Resenha A Hora Da Estrela - Resenha A Hora Da Estrela - FDPLEARN
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O que é A Hora da Estrela

A Hora da Estrela é um filme brasileiro de 1977, dirigido por Carlos Diegues e baseado no romance homônimo de Clarice Lispector, publicado em 1977. O longa marca uma fase importante do cinema nacional pós-CPC e segue a trajetória de Macabéa, uma nordestina ingênua que vive no Rio de Janeiro como datilógrafa mal paga, sonhando com sucesso e amor, mas vivendo à margem da invisibilidade social. O filme foi rodado em preto e branco, com atuação marcante de Marcélia Cartaxo no papel-título. A fotografia de José Eduardo Bernardes captura a seca urbana do Rio dos anos 70, enquanto a trilha sonora de Roberto Meyer misturaMPB e jazz. Estreou em setembro de 1977 e já entrou para o cânon do cinema brasileiro como obra fundamental sobre a condição da mulher nordestina no Sudeste.

resenha a hora da estrela — contexto e recepção inicial

A estreia teve bilheteria razoável, mas a crítica da época dividiu opiniões. Alguns jornalais elogiaram a fidelidade ao livro; outros acharam a adaptação muito lenta. Carlos Diegues, vindo do Cinema Novo, quis escapar do politizado óbvio e focou no íntimo da personagem. Marcélia Cartaxo, ainda unknown, surpreendeu com uma atuação contida, quase documental. O roteiro de Diegues e Maria Teresa de Andrade manteve a voz narrativa de Clarice, com narrações em off que quebram a quarta parede. Não vou mentir: o filme cansa no segundo ato. A lentidão proposta pela diretoria artística às vezes pesa. Mas há algo nessa quietude que o cinema comercial não alcança. Macabéa é tão invisível que o espectador começa a sentir vergonha de julgá-la — e esse efeito é proposital.

por que assistir (ou não) hoje

Se você curte cinema brasileiro dos anos 70, é obrigatório. Se prefere ritmo acelerado, talvez enfrente 109 minutos de espera. O legado cultural supera as limitações de pacing. A cena final, com o acidente de carro — simbolicamente ambíguo, sem resolução moralista — ainda choca. Diegues se recusou a dar consolo fácil a Macabéa, e isso é o que faz o filme vivo décadas depois. Ficheiros de restoration foram produzidos pela Cinemateca Brasileira em 2019. Cópias em 4K estão disponíveis para exibição institucional. Acesso doméstico é limitado a DVDs descontinuados ou streaming pontual em plataformas brasileiras. Vale buscar em festivais ou universitários, onde a projeção em grande tela ainda compensa as diferenças de som.

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elementos-chave da obra

O romance de Clarice Lispector foi publicado pela Editora Record em 1977. Diegues adaptou mantendo a estrutura fragmentária. A personagem Macabéa é baseada em mulheres reais que o diretor conheceu no Rio. O nome "Macabéa" vem do latim "macaber", ligado à ideia de miserável. A datilografia como ofício retratado era comum entre mulheres nordestinas migradas. O emprego na agência de propaganda reflete a mobilidade social limitada dos anos 70. A relação com Roberto, o americano que a abandona, é tratada sem vitimismo. Macabéa não é vítima passiva; ela escolhe permanecer cega para certos sofrimentos. O horóscopo como elemento narrativo aparece três vezes no filme, cada vez com leitura diferente, mostrando como o destino é construído socialmente. A água mineral como símbolo de modernidade inalcançável é recurrida com ironia sutil.

curiosidades e bastidores

Marcélia Cartaxo não sabia que faria cinema antes. Testou para o papel depois de trabalhar como vendedora. Diegues a escolheu pela expressão facial neutra, quase de madeira. As gravações duraram 45 dias no Rio e em Recife. A cena do carnaval foi filmada em tempo real, sem rehearsal. O locador original teve problemas com a música de Meyer, considerada muito abstrata. A trilha foi recomposta parcialmente. O romance de Clarice foi escrito em 1976, durante período de repressão política. A obra evita o explícito, mas carrega a violência estrutural do regime. O filme de 1977 manteve essa ambiguidade. A Censura Federal não vetou cenas, mas cobrou cortes na versão final. Diegues resistiu e manteve o desfecho ambíguo. A resposta oficial do governo à época foi silenciosa — o filme foi ignorado institucionalmente durante anos.

legado e influência

A Hora da Estrela influenciou diretores como Anna Muylaert e Kleber Mendonça Filho. A representação da migração nordestina foi retomada em filmes dos anos 2000. Macabéa tornou-se arquétipo da mulher invisível no cinema brasileiro. A obra de Clarice Lispector ganhou novo reader público após o sucesso do filme. Estudos de gênero frequentemente citam a personagem como exemplo de interseccionalidade antes do termo popularizar. O longa está disponível em restauro digital pela Cinemateca. Projeções em festivais ainda acontecem regularmente. A versão em DVD da emboutique Casa Nova tem comentários do diretor. A análise acadêmica é abundante, mas acessível apenas a bibliotecas universitárias. Quem quiser ver deve procurar salas de arte ou eventos especializados, onde a experiência coletiva amplifica o impacto da narrativa.

versus outras adaptações de Clarice

Outras obras de Clarice foram adaptadas, como "Laços de Família" e "A Paixão según G.H.", mas nenhuma alcançou o mesmo reconhecimento popular. A diferença está na centralidade da personagem feminina nordestina. Diegues soube transformar a literária em cinematográfico sem perder a essência. O resultado é um filme que respira na mesma frequência do texto original — lento, densos, inevitável. Se você tiver acesso a uma cópia em bom estado, assista em um só tempo. A pausa para café quebra a imersão proposta. O final não dá resposta — e essa é a resposta. Macabéa nunca teve hora da estrela; ela foi sempre estrela Cadente, brilhou e apagou sem que ninguém notasse. Esse é o convite de Diegues: olhar para o que a sociedade prefere ignorar.