A pergunta errada sobre quem criou o feminismo
Você vai encontrar várias respostas diferentes pra essa pergunta dependendo de quem pergunta. A verdade é mais complicada do que um nome só, e a maioria das pessoas que respondem isso não consegue explicar o porquê. O feminismo como movimento organizado não teve um fundador único. Ele nasceu de circunstâncias, de mulheres (e alguns homens) que começaram a questionar estruturas de poder em contextos específicos, e esses momentos se somaram ao longo dos séculos. O problema é que a cultura pop gostou da ideia de um criador único, porque é mais fácil de lembrar e vender.
Quem criou o feminismo: a resposta honesta
Se você quer saber quem cunhou o termo, a gente chega no francês Émile Littré em 1882, que usou a palavra "féminisme" num dicionário. Mas ele não estava promovendo nada. Só catalogou o que já existia como conceito social. As mulheres que estavam lutando por direitos na época pegaram essa palavra e adotaram pra si mesmas. Foi mais ou menos assim: alguém inventa um rótulo e o movimento cola nele depois. Já se a pergunta é sobre as ideias por trás do feminismo, a história volta bem mais longe. Mary Wollstonecraft escreveu "A Vindication of the Rights of Woman" em 1792, que é basicamente o documento fundacional do pensamento feminista ocidental. Ela argumentava que as mulheres não eram inferiores por natureza, mas sim por falta de educação. Isso era radical na época e continua sendo relevante até hoje.
Tem também a Olympe de Gouges, que em 1791 escreveu a "Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã", respondendo diretamente à Declaração dos Direitos do Cidadão da Revolução Francesa. Ela foi guilhotinada por causa disso. É importante notar que muitos dos primeiros textos feministas vieram de contextos de revolução política, não de movimentos sociais organizados como a gente conhece agora. Na América do Norte, as things ficaram mais complicadas. Susan B. Anthony e Elizabeth Cady Stanton lideraram o movimento sufragista nas décadas de 1800, mas o movimento já tinha vida própria antes delas. Lucretia Mott, Sojourner Truth, Harriet Tubman — todas contribuíram de formas diferentes, e muitas vezes suas vozes foram apagadas ou minimizadas na narrativa dominante, que tende a focar em figuras brancas e europeias.
As ondas e por que elas importam
Quando as pessoas falam sobre quem criou o feminismo, geralmente estão confundindo a primeira onda com o todo do movimento. A primeira onda, mais ou menos entre 1840 e 1920, focava em direitos legais básicos: voto, propriedade, educação. A segunda onda, anos 1960 a 1980, trouxe questões de reprodução, trabalho doméstico, violência sexual. A terceira, anos 1990 a 2010, problematizou categorias como gênero e raça. A quarta onda, dos anos 2010 pra cá, é marcada pelo ativismo digital. Cada onda teve seus próprios debates internos sobre o que era prioridade. E cada uma criticava a anterior por não ter incluído certas vozes. Isso não é fraqueza do movimento. É exatamente como movimentos sociais funcionam quando sobrevivem por mais de um século.
O que muita gente não entende é que o feminismo sempre foi múltiplo. Sempre houve mais de um feminismo, não um só. O feminismo negro nos EUA, o feminismo decolonial na África e Ásia, o feminismo islâmico no mundo árabe, o feminismo indígena nas Américas — todos emergiram de experiências concretas e criticaram as vertentes dominantes por serem demasiado ocidentais e brancas.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
O erro mais comum sobre a origem
O maior equívoco é tratar o feminismo como algo que foi "inventado" num momento específico, como uma descoberta científica. Não é isso. Ele é um campo de luta que se remodela continuamente. O que ocorre frequentemente é que novos grupos descobrem que já existem estruturas de pensamento similares há décadas, e aí surge a falsa impressão de que alguém "criou" o movimento. Uma vez vi um estudante me mostrar um artigo acadêmico que atribuía a criação do feminismo à Simone de Beauvoir por causa de "O Segundo Sexo". O livro é importante, sem dúvida, mas Beauvoir não criou nada. Ela sistematizou e filosofou sobre experiências que mulheres já viviam há séculos. E, aliás, ela mesma reconhecia as contribuições de outras pensadoras anteriores.
O mesmo vale para Betty Friedan e "A Mística da Feminilidade". Foi um livro influente na segunda onda americana, mas não foi o início do feminismo. Muitas mulheres negras e trabalhadoras já haviam organizado sindicatos, coletivos e publicações próprias muito antes de 1963.
Por que essa pergunta persiste
Achar que alguém criou o feminismo é confortável porque transforma um processo histórico complexo e coletivo em algo individual e digerível. Nossas mentes preferem narrativas de heróis solitários a explicações estruturais. É mais fácil lembrar o nome de uma pessoa do que entender como relações de poder se mantêm e se transformam. Além disso, há todo um mercado editorial e midiático que produz conteúdo sobre "as maiores pensadoras feministas" com rankings e listinhas. Isso simplifica demais. A realidade é que o feminismo é um conjunto de debates, contradições e alianças que se estende por centenas de anos e atravessa continentes.
Se você quer realmente entender quem criou o feminismo, a pergunta correta talvez seja: em que contextos históricos e materiais as mulheres começaram a se organizar coletivamente contra a subordinação de gênero? As respostas variam conforme a região, a classe social e a época. E esse pluralismo é exatamente o que torna o feminismo vivo.
O que fazer se quer se aprofundar
Comece por leituras que não sejam apenas os clássicos canônicos. Autores como bell hooks, Angela Davis, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Marielle Franco — cada um deles traz uma perspectiva que desmonta a ideia de um feminismo unitário. A obra "Queeres & Feminisms" de bell hooks é um bom ponto de partida porque mostra explicitamente como raça, classe e gênero se cruzam. Documentários como "Sem Mulher Não Há Revolução" dão conta da dimensão histórica e política de forma acessível. E para dados concretos, a UN Women publica relatórios anuais que mostram o estado da igualdade de gênero no mundo, o que ajuda a entender o quanto ainda há pra ser conquistado.
O feminismo não é um produto que alguém projetou e entregou ao mundo. É uma prática de análise e transformação que mulheres e homens construíram coletivamente. Dizer que foi criado por uma pessoa só é como dizer que a ciência foi criada por Newton. Ele fez contribuições enormes, mas a ciência não começou nem terminou com ele. A resposta pra quem criou o feminismo é: ninguém. E todas as mulheres e homens que se organizaram contra a opressão de gênero ao longo da história. Simplesmente assim, sem drama, sem herois, sem ponto final.