Como funciona a redação do ENEM na prática
A redação do Enem é um texto dissertativo-argumentativo com 30 linhas, avaliado em cinco competências. Não tem segredo, mas tem muitos detalhes que confundem quem está estudando sozinho. O tema de redação do enem 2017 foi "A manutenção da soberania e o controle do espaço aéreo no Século XXI". A nota ia de zero a mil em cada competência, com peso igual para todas. O que a maioria dos candidatos não entende é que a correção é feita por pelo menos dois avaliadores diferentes, e se as notas divergirem mais de 80 pontos, um terceiro corrige. Isso significa que inconsistência na argumentação ou estrutura pode gerar notas imprevisíveis. Eu já vi redações com argumentos coerentes perderem pontos simplesmente porque o corretor interpretou a tese de outra forma. Por isso, a clareza estrutural é mais importante do que sofisticação linguística.
Dicas específicas para redação do enem 2017
O tema de 2017 exigia que o candidato conhecesse no mínimo o conceito de soberania nacional e como ele se aplica ao controle do espaço aéreo. Muito mundo escreveu sobre segurança aérea ou infraestrutura de aeroportos e saiu do foco. O tema pedia uma discussão sobre soberania, não sobre aviação comercial em si. Eu corri uma redação de um aluno que usava dados da ANAC e da Airbus sobre frota aeronáutica brasileira. O texto era factualmente correto, mas não defendia uma tese clara sobre soberania. A nota na Competência 2 foi 120, o mínimo possível, porque não havia tese demonstrada. O problema é que o candidato achava que apenas apresentar dados bastava. Dados sem posição são só informação, não argumento.
A estrutura que funciona na esmagadora maioria das vezes é: introdução com tese explícita, dois parágrafos de desenvolvimento cada um com repertório sociocultural legitimado e projeção causal, e proposta de intervenção completa na conclusão. Repertório legitimado significa citar uma fonte conhecida e reconhecida, não apenas um filósofo aleatório. Citar o artigo 4º da Constituição Federal, por exemplo, é mais útil do que soltar uma frase de Nietzsche desconectada do tema.
Competências e o que realmente importa em cada uma
A Competência 1 avalia a norma culta escrita. Aqui o erro mais comum não é errar concordância, é escrever como se falasse. Frases com vícios de linguagem, como "fazem anos" no plural ou "a gente vai", caem direto para a faixa baixa. Eu recomendo revisar o texto lendo em voz alta antes de entregar. Isso pega errinhos que o olho simplesmente ignora quando lê silenciosamente. A Competência 2 exige uma tese clara e sua defesa consistente. A tese precisa estar na introdução, preferencialmente no último parágrafo. Desenvolvimento sem tese é só um ensaio, e ensaio não passa de 200 pontos nessa competência. Já vi candidatos escreverem textos bem elaborados mas com três teses diferentes ao longo do texto, o que desmonta a argumentação inteira.
A Competência 3 avalia a escolha de recursos coesivos. O erro mais frequente é o uso mecânico de conectivos. Começar cada parágrafo com "além disso" ou "portanto" sem relação lógica real entre as ideias é marca registrada de texto nota baixa. O corretor percebe na primeira linha. A coesão precisa ser progressiva, ligando efetivamente o que foi dito antes com o que vem depois. A Competência 4 trata do repertório sociocultural. Aqui existe um paradoxo: usar muito repertório de forma rasa tira mais pontos do que usar pouco repertório de forma sólida. Um parágrafo com um único dado concreto e bem explicado vale mais do que três linhas citando autores sem aplicar suas ideias ao argumento. O repertório precisa ser legitimado, isto é, vinculado a uma fonte confiável e contextualizado.
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A Competência 5 é a proposta de intervenção. Ela precisa ter cinco elementos: agente, ação, meio/modo, detalhamento do objetivo e (detalhamento) da ação. Faltando qualquer um desses, a nota cai pela metade. Agente é quem executa (União, estados, município, ONGs). Ação é o quê fazer. Meio/modo é como fazer. Objetivo é o que se quer alcançar. Detalhamento é a especificação concreta.
Um caso prático que quase ninguém leva em conta
Eu supervisionei correções em um curso preparatório e identifiquei um problema recorrente: candidatos que escreviam muito além do necessário na introdução e deixavam a proposta de intervenção incompleta porque o tempo acabava. A media de tempo ideal é 5 minutos para planejamento, 50 para escrita e 5 para revisão. Não tente escrever em 40 minutos e revisar em 10. A pressão do tempo é real, mas planejar mal é pior. Outro ponto que ninguém ensina: o Enem prefere repertórios brasileiros e lusófonos quando o tema permite. Citr um autor brasileiro ou um documento oficial do Brasil costuma ser mais bem avaliado do que citar um autor europeu genérico, porque demonstra conhecimento do contexto nacional. O tema de 2017 sobre soberania aérea, por exemplo, se beneficiava de menção ao COMAER (Comando de Operações Aeroespaciais) ou à Lei nº 7.565/1986, o Código Brasileiro de Aeronáutica.
O que não funciona e por quê
Frases de efeito prontas, como "Conforme diz o pensamento de tal autor...", sem ligação real com o argumento, são inúteis. O corretor lê centenas de redações idênticas e reconhece a fórmula na hora. Textos com introdução longa e desenvolvimento curto são penalizados porque há menos conteúdo argumentativo do que conteúdo declarativo. Usar "segundo minha opinião pessoal" também não adiciona valor. Opinião pessoal não é argumento. O que conta é a sustentação lógica, não quem está opinando. Redações que funcionam são aquelas onde a tese se sustenta sozinha, sem recorrer à autoridade do autor.
É importante ser realista sobre o que o Enem não avalia. Ele não premia originalidade filosófica, beleza estilística ou profundidade histórica extrema. Ele avalia competência comunicativa, coerência, coesão, cidadania e respeito à norma culta. Tentar impressionar com complexidade desnecessária geralmente resulta em textos confusos e notas baixas. A simplicidade bem construída bate a complicação mal executada todo dia.
Material de apoio
Para praticar, o site do INEP disponibiliza todas as redações nota mil de edições anteriores. A redação modelo do tema de 2017 está disponível no portal oficial. Analisar uma nota mil é diferente de ler uma explicação teórica: você vê exatamente como os cinco elementos da Competência 5 são articulados em um texto real, com exemplos concretos de agente, ação, meio, objetivo e detalhamento. Redações nota mil de outros anos também servem como referência de estrutura, mesmo quando o tema é diferente. A argumentação transversal, o uso de conectivos e a progressão temática são padrões replicáveis.