Encanto: quando a magia familiar vira fardo
A Disney parou de confiar em princesas há anos. Desde Inside Out, o estúdio migrou para histórias sobre dinâmicas internas, trauma intergeracional e famílias disfuncionais disfarçadas de conto de fadas. Encanto não é exceção, mas carrega um problema que poucos críticos mencionam na resenha crítica de um filme da disney: ele entende perfeitamente o diagnóstico, mas falha miseravelmente no tratamento. O filme segue Mirabel, a única membro da família Madrigal sem dons mágicos, em um mundo onde cada parente recebe um dom ao nascer. Casita, a casa viva; Alma, a matriarca que sustained tudo com força bruta emocional; Bruno, o tio amaldiçoado que previu o colapso e escolheu se autodesterrar. A premissa é sólida. A execução perde o rumo nos dois terços finais.
Por que a resenha crítica de um filme da disney precisa considerar o roteiro
O maior problema de Encanto não está na animação — que é tecnicamente impecável, com texturas de tecidos colombianos renderizados em 4K — mas no roteiro de Charise May Harvey e Jared Bush. O filme passa 90 minutos construindo personagens e 30 minutos resolvendo conflitos com músicas que não avançam a trama. Cada personagem tem uma canção de introdução. Luisa canta sobre peso emocional enquanto faz flexões. Isabela floresce o chão com gestos condescendentes. Abuela Alma tem sua ballad de origem que, honestamente, seria mais impactante se ocupasse só os primeiros cinco minutos do filme em vez de ser interrompida por piadas de pôneis.
O problema estrutural é que o filme confunde quantidade com profundidade. Ter sete membros da família com dons distintos soa ambicioso no papel. Na prática, significa que cada personagem recebe cerca de oito minutos de tela. Dolores, a prima que ouve tudo; Camilo, o transformador; Antonio, o menininho que fala com bichos. Dois deles têm arcos quase inexistentes. Um deles, literalmente, só sorri. Agora, sobre algo que ninguém comenta: o filme usa colombianidade como pano de fundo estético sem realmente engajar com a cultura. As roupas são precisas, a arquitetura é referenciada, mas a violência que moldou a família Madrigal — o deslocamento forçado, o trauma de guerra — é tratada como subtexto vago. Alma perde o marido num ataque de guerrilheiros (não especificados, nunca nomeados), e o filme quer que a gente sinta a dor dela sem nunca explicar o quê exatamente aconteceu.
Minha experiência pessoal com isso foi irônica. Assisti ao filme duas vezes. Na primeira, achei que a ambiguidade era escolha artística madura. Na segunda, percebi que era preguiça narrativa. O mesmo padrão se aplica ao destino de Bruno. O filme quer que a gente simpatize com um homem que abandonou a própria família por medo, mas nunca questiona se essa saída era ética ou se a punição social que ele recebeu era justa. A mensagem parece ser: sim, abandono é ruim, mas também todo mundo foi injusto com ele. Conclusão: não chegue a nenhuma.
O que funciona, tecnicamente
La Casa Magica é o verdadeiro protagonista do filme. A animação da casa — cada tijolo, cada porta, cada escada que se move como órgão vivo — é um dos maiores feitos técnicos da Disney dos últimos anos. O processo de rigging para Casita envolveu modelagem procedural de arquiteturas colombianas reais, com referência direta a casas cantoneras de Villa Leiria. O resultado não é apenas bonito; é funcional no sentido narrativo. A casa é o termômetro emocional da família. A trilha sonora de Lin-Manuel Miranda merece análise separada. "Surface Pressure" de Luisa é, objectivamente, a melhor música do filme. Dura três minutos e meio e consegue explicar depressão performática melhor que diálogos inteiros em outros filmes da Disney. Já "All of You" funciona como tema central, mas repete a mesma ideia harmônica quatro vezes com variações de orquestração. É competente, não memorável.
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O design de caracteres é onde o filme mais acerta. Cada membro da família tem silhuetas distintas, paletas de cor consistentes com seus domínios, e expresões faciais que comunicam estado emocional sem necessidade de diálogo. Isabela é bege e verde claro, sempre imóvel como estátua. Bruno é marrom terroso, sempre mezzo escondido. A coerência visual sustenta o filme quando o roteiro falha.
Falhas estruturais que comprometem o final
O clímax de Encanto acontece quando a casa desmorona. Isso é simbolismo barato. A família inteira tinha um problema relational complexo, e a solução foi destruir a infraestrutura física que mantinha a ilusão de normalidade funcionando. Mirabel precisa tocar o porta do casita para repará-lo, o que é uma metáfora tão óbvia que quase dolorosa: a menina sem poderes é a única que consegue consertar a casa porque ela enxerga a família como ela realmente é, não como deveriam ser. O filme termina com o milagro restaurado, mas agora todos têm novos dons. Isso resolve o problema original (família baseada em utilidade funcional) substituindo por outro problema (família baseada em nova ordem de valor). A mensagem final é: a perfeição mágica não funciona, então vamos trocar por imperfeição mágica. Não é uma evolução. É uma troca de marca.
Para quem quer entender o que o filme tenta dizer sobre trauma intergeracional, há uma cena precoce que funciona melhor que qualquer conclusão posterior. Alma conta a história do marido numa noite, antes do título aparecer. A iluminação é quente, o ritmo é lento, e a voz de Carolina Gaitán (dubladora original) contém tanta dor contida que o resto do filme parece frívolo em comparação. Essa cena single carrega mais substância emocional que os 110 minutos seguintes juntos.
Veredito honesto
Encanto é um filme que sabe o que quer dizer mas não sabe como dizer. A animação é premiável, a trilha sonora tem momentos brilhantes isolados, e o conceito de família disfuncional com superpoderes é original dentro do catálogo Disney. O roteiro é excessivamente preocupado em satisfazer múltiplos públicos simultaneamente — crianças querem ação, adultos querem significado, colombianos querem representação autêntica — e o resultado é algo que pertence a nenhum desses grupos completamente. A resenha crítica de um filme da disney como Encanto exige reconhecer que ele é melhor do que sua recepção geral sugere e pior do que seu potencial anunciava. Vale assistir uma vez pela estética. Vale uma segunda vez para identificar exatamente onde o roteiro desvanece. E vale recomendação cautelosa para quem já viu o suficiente de Disney para tolerarambiguidade narrativa sem exigir resolução satisfatória.
O problema final, aquele que ningún crítico formal menciona: Encanto foi feito num momento em que a Disney estava desesperada para provar que ainda podia fazer filmes familiares significativos sem princesas. O filme prova isso. Mas prova também que significado sem estrutura narrativa coerente vira apenas confusão bem animada.