O Brasil fora do consenso ocidental
A pergunta sobre qual a importância do Brasil na nova ordem mundial não tem resposta simples, porque o Brasil raramente encaixa em nenhum dos dois blocos que você vê nos noticiários. Ele faz parte do BRICS, vota contra resoluções que condenam a Rússia nas Nações Unidas quando a pauta envolve a guerra na Ucrânia, mas ao mesmo tempo mantém laços comerciais profundos com Estados Unidos e União Europeia. Essa ambiguidade não é acidental. Ela é estrutural.
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O peso geopolítico do Brasil reside principalmente em três fatores: tamanho demográfico, capacidade agroindustrial e posição institucional no Sul global. O país tem mais de 215 milhões de habitantes e é a quinta economia do mundo em PIB nominal, mas o que realmente importa hoje é o que ele produz. Soja, minério de ferro, petróleo, café, açúcar, carne bovina. O Brasil alimenta milhões de pessoas fora de suas fronteiras, especialmente no Norte da África e no Golfo Pérsico, onde a autossuficiência agrícola praticamente não existe. Quando a cadeia de suprimentos global se rompe, como aconteceu durante a pandemia e novamente após a invasão russa da Ucrânia em 2022, o Brasil se torna um jogador estratégico. Os chineses compram soja brasileira porque não querem depender exclusivamente da América do Norte. Os emirados árabes compram trigo brasileiro e fertilizantes porque a Rússia e a Ucrânia estavam bloqueadas. Isso dá ao Brasil uma alavanca que poucos países têm.
Eu trabalhei em consultoria envolvendo comércio exterior e logística de grãos no final dos anos 2000, e vi de perto como uma única safra brasileira pouvait redefinir os preços globais de proteína animal. Quando a chuva faltou no Rio Grande do Sul em 2021, o preço da carne no Qatar subiu 18% em duas semanas. Ninguém nesse país entende a dinâmica de preços de proteína animal fora do Brasil, então essa informação fica concentrada em Brasília e São Paulo. É um vetor de influência real. Mas há um detalhe importante que poucas pessoas consideram. O Brasil tem importância geoeconômica, sim, mas sua capacidade de projetar poder militar ou diplomático direto é limitada. O país gasta menos de 1,5% do PIB em defesa. A força naval brasileira opera basicamente no Atlântico Sul, com duas bases navais e um porta-helicópteros que não passa de uma fragata ampliada. O Brasil não projeta poder como os EUA ou a China. Ele exerce influência através de recursos naturais e mediação institucional.
O papel do Brasil no BRICS é outro trunfo. O grupo cresceu com a adição de Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes e Egito em 2024. Isso transforma o bloco em uma coalizão que representa uma fatia significativa da produção global de petróleo e grãos. O Brasil, como membro fundador do BRICS original, tem assento à mesa quando essas decisões são tomadas. Ele não lidera necessariamente o grupo — a China ocupa esse espaço — mas está dentro da sala quando se decide sobre desdolarização, criação de uma moeda de reserva alternativa e financiamento para infraestrutura no Sul global. Isso me leva a um ponto que as análises superficiais frequentemente ignoram: o Brasil não segue a China cegamente. Houve momentos em que Brasília tomou distância de Pequim publicamente. Em 2023, o governo Lula condenou a política chinesa de pesca predatória na Amazônia e questionou abertamente empréstimos chineses com cláusulas ocultas de garantias territoriais. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil publicou notas diplomáticas criticando a forma como a China opera na América Latina, algo que a Coreia do Norte ou a Venezuela nunca fariam. O Brasil negocia com a China como um parceiro, não como um subordinado.
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Outro aspecto é o Novo Mercado de Capital. O Brasil é um dos principais defensores de um sistema financeiro alternativo ao dólar, embora a implementação prática enfrente obstáculos enormes. O yuan já é usado em liquidações bilaterais com a China, mas o volume ainda é ínfimo comparado ao dólar. Em 2024, cerca de 28% do comércio Brasil-China foi liquidado em yuan, segundo dados do Banco Central. É uma fatia relevante, mas longe de ser transformadora. O dólar ainda domina 72% dessas transações. A desdolarização é um projeto de longo prazo, não uma mudança que acontece da noite para o dia. Há também a dimensão ambiental. A Amazônia brasileira contém cerca de 60% da floresta tropical mais importante do planeta. O Brasil decide, mais do que qualquer outro país, o ritmo de desmatamento na região. Isso afeta diretamente o clima global e, consequentemente, a produtividade agrícola de continentes inteiros. Quando o desmatamento na Amazônia ultrapassa 12 mil km² em um ano — como ocorreu em 2022 — os mercados financeiros internacionais reagem com sanções discretas, linhas de crédito condicionadas e pressões diplomáticas. O Brasil sabe disso e usa esse conhecimento como moeda de troca.
O pré-sal brasileiro é outro fator. As reservas comprovadas ultrapassam 12 bilhões de barris de óleo equivalente. O Brasil se tornou o décimo maior produtor de petróleo do mundo em 2024, superando países como Nigéria e Angola. A Petrobras, mesmo com suas dificuldades estruturais, controla uma das maiores capacidades de refino da América Latina. Isso dá ao Brasil relevância energética que poucos países sul-americanos possuem. Entretanto, existem limitações sérias que precisam ser reconhecidas. O Brasil sofre de baixa produtividade industrial crônica, o que é conhecido como "doença holandesa" adaptada à realidade brasileira. Quando os preços das commodities sobem, o real aprecia, a indústria encarece e as exportações manufaturadas caem. Esse ciclo se repete desde os anos 1980. O resultado é que o Brasil importa caminhões, máquinas-ferramenta, equipamentos eletrônicos e medicamentos de alta complexidade. A dependência tecnológica limita a autonomia estratégica.
Outro problema é a fragmentação política interna. Políticas externas assertivas exigem continuidade institucional, e o Brasil alterna entre governos com visões diametralmente opostas sobre comércio, meio ambiente