Quem Criou O Machismo - Terapeuta mexicana transforma em quadrinhos o 'machismo light' que ...
Terapeuta mexicana transforma em quadrinhos o 'machismo light' que ...

A origem do machismo: quem foi o criador?

Muita gente pergunta quem criou o machismo, como se tivesse havido um inventor solitário, um momento preciso em que alguém decidiu organizar a dominação masculina num manual. A verdade é bem mais chata e muito mais antiga. O machismo não tem autor. Ele é um sistema de hierarquia de gênero que emergiu de forma independente em civilizações espalhadas pelo mundo, em épocas diferentes, sempre com o mesmo desenho básico: homens ocupam poder político, econômico e religioso; mulheres são reduzidas a funções reprodutivas e domésticas, com pouca ou nenhuma voz nas decisões públicas.

Por que a pergunta quem criou o machismo não tem uma resposta única

Se você procurar por um nome, vai encontrar mitologias, leis e filósofos que justificaram a desigualdade — mas ninguém a inventou do zero. O que existe é uma sucessão de sociedades que adotaram, reforçaram e institucionalizaram a subordinação feminina, cada uma com suas próprias justificações culturais ou religiosas. Na Mesopotâmia, o Código de Hamurábi (século XVIII a.C.) já tratava mulheres como propriedade legal do pai ou do marido, com punições desproporcionais em casos de adultério. Em Athens clássica, uma mulher adulta era legalmente incapaz de votar, possuir terras em seu nome ou participar da vida política. Na Roma antiga, a figura do paterfamilias conferia ao homem chefe de família poder vitalício sobre esposas, filhos e escravos.

O que esses exemplos têm em comum não é um plano coordenado, mas uma condição prática: sociedades agrícolas e pastoris precisavam de força física para war e trabalho pesado no campo, e a distribuição biológica média de massa muscular masculina acabou sendo usada como argumento para concentrar poder. Não foi uma escolha ética. Foi uma conveniência econômica disfarçada de ordem natural.

Como o machismo se manteve e se adaptou

Um erro comum é achar que o machismo desapareceu com o tempo. Ele sobrevive porque se adapta. Quando a força física deixa de ser o critério principal de produção — como aconteceu na Revolução Industrial e depois nos serviços — ele muda de justificativa. Passa a falar de "natureza feminina", de "vocação maternal", de "proteção". O mecanismo de exclusão permanece; só a narrativa muda. Na Idade Média europeia, a Igreja católica consolidou a ideia de que a mulher era moralmente mais frágil, mais propensa ao pecado, e portanto precisava de direção masculina permanente. Na China imperial, o confucionismo institucionalizou os três obedecimentos: a filha obedece ao pai, a esposa ao marido, a viúva ao filho mais velho. No Brasil colonial, o direito português importado tratava a mulher casada como incapaz até 1962, quando a lei mudou e ela pôde, finalmente, assinar contratos sem autorização do marido.

Em todos esses casos, o que ocorreu não foi a criação do machismo, mas sua codificação jurídica e religiosa. Isso faz diferença porque a lei e a religião dão aparência de permanentidade. Quando algo está escrito, parece ter sido sempre assim.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Quem realmente instituiu formas específicas de machismo — nomes que aparecem nas discussões

Se formos buscar figuras históricas concretas que artikularam teorias em defesa da desigualdade de gênero, podemos citar alguns nomes. Aristóteles, no século IV a.C., escreveu na Política que mulheres e escravos eram naturalmente destinados à subordinação, differing dos homens livres apenas por grau de racionalidade. Joseph de Maistre, no século XVIII, defendeu que a família patriarcal era a base da ordem divina e que qualquer tentativa de igualar mulheres seria uma agressão contra a natureza. Mas repetir esses nomes como se fossem os "criadores" do machismo é cometer o mesmo erro da pergunta original. Aristóteles não inventou a subordinação feminina; ele a racionalizou filosoficamente. Maistre não criou a desigualdade; ele a santificou teologicamente. Em ambos os casos, a desigualdade já existia na prática social. O que fizeram foi dar a ela um discurso mais sofisticado.

