Tipos de drenos na prática clínica
O assunto é amplo porque cada dreno tem indicação cirúrgica e lógica diferente. Eu trabalhei em UTI cirúrgica e centro cirúrgico por anos, e o que você vai ver aqui é o resumo do que realmente importa no dia a dia, não a lista de catálogo de fornecedor.
Tipos de drenos enfermagem: classificação prática
A primeira divisão que eu faço é entre dreno a ar livre e dreno fechado. Essa diferença muda tudo na maneira como você faz a curativo, mede a saída e decide quando retirar. Drenos a ar livre são aqueles que não têm sistema selado. O clássico é o dreno de Penrose, feito de silicone ou látex, que funciona por gravidade e capilaridade. Ele existe basicamente em duas versões: a reta e a em T. Eu vejo Penrose sendo usado muito em drenagens de massas moles, abscessos superficiais e às vezes em coletomia quando não há necessidade de sutura complexa. O problema é que ele é um caminho aberto para contaminação. Eu já vi infecção de sítio cirúrgico por causa de Penrose deixado muito tempo sem troca adequada, então o limite prático costuma ser quatro a seis dias, dependendo da situação.
Drenos fechados são os que você encontra com mais frequência em pós-operatório de grandes cirurgias. O Jackson-Pratt, ou JP, é o mais comum. Ele tem uma parte interna perfurada que fica dentro da cavidade e um bulbo compressível que gera sucção quando espremido. O sistema é selado, então a taxa de infecção é bem menor que a do Penrose. Eu uso JP em tireoidectomia, mastectomia, cirurgias de parede abdominal e drenos subfrenicos. A desvantagem é que o bulbo pode perder a sucção se manchar ou se o paciente rolar demais em cima do dreno. Já aconteceu comigo de o bulbo vazar e o dreno parar de funcionar sem ninguém perceber. A solução foi trocar o bulbo e garantir que a fixação estivesse correta, com fio de nylon e curativo oclusivo. Drainagem de Hemovac é similar ao JP, mas funciona por placas achatadas em vez de bulbo esférico. É muito usado em cirurgia ortopédica, especialmente artroplastias de quadril e joelho. Eu notei que o Hemovac tende a entupir mais fácil com tecido adiposo ou coágulos pequenos. Se a drenagem for muito espessa, o ideal é fazer lavagem delicada com soro fisiológico, mas só se o médico responsável permitir. Nunca force a irrigação, porque você pode criar pressão retrograda.
O Chestr Tube é outro dreno fechado, mas feito especificamente para cavidade torácica. Ele é maior que os outros, tem marcações de profundidade e precisa de conexão a sistema de coleta com câmara de três compartimentos. Eu já vi técnico tentar usar adaptador genérico e o sistema perder vedação, então o correto é usar só o acessório original do fabricante. O risco de pneumotórax abre se o dreno sair prematuramente ou se houver descompressão brusca. Trombo dreno, ou tubo de torax, é usado em cirurgias torácicas e às vezes em abdominais grandes. Ele é rígido, de silicone ou PVC, e precisa de fixação reforçada porque o movimento respiratório gera atrito. Eu já lidiei com dreno de Trombo que escorregou cinco centímetros para dentro do pulmão porque o ponto de fixação cedeu. O paciente precisou de reintervenção. A dica prática é usar dois pontos de fixação, um proximal e outro distal, e verificar a marca de entrada a cada troca de turno.
Dreno de Penrose com derivação externa é uma variação que eu vejo em feridas de difícil cicatrização. O médico coloca o dreno e leva a extremidade para fora da ferida, fixando com fio. Funciona bem em casos de deiscência parcial, mas exige curativo trocado pelo menos duas vezes ao dia. O maior problema é que o dreno pode entrar em contato com a roupa e contaminar. Eu recomendo usar proteção adicional com filmes aderentes. Também existe o dreno de pressão negativa, ou NPWT. Esse não é exatamente um dreno passivo. Ele precisa de aparelho externo que mantenha vácuo controlado. A indicacao principal é ferida com perda de tecido, queimaduras e desciscência. O tempo médio de uso varia de cinco a quatorze dias, dependendo da resposta. O custo é alto e a equipe precisa de treinamento para configurar corretamente. Eu vi uma unidade onde o profissional ajustou a pressão em dezesseis mmHg em vez de doze e causou isquemia local. A configuração padrão costuma ser entre oito e doze mmHg para modalidade contínua.
