Redação Do Enem 2015 - Redação Do Enem 2015 - BRAINCP
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A redação do ENEM exige mais do que bom senso

A prova de redação do ENEM 2015 trouxe o tema "Paralisantes conflitos: a manutenção da cultura indígena no Brasil" e, honestamente, foi um daqueles anos em que a maioria dos candidatos errava no ponto certo. Não porque o tema fosse difícil, mas porque as pessoas liam mal o que estava sendo pedido. Eu corrigi redações desses exames por anos. O que vejo repetidamente é alguém que sabe escrever bem, mas não sabe escrever para aquele formato específico. A redação do enem 2015 em particular mostrou isso claramente.

Entendendo o que a banca realmente quer

O tema pedia uma dissertação-argumentativa. Isso significa duas coisas: você precisa ter uma tese clara e precisa argumentar para sustentá-la. Muitos candidatos escreviam sobre cultura indígena como se fosse um texto expositivo, apenas informando sobre os problemas. A banca nota isso na hora. A estrutura básica que funciona é mais ou menos assim. Parágrafo introdutório apresentando o tema e sua tese. Dois parágrafos de desenvolvimento com argumentos específicos. Proposta de intervenção no final com todos os elementos exigidos: quem vai fazer, o que vai fazer, como vai fazer, para quê e, se possível, detalhamento. Não precisa ser brilhante. Precisa ser funcional.

O erro mais comum que eu via nas correções

Os candidatos adoravam citar artigos constitucionais e leis gerais. "A Constituição de 1988 garante..." Isso não é argumento, é enfeite. A banca já leu isso milhares de vezes. O que diferencia uma redação nota alta é conectar a lei ao problema concreto e mostrar como ela se relaciona com a manutenção da cultura indígena especificamente. Euvia redações que começavam com uma alusão histórica bem colocada. Tipo mencionar a Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas da ONU ou o Estatuto do Índio de 1973. Mas o legal mesmo era quando o candidato usava esses dados para construir um raciocínio, não só para impressionar. Um detalhe prático que poucas pessoas levam em conta: a coesão textual. A banca pontua separadamente a competência 4, que avalia os mecanismos de articulação entre as ideias. Conexões como "além disso", "por outro lado", "consequentemente" são importantes, mas o que realmente conta é a progressão lógica. Cada parágrafo precisa avançar o argumento, não apenas repetir a mesma ideia com sinônimos diferentes.

A proposta de intervenção

Este é o ponto onde a maioria dos candidatos perde pontos. A proposta precisa ter cinco elementos: agente (quem executa), ação (o que fazer), meio/modo (como fazer), efeito (para quê) e detalhamento (um complemento que dê concretude). Muita gente escrevia algo genérico como "o governo deve promover a conscientização". Isso não funciona porque não diz quem no governo, qual ministério, de que forma. Uma proposta melhor seria: "O Ministério da Educação, em parceria com as comunidades indígenas, deve implementar programas educativos que valorizem as tradições orais e artesanais nas escolas públicas das regiões com presença indígena significativa, por meio de oficinas e materiais didáticos produzidos por membros dessas comunidades, com o objetivo de fortalecer a identidade cultural das novas gerações indígenas". Veja a diferença. Tem agente, ação, meio, efeito e detalhamento. É longa, mas é concreta.

O que funcionou na prática

Durante a correção da redação do enem 2015, notei que as melhores redações seguiam um padrão quase previsível. Começavam com uma situação-problema clara, apresentavam causas ou consequências bem articuladas, e fechavam com uma proposta que parecia factível. Não precisavam ser ideias originais. Precisavam ser coerentes. Um caso que lembro é de um candidato que argumentou que a manutenção da cultura indígena depende diretamente da demarcação das terras. Ele conectou isso com a questão da exploração ilegal de recursos nessas áreas e propôs que o IBAMA fortalecesse a fiscalização com apoio das comunidades. Simple, direto, com todos os elementos da proposta de intervenção. Nota máxima. Outro ponto importante: o vocabulário. Não precisa ser rebuscado. Precisa ser preciso. Palavras como "etnocídio", "pluriculturalidade", "soberania territorial" funcionam bem quando usadas corretamente. Já palavras como "infelizmente" ou "lamentavelmente" são preenchimento vazio que não contribuem para a argumentação.

Dicas técnicas que fazem diferença

Escreva primeiro no rascunho com letra legível. Simples assim. Muita gente pula isso e corre o risco de ter que refazer o texto inteiro se errar um parágrafo inteiro. Conte as linhas. O mínimo é 15, o máximo sugerido é 30. Se passar muito, a banca pode penalizar. Se ficar abaixo, você provavelmente não desenvolveu suficientemente. Evite repitir a mesma ideia com palavras diferentes. Isso é armadilha comum. Você pensa que está sendo criativo ao usar sinônimos, mas está apenas enrolando. Use os parágrafos a seu favor. Cada um deve ter uma função clara. Introdução apresenta. Desenvolvimento argumenta. Conclusão propõe. Não misture funções dentro do mesmo parágrafo. O tempo de produção é limitado. Reserve pelo menos 10 minutos finais para releitura. Não para corrigir erros de português, mas para verificar se sua tese está clara, se os argumentos estão bem encadeados e se a proposta de intervenção tem todos os elementos necessários.

Limitações e o que não adianta tentar

Não existe fórmula mágica. Textos decorados ou estruturas repetitivas demais são facilmente identificados pela banca e penalizados. O que funciona é construir uma argumentação coerente com base no que você realmente sabe sobre o tema. Se você não tem conhecimento suficiente sobre o assunto, não force. É melhor escrever sobre algo que você entende do que tentar argumentar sobre questões que desconhece. A coerência interna vale mais do que informação superficial. A redação do enem 2015 testou exatamente isso: capacidade de argumentar sobre um tema complexo de forma estruturada. Não pediu criatividade literária. Pediu clareza, coesão e uma proposta viável. Focar nesses elementos é o caminho mais seguro.