A regra básica que todo mundo deveria saber de cor
Você nunca vai usar crase antes de verbo. Isso não é opinião, é gramática normativa consolidada. A crase é a fusão da preposição "a" com o artigo feminino "a". Verbo não tem gênero, então não existe artigo antes dele. Ponto final.
Entendendo tem crase antes de verbo na prática
Muita gente trava porque ouve frases como "Fui à praia" e "Refiro-me àquele caso" e começa a achar que qualquer "a" repetido merece acento. Não merece. Quando o segundo "a" é parte de um verbo, o acento grave some. Vou dar exemplos reais em vez de ficar repetindo a regra. "Achei que ele se referia à trabalhar nisso." — Errado. O certo é "Achei que ele se referia a trabalhar nisso." O verbo "trabalhar" está no infinitivo, então não entra artigo feminino. "Vamos à fazer a pesquisa." — Errado também. "Vamos a fazer a pesquisa." Não tem crase antes de "fazer" porquê é verbo.
Uma coisa que vejo todo dia em revisão de textos: pessoas escrevem "Estou disposta a ajudar" como "Estou disposta à ajudar". Já corrigi isso em mais de uma dezena de trabalhos no último ano. O erro aparece quando o autor acha que depois de adjetivo sempre tem crase. Não tem. Só tem quando o verbo exige preposição "a" e o complemento é substantivo feminino articulado. Aqui vai um detalhe que não ensinam em curso rápido: o verbo no infinitivo flexionado pode confundir. "É necessário que todos se dediquem à estudar." — Errado. "É necessário que todos se dediquem a estudar." O fato de o infinitivo estar flexionado (estudar com S) não transforma a palavra em substantivo. Continua sendo verbo. O artigo "a" simplesmente não existe nesse contexto.
O teste que funciona na maioria das vezes
Troca o verbo por um substantivo feminino. Se a crase aparece, mantêm. Se some, estava errado. "O professor se referiu a aquela aluna." — Substitui "referiu" por "fez referência". "O professor fez referência àquela aluna." Agora tem crase, certo. Mas "O professor se referiu a ajudar." — "O professor fez referência à ajuda." Aqui muda. "Ajuda" é substantivo, então a crase volta. Mas na frase original, "ajudar" é verbo. Logo, sem crase.
Esse teste funciona para 90% dos casos do dia a dia. Não funciona perfeitamente quando a construção é mais complexa, mas já resolve a grande maioria das dúvidas.
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Tem crase antes de verbo: os poucos casos que parecem exceção
Existe um cenário que engana até quem acha que sabe a regra. Quando se usa a locução verbal com "a" + infinitivo, algumas pessoas acreditam que o "a" da preposição deve receber crase. Não deve. "Ele começou a estudar." Jamais "Ele começou à estudar." O "a" aqui é preposição ligando dois verbos. Não há artigo Feminino envolvido. Nunca houve. O que realmente dá trabalho é quando o verbo está no gerúndio e vem precedido de preposição. "Ela estava destinada a esperar." Alguns tentam colocar crase achando que "esperar" virou substantivo. Não virou. Continua sendo verbo. A crase só surge quando temos "a" + "a" (artigo). E artigo antes de verbo não existe na língua portuguesa padrão.
Outro caso que gera confusão é comexpressões como "à moda de". Isso é crase porque "moda" é substantivo feminino. Mas "a modo de" — sem crase — também existe e é usado quando "modo" funciona de forma diferente. A diferença é sutil, mas o ponto é: se após o "a" vier um verbo, esquece a crase.
O erro mais comum que eu vejo em produção real
Em revisões de tese e dissertação, o erro recorrente é o seguinte: o aluno escreve "A pesquisa foi dedicada à analisar os dados." A crase ali não existe. O correto é "dedicada a analisar". Já vi esse erro em dezenas de trabalhos. A pessoa tenta usar crase porque soa mais formal, mas Formalidade não pede crase onde a gramática não pede. Um caso que me marcou aconteceu com um texto jurídico. O autor escreveu "O réu foi condenado à pagar a multa." Erro feio. Correção rápida: "condenado a pagar." A estrutura "condenado a" exige preposição, não crase. Se fosse "condenado à multa", aí sim teria crase, porque "multa" é substantivo feminino. Mas "pagar" é verbo. A linha é clara quando você para para pensar.
Também é comum ver crase antes de infinitivo após verbos como "começar", "passar", "passar a". "Passou a viajar." Nunca "Passou à viajar." "Começou a trabalhar." Nunca "Começou à trabalhar." São construções com preposição "a" + infinitivo. A preposição não se contrai com artigo porque não há artigo.
Quando realmente não sei aplicar a regra
Em construções muito antigas ou muito cultas, às vezes o infinitivo pode funcionar como substantivo. "O a voar dos pássaros me impressionava." Nesse caso, "voar" funciona como substantivo e pode levar artigo. Mas isso é exceção estilística, não regra. Na prática cotidiana, acadêmica ou profissional, você praticamente nunca vai se deparar com isso. E mesmo quando se depara, o contexto quase sempre deixa claro se é substantivo ou verbo. Se você estiver em dúvida entre "a" e "à" antes de um verbo, a resposta mais segura na maioria das situações é "a" sem crase. Só use crase quando tiver certeza absoluta de que vem um substantivo feminino depois. Se não tiver certeza, prefira errar por menos crase do que por mais crase. Crase a mais é erro visível. Crase a menos geralmente passa despercebida.
Resumindo o que importa: tem crase antes de verbo? Não. Sempre. Se alguém tentar argumentar que sim, peça para mostrar um exemplo aceito pela norma padrão. Vai demorar pra encontrar.