O machismo como sistema, não como ideologia isolada

Uma nuance que poucos consideram: o machismo não é apenas violência ou discriminação aberta. Ele funciona principalmente por regras invisíveis — expectativas sobre comportamento, divisão sexual do trabalho não declarada, normalização da interrupção da fala feminina em reuniões, a ideia de que cuidado com crianças é "trabalho de mulher" mesmo quando ambos os progenitores trabalham fora. Eu já vi isso na prática em ambientes de tecnologia, onde mulheres eram constantemente perguntadas se tinham marido antes de serem questionadas sobre sua competência técnica, enquanto colegas homens nunca respondiam a perguntas semelhantes. Isso não é algo que alguém tenha decidido criar. É o funcionamento automático de um sistema cultural que considera a experiência masculina como padrão neutro e a feminina como exceção a ser verificada.

O que a história mostra sobre a resistência ao machismo

Se o machismo não tem um único criador, tampouco teve um único tipo de resistência. Sufragistas britânicas e americanas lutaram no século XIX e início do XX pelo voto. No Brasil, Bertha Lutz fight pelos direitos das mulheres nos anos 1930. Pensadoras como Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo (1949), documentaram como a mulher era construída socialmente como "o outro". Kimberlé Crenshaw, nos anos 1980, introduziu o conceito de interseccionalidade, mostrando que o machismo afeta mulheres negras, indígenas e pobres de formas distintas e acumuladas. O avanço mais concreto no Brasil aconteceu em 2015, com a Lei Maria da Penha, que criou mecanismos reais de proteção contra violência doméstica — uma das legislações mais avançadas do mundo nessa área. Antes disso, a violência doméstica era tratada como "questão privada" pela polícia e pelo sistema judiciário.

Limitações do debate atual sobre quem criou o machismo

Reduzir o machismo a uma pergunta sobre autoria individual é problemático por dois motivos. Primeiro, ele transfere a responsabilidade de um sistema para pessoas específicas, o que permite que a maioria se exima de qualquer dever de mudança. Segundo, ele ignora que sociedades sem escrita também praticavam formas de desigualdade de gênero, como mostram evidências arqueológicas de enterramentos diferenciados por sexo que remontam a milhares de anos antes de qualquer filósofo escrever sobre o tema. Além disso, há o risco de romantizar períodos anteriores. Quando se fala de "tradição" como justificativa para papéis de gênero fixos, esquece-se que essa tradição foi construída por pessoas com interesses materiais específicos — controle de heranças, manutenção de linhagens patriarcais, garantia de força de trabalho não remunerada no lar.

O que fazer com essa informação

Não existe receita simples para combater o machismo, porque ele não é um problema que pode ser resolvido com uma única lei ou campanha. Mas alguns movimentos têm mostrado resultados mensuráveis. Países com licença-parental igualitária e obrigatória para ambos os sexos, como Suécia e Noruega, apresentam taxas menores de disparidade salarial de gênero ao longo do tempo. Empresas com cotas de gênero em conselhos administrativos, como a lei italiana de 2011 que exigia pelo menos um terço de mulheres nas diretarias, mudaram a composição de poder em poucos anos. No Brasil, a legislação avançou mais rápido que a cultura. A Constituição de 1988 declarou igualdade entre homens e mulheres em direitos e obrigações. A Lei da Marias da Penha (2006) e a Lei do Feminicídio (2015) criaram instrumentos práticos de combate à violência. O problema persiste porque lei sem mudança cultural é incompleta — e a cultura muda muito mais devagar que os códigos jurídicos.

A pergunta quem criou o machismo continua sem resposta única porque a pergunta em si está mal formulada. Não houve um criador. Houve uma série de sociedades que, em diferentes momentos históricos, encontraram conveniências econômicas e políticas para manter mulheres em posições subordinadas, e construíram sobre isso sistemas jurídicos, religiosos e culturais que seautoperpetuam. A resposta mais honesta é que o machismo foi criado por todos que se beneficiaram dele e por todos que silenciaram quem resistia, em cada época e em cada lugar.