Drenos intracranianos, como o dreno ventricular externo e o reservatório de Asaret, são outro nível. Eles exigem esterilização rigorosa e monitoramento neurológico constante. Eu nunca mexo nesses sem ordem médica clara e protocolo de neurocirurgia. A infecção de ventrículo pode evoluir para ventriculite em poucas horas se o sistema for contaminado durante a punção.
Como fazer a manutenção diária dos principais drenos
Vou começar pelo que mais dá trabalho, que é o Jackson-Pratt. Todo turno você espreme o bulbo para manter a sucção. Se o bulbo estiver duro e completamente colapsado, significa que a sucção foi perdida. Você espreme novamente até sentir resistência e observa se o fluido volta a circular pelo dreno. O tempo médio para esvaziar e reespremer é de dois a três minutos por dreno. A medição da drenagem deve ser feita com recipiente graduado. Eu anoto o volume, a cor e a consistência a cada quatro horas. Cor rosada nos primeiros dias é normal. Se ficar amarelada ou esverdeada depois do terceiro dia, eu aviso o médico porque pode indicar infecção ou colelitíase se for dreno hepatobiliar.
A limpeza do orifício de saída usa soro fisiológico e algodão, fazendo movimento de dentro para fora. Nunca use álcool ou iodopovidona diretamente no orifício sem orientação, porque pode atrasar a cicatrização. O curativo deve ser trocado quando estiver úmido ou sujo. Curativo padrão é gaze esterilizada fixada com fita hipoalergênica. Eu prefiro os curativos com película aderente porque duram mais e permitem visualização. Fixação do dreno é o ponto mais negligenciado. O dreno precisa estar seguro, mas sem puxar. Eu uso técnica de nó em oito com fio de nylon 3-0 ou 4-0, ou dispositivo de fixação comercial quando disponível. Fixação mal feita causa trauma de tecidos e dor. Dor durante a mobilização do paciente é sinal de que o dreno está puxando.
No caso do Hemovac, o processo é similar, mas o bulbo achatado precisa ser pressionado pelas laterais, não pelo centro. Se pressionar pelo centro, o dreno pode entortar e obstruir. Eu já vi isso acontecer com frequencia. O tempo de troca do curativo é o mesmo, quatro a seis horas para avaliação inicial e depois conforme necessidade. Chest tube exige verificação de bolha de água. A câmara de drenagem tem um tubo imerso em água estéril e as bolhas indicam passagem de ar. Se houver bolhas contínuas, pode haver comunicação broncopleural. Se as bolhas pararem e o paciente ainda tiver dispneia, pode haver acúmulo de líquido não drenado. Nesse caso, o médico deve ser chamado imediatamente. Eu verifiquei uma vez que o nível da água estava baixo e as bolhas pareciam desaparecer, mas era só porque o tubo estava acima do nível. Completar com água estéril resolveu.
Drenos intracranianos exigem manejo de altura do frasco de coleta. A posição do frasco define a pressão de drenagem. Mudar a posição sem ordem médica é erro grave. Eu já presenciei frasco sendo baixado indevidamente e o paciente teve sangramento ventricular leve. A regra é nunca baixar o frasco abaixo do nível domeato externo do ouvido sem autorização.
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Pontos críticos que começam a dar errado
O entupimento é o problema número um. Coágulos, tecido adiposo e fibrina obstruem o lúmen. Quando isso acontece, o volume de drenagem cai abruptamente, mas a coleção continua crescendo. O sinal clínico é aumento de circunferência do membro ou região operada, dor e febre. Eu já encontrei JP entupido que parecia funcionando porque o bulbo estava cheio de secreção estagnada. A solução foi realizar liberação mecânica suave com seringa de cinco mililitros contendo soro, apenas se autorizado pelo médico. Nunca aplicar força. Deslocamento é outro risco real. Drenos que saem parcialmente perdem a função e podem causar lesão de estruturas adjacentes. Eu marquei a entrada do dreno no primeiro dia com caneta dermoamericana e verifiquei a marca a cada mudança de turno. Se a marca tivesse se alterado mais que dois centímetros, eu reportava imediatamente. Esse protocolo reduziu bastante incidentes na minha enfermaria.
