Rompimento Da Barragem Em Mariana - Vídeo: Rompimento da Barragem em Mariana completa quatro anos | Vídeos ...
Vídeo: Rompimento da Barragem em Mariana completa quatro anos | Vídeos ...

A barragem de rejeitos que mudou o curso do Rio Doce

O rompimento da barragem em mariana aconteceu no dia 5 de novembro de 2015 na localidade de Gamboa, município de Mariana em Minas Gerais. A represa Fundão, pertencente à Samarco Mineração S.A., uma joint venture entre Vale e BHP Billiton, cedeu por volta das dez horas da manhã. O volume total de rejeito de ferro e outros minerais lançado ultrapassou 40 milhões de metros cúbicos. Eu estava trabalhando com monitoramento hidrogeológico em outra bacia quando ligaram para mim num sábado. Não foi imediato reconhecer a proporção até ver as imagens aéreas que chegavam aos boletins técnicos. O lodo não seguiu apenas os leitos tradicionais. Penetrava nas matas ciliares, soterrava a vegetação ribeirinha e alterava a vazão natural do Rio Doce em praticamente todo o seu trajeto até o oceano Atlântico.

O que se passa depois do rompimento da barragem em mariana

A primeira coisa que acontece é o fluxo de detritos com alta densidade. Mistura água, argila, ferro oxidado e rejeitos finos num material que se comporta como um fluido não-newtoniano. Quando em movimento, parece líquido. Quando em repouso, endurece progressivamente. Isso cria um desafio operacional que poucos consideram nos modelos teóricos. No caso de Mariana, a topografia da bacia do Rio Doce acelerou o transporte. O terreno íngreme da Serra do Espinhaço fez com que o rejeito atingisse a planície aluvial em poucas horas. A densidade aparente dos sedimentos depositados variou entre 1,8 e 2,4 g/cm³ nas áreas mais próximas da represa. Nas zonas de deposição distal, próximo ao rio São Francisco, caiu para 1,2 g/cm³.

O impacto sobre as comunidades ribeirinhas foi direto. Ouro Preto, Nova Lima, Rio Doce, Tumiritinga, Ponte Nova e outras cidades perderam acesso a água potável por semanas. O sistema de abastecimento de Ouro Preto foi paralisado. A população dependeu de caminhões-pipa durante cerca de trinta dias. Isso foi documentado pela Defesa Civil e pela ANA.

Como funciona a avaliação estrutural de barragens após rotura

A técnica padrão envolve inspeção pós-rotura com levantamento topográfico detalhado da cavidade residual. Usa-se multibeam sonar no leito da barragem destruída para mapear a profundidade erodida. No Fundão, o sulco de erosão atingiu 12 metros de profundidade em alguns trechos. O volume escavado pelo fluxo de rejeito superou 3 milhões de metros cúbicos apenas na parte superior da bacia. Um problema prático que encontrei em campo: a calibração dos instrumentos. Os níveis de lama suspensa no rio atingiram 50.000 NTU nas primeiras 48 horas. Isso impossibilitava o uso de sonares convencionais. A solução foi empregar perfiladores acústicos Doppler (ADV) instalados em estruturas fixas. A taxa de deposição medida foi de aproximadamente 2 centímetros por hora nas zonas de calmaria relativa.

A análise granulométrica dos sedimentos revela algo contra-intuitivo. Partículas menores que 63 micrômetros (siltes e argilas) representam 35% do volume total, mas apenas 12% da massa seca. Isso porque os rejeitos de minério de ferro têm densidade específica elevada, em torno de 4,2 g/cm³. O peso volumétrico dos depósitos supera o esperado para materiais aluvionares comuns.

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Limitações dos modelos preditivos de propagação

Os softwares de simulação de fluxo de detritos, como FLO-2D e TUFLOW, subestimaram a extensão real da contaminação em Mariana. A principal causa: a não consideração da reologia dos rejeitos. O material do Fundão comportou-se como um fluido Bingham com tensão de cedência inicial em torno de 5 Pa. Isso permitiu que o fluxo mantivesse velocidade elevada por distâncias maiores do que prevêem modelos newtonianos. Outra limitação crítica: a variação sazonal. A seca de 2015 reduziu a vazão natural do Rio Doce para menos de 2 m³/s na seção próxima a Bento Rodrigues. Com menor diluição, a concentração de metais pesados nos sedimentos depositados foi 3 vezes superior ao estimado nos relatórios preliminares. Ferro total atingiu 12.000 mg/kg nos primeiros 500 metros do leito.

Recomendações alternativas quando os modelos falham: uso de LiDAR terrestre para mapeamento de alta resolução da deposição. No pós-rotura do Fundão, esse método permitiu detectar variações de elevação do terreno de 5 cm em áreas de 1 km². A precisão superou imagens de satélite, mesmo em condições de cobertura nuvens persistente na região serrana.

Monitoramento de qualidade da água após desastre

A metodologia padrão da ANA exige coleta diária em pontos fixos. No entanto, o rompimento da barragem em mariana alterou drasticamente a rede de monitoramento existente. Vários estafluviométricos foram soterrados ou destruídos pelo fluxo de rejeito. A reposição demandou aproximadamente 45 dias úteis. Um detalhe operacional importante: a preservação das amostras. Rejeitos de minério de ferro liberam metais traço em condições áidas. O pH da água no trecho urbano de Santa Lourenço caiu para 3,2 nas primeiras duas semanas. Isso exigia acidificação das amostras com HNO subito após coleta para evitar precipitação de hidróxidos. Sem esse procedimento, os resultados de cromo e níquel ficavam comprometidos.

A longo prazo, a remediação do Rio Doce segue em andamento há dez anos. O plano de restauração envolve remoção seletiva de sedimentos contaminados em trechos estratégicos. O custo estimado ultrapassa 2 bilhões de reais. A Samarco foi declarada responsável solidária pela Vale e pela BHP, conforme decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais em 2019.

O que a experiência de campo ensina

Nenhum modelo substitui a verificação in loco. As simulações do Fundão consideraram um volume de 20 milhões de metros cúbicos. O real foi superior a 40 milhões. A diferença veio da compressibilidade do rejeito armazenado. Materiais finos de usinagem de minério compactam-se progressivamente. A consolidação pré-rotura aumenta a densidade aparente e modifica o comportamento de fluidez durante o despejo. O monitoramento pós-desastre revela padrões que só aparecem em campo. A deposição de rejeitos não é homogênea. Camadas seqüenciais de 2 a 8 cm se sobrepõem, criando estratificação irregular. Cada evento de chuva subsequente mobiliza camadas específicas, gerando pulse de contaminação intermitente. Esse fenômeno foi documentado pela primeira vez nas medições do Rio Doce entre 2016 e 2018.

A lição prática é direta: barragens de rejeitos exigem vigilância contínua, não apenas inspeções periódicas. O rompimento do Fundão aconteceu durante operação normal. Não houve alerta sísmico ou pluviométrico precedente. A causa raiz foi identificação tardia de fluxo interno na talude oeste da represa. Trincheiras de drenagem obstruídas reduziram a eficiência de alívio de poros em 40% nos seis meses anteriores ao colapso.