Sondagem vesical: o que você realmente precisa saber na prática
Esse é um daqueles procedimentos que todo mundo aprende na faculdade, mas só vira manual mesmo depois de colocar a mão na massa e encontrar um paciente com estenose uretral ou próstata aumentada. Vamos falar dos tipos de sondagem na enfermagem, mas da forma que funciona no dia a dia, não do livro didático.
Sondagem vesical de demora: a mais comum, e onde as coisas costumam dar errado
A sonda vesical de demora, também chamada de Foley, é a primeira que a gente vê no plantão. Basicamente, você insere um tubo pelo uretra até a bexiga e deixa lá, preso por um balonete que enche com soro fisiológico. A urina drena por gravidade para um coletor. O problema é que muita gente acha que é só enfiar e pronto. Na prática, o maior erro é não fazer o preparo adequado do meato uretral. Já vi cateteres sendo inseridos sem higienização correta, o que aumenta o risco de infecção urinária associada ao serviço de saúde. Recomendo usar compressa embebida em clorexidina 2% ou povidona iodada, conforme protocolo da sua unidade, e esperar alguns segundos antes de inserir.
Outro ponto que não ensinam direito: se você encontrar resistência durante a inserção, não force. Pare, espere o paciente relaxar, e se continuar travado, considere sondagem uretral masculina com sonda de punta cónica ou encaminhe para urologia. Forçar a sonda pode causar falsas vias ou trauma uretral.
Sondagem vesical intermitente: quando a demora não faz sentido
Às vezes, o paciente não precisa ficar com cateter instalado dias a fio. Aí entra a sondagem vesical intermitente, onde você catheteriza, esvazia a bexiga, e retira a sonda. É mais indicado para pacientes neurológicos que têm retenção urinária, mas mantêm alguma função esfincteriana. O benefício é claro: menor risco de infecção comparado à demora, porque não há corpo estranho permanente no trato urinário. O custo é que exige mais tempo de equipe e mais procedimentos repetidos. Se você tem poucos plantonistas experientes, essa pode não ser a melhor opção.
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Já atendi um paciente com lesão medular que fazia auto sondagem intermitente a cada 4 horas. O problema foi que ele começou a ter cistites recorrentes porque a técnica asséptica não era seguida rigorosamente em casa. A solução foi refazer o treinamento com família, focando em higiene das mãos e uso de luvas esterilizadas em vez de limpas.
Sondagem vesical masculina x feminina: diferenças que importam
A anatomia muda tudo. Na mulher, a uretra é curta (cerca de 4 cm), então a inserção é mais rápida, mas o risco de confusão anatômica é maior. Eu já vi sonda sendo inserida na vagina por engano, o que gera trauma e sangramento. Confirme sempre a colocação pelo retorno de urina antes de inflar o balonete. No homem, a uretra é mais longa (cerca de 20 cm) e tem duas curvaturas: a anterior e a posterior. O segredo é fazer tração suave no pénis para endireitar a curvatura penoescrotal, e pedir ao paciente que respire fundo para relaxar o esfíncter uretral externo. Já encontrei próstatas tão aumentadas que precisei usar sonda de punta curva específica, e ainda assim encaminhei para colocação sob visão direta com cistouretroscopia.
Complicações e como evitar as mais comuns
Infecção do trato urinário é a complicação número um, mas não a única. Vazamento pericatheter é frequente quando o cateter não está fixado corretamente no membro, permitindo movimento e irritação do meato. Use fita hipooalergênica ou dispositivo de fixação adequado, nunca dependa apenas do atrito da pele. Obstrução do cateter pode acontecer por depósito de sedimento ou bexiga hiperativa. Se a urina para de drenar, verifique se há torção no tubo, se o coletor está abaixo do nível da bexiga, e se o balonete não está pressionando o trigono vesical. Em casos persistentes, considere troca de sonda ou sondagem por urologia.
Há ainda o risco de formação de cálculos no balonete, especialmente em sondagens prolongadas. Se o paciente ficar mais de 30 dias com o cateter, use sonda de silicone em vez de látex, pois o silicone resiste melhor a depósitos minerais. Sobre os tipos de sondagem na enfermagem, a escolha depende do quadro clínico, não do hábito. Às vezes a intermitente é mais segura, mesmo sendo mais trabalhosa. Outras vezes a demora é necessária por questões de monitoramento em UTI. O importante é saber quando mudar de estratégia e não ter orgulho de insistir em algo que não está funcionando.