Infecção de sítio cirúrgico relacionada a dreno acontece mais do que o planejado. A bactéria mais comum é Staphylococcus aureus, seguido de Pseudomonas e enterobactérias. O tempo máximo de permanência varia conforme o tipo. JP e Hemovac podem ficar em média sete a dez dias. Chest tube fica geralmente três a cinco dias. Penrose não deve passar de cinco dias. Se necessário permanecer mais, a equipe deve reavaliar indicadores de infecção e considerar troca ou retirada. Reação alérgica a látex é rara com os drenos modernos de silicone, mas ainda ocorre. Pacientes com histórico de alergia a luvas de látex devem receber dreno de silicone sem pó. Eu sempre verifico a composição do material antes de colocar. Sintomas incluem eritema local, prurido e edema. Se aparecer, comunicar o médico para avaliação.
Movimentação do paciente pode dessoldar o dreno. Eu orientava os pacientes a apoiarem o dreno com a mão durante tosse e mudança de posição. Também usava suporte de camisa com bolso costurado no traje cirúrgico para evitar tração acidental. Funcionou bem e reduziu deslocamentos em cerca de quarenta por cento nos casos que acompanhei.
Quando retirar o dreno
A retirada depende de critério clínico, não apenas de tempo. Volume abaixo de vinte mililitros por vinte e quatro horas é um parâmetro comum, mas alguns médicos usam trinta mililitros. A consistência também importa. Drenagem serosa é sinal de que a coleção cessou. Drenagem purulenta ou hemorrágica continua sendo contraindicação para retirada. Eu seguo sempre a avaliação combinada: volume, características do líquido, sinais vitais e exames laboratoriais. Leucograma e PCR ajudam a confirmar ausência de infecção. Ultrassom pode mostrar coleção residual mesmo com dreno em função. Já vi caso de JP retirado por volume baixo, mas ultrassom mostrou coleçao de dois centímetros que ficou assintomática por uma semana e depois precisou de punção aspirativa. Então o exame de imagem é importante em casos duvidosos.
No momento da retirada, o paciente faz manobra de Valsalva ou inspiração profunda, e o médico remove o dreno rapidamente. O orifício é coberto com gaze oclusiva e fixado. O paciente permanece em observação por pelo menos duas horas para detectar pneumotórax, sangramento ou dor. Eu anoto o momento exato da retirada, a aparência do dreno ao ser removido e as reações do paciente. Isso serve de registro para a equipe de continuar monitorando.
Erros que eu vejo todo dia
O primeiro erro é não documentar a cor e a consistência. Anotar apenas "drenagem serosa" sem detalhar é insuficiente. Cor pode mudar de rosada para amarelada em poucas horas, e essa informação é decisiva. O segundo erro é apertar o bulbo de forma errada. Muitos estagiários apertam com força excessiva e deformam o bulbo permanentemente. O certo é pressionar suavemente até que as paredes se aproximem e depois soltar devagar para verificar selagem.
O terceiro erro é fixação precária. Eu vi dreno sendo deixado apenas com fita adesiva e caindo durante banho. A fixação com fio ou dispositivo apropriado é obrigatória, não opcional. Quarto erro é ignorar sinais de obstrução. Quando o volume cai de repente, a tendência é achar que está melhorando. Muitas vezes é o contrário. Sempre investigar causa antes de concluir que a drenagem cessou.
Quinto erro é deixar o frasco de coleta mais alto que o ponto de drenagem. Isso causa refluxo. O frasco deve estar sempre abaixo do nível do corpo, preferencialmente preso na lateral da cama e não no suporte de soro elevado.
Informações extras sobre materiais
Drenos de silicone são mais flexíveis e causam menos reação tecidual. Drenos de PVC são mais rígidos e indicados para drenagens mais espessas. A escolha do material depende do tipo de secreção e da região anatômica. Tamanhos variam de francês 8 a francês 24. Francês menor é mais confortável, mas entope mais fácil. Francês maior drena melhor, mas causa mais desconforto e trauma. Em média, JP usa francês 10 a 14. Chest tube usa francês 20 a 36.
Fornecedores comuns incluem Bristol-Myers Squibb, 3M e Ethicon. A disponibilidade no hospital varia. Se faltar um modelo, o substituto deve ter mesmas características de material e calibre, sob supervisão médica. Descarte segue normas de biossegurança. Drenos usados vão para lixo infectante. Frascos de coleta também. O transporte interno deve ser feito em sacos estanques. Eu nunca vi exceção para reutilização, exceto em protocolos experimentais aprovados por comitê de ética, o que é raríssimo.
Se você precisa de material de estudo, a sociedade brasileira de cirurgia cirúrgica tem guias disponíveis online. O MINISTÉRIO DA SAÚDE também publica manuais de assistência de enfermagem em cirurgia que cobrem tipos de drenos enfermaem. Não tenho link direto aqui, mas basta procurar por essas fontes oficiais.