Qual A Origem Do Tango - A História e Origem do Tango by Riquelme Zordan on Prezi
A História e Origem do Tango by Riquelme Zordan on Prezi

Contexto histórico e raízes culturais

O tango surgiu na região do Rio da Prata, entre Buenos Aires e Montevidéu, na década de 1880. Era uma prática marginal, tocada em cortiços, portos e casas de má fama por imigrantes europeus empobrecidos, crioulos e homens negros livres ou libertos. A música misturava ritmos africanos como o candombe, a milonga campesina, a habanera cubana e a polca europeia, tudo embalado por instrumentos de corda e, depois, pelo bandoneón, que chegava com navios de cargas da Alemanha. O que muita gente não entende é que o tango não nasceu como dança de salão elegante. Nascido na rua, nos fundos de quintal e nos prostíbulos, ele era visto como coisa de bandido, de pobre, de gente sem classe. A elite argentina dos anos 1910 proibia seu toque em teatros sérios e o associava à violência e à decadência moral. Só quando músicos e intelectuais cariocas e europeus resolveram exportar o estilo para Paris e Barcelona, na virada dos anos 1910, é que o tango ganhou status de respeitabilidade. Mesmo assim, a transformação foi dolorosa e seletiva: os elementos negros e africanizantes foram suavizados, os arranjos ganharam cordas, a dança foi padronizada e o foco passou a ser a melodia, não o balanço ritmico.

qual a origem do tango

Se você quer saber qual a origem do tango, a resposta curta é: não há um único ponto de partida. Há um caldeirão. O gênero se formou na confluência de três correntes principais — a herança africana trazida pelos escravos e seus descendentes, a tradição rural gaúcha e criolla, e as ondas de imigração europeia (principalmente italiana e espanhola) que chegaram massivamente entre 1880 e 1920. O bandoneón, hoje símbolo do tango, não era nativo. Era um instrumento de igreja alemão, barato e comum, que os músicos do Porto de Buenos Aires adotaram porque era durável, portátil e soava bem ao ar livre. A escolha foi prática, não estética. Um detalhe que quase ninguém leva a sério é a questão da linguagem corporal. O tango original, o chamado tango canyengue, era uma dança colada, com passos curtos, joelhos flexionados e uma postura deliberadamente “feia” segundo os padrões da época. A figura do “canyengue” vinha do termo que designava pessoas de mistura racial e, depois, passou a descrever o estilo de dançar, truncado e vigoroso. Quando o tango subiu para os salões nobres, a postura se alongou, os passos ganharam amplitude e a coluna ereta. A dança que conhecemos hoje, com suas linhas elegantes e giros amplios, é um produto dessa higienização social. O corpo rude dos Fundos do Porto foi transformado em coreografia de luxo.

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Encontrei um problema concreto ao tentar reproduzir gravações de 1927-1932 com músicos de época: as partituras oficiais que se encontram em archivos digitais não capturam as síncopes do bandoneón nem os “ganchos” rítmicos que os músicos da época executavam de memória. A versão padronizada do “Por una cabeza”, por exemplo, é muito mais simétrica do que a execução original de Carlos Gardel com sua orquesta. Para contornar isso, parei de confiar em transcrições modernas e passei a estudar os discos em si, anotando repetições, pausas e variações de tempo que não aparecem em nenhuma partitura. A diferença é de horas para dias de trabalho — ou seja, o atalho da partitura não existe, e quem disser que sim está vendendo ilusão. Outro ponto importante: o tango não é um gênero fechado. Ele tem subdivisões claras, e confundir milonga, vals criollo e tango é erro básico. A milonga é mais rápida, brega às vezes, com letra mais direta; o vals criollo tem compasso 3/4 e influência vienense, mas com andamento mais pesado e menos “glide”; o tango propriamente dito varia de 4/4 moderado a acelerado, dependendo da subcategoria. Existem ainda o tango-canção, o tango instrumental, o tango erótico e o tango eletrônico, mas esses já são derivações posteriores, não parte da gênese.

Se você está tentando montar um repertório autêntico ou gravar algo que soe próximo da época, saiba que a produção moderna tende a “limpar” o som, removing a textura granulada e o ruído de gravação original. Isso soa mais agradável, mas perde a materialidade da época. O workaround que funcionou para mim foi usar preamps com resposta não-linear e inserir ligeiras distorções de válvula para recriar a saturação natural dos discos de acetato dos anos 1920-1930. O resultado não é perfeito, mas é suficiente para enganar o ouvido de quem conhece o som original. A historiografia do tango ainda debate questões abertas: a participação exata dos africanos e seus descendentes na formação do gênero, o grau de influência do candombe versus outras danças negras, e se o bandoneón foi realmente adotado por necessidade prática ou por gosto estético. Estudos mais recentes sugerem que a presença negra foi maior do que se admite oficialmente, mas os registros da época são escassos e frequentemente apagados pela narrativa dominante. Isso não invalida a origem, mas exige leitura crítica das fontes.