadas cegamente. O mais seguro é usar percentis locais validados para essa população.

Resumindo o essencial. Diagnóstico correto no primeiro trimestre com identificação do lambda ou da memória em T define o manejo. Acompanhamento rigoroso a partir da segunda metade do primeiro trimestre reduz drasticamente morbimortalidade. Dúvidas devem ser registradas, não ignoradas. A placenta compartilhada exige atenção redobrada, mas com protocolo adequado os resultados são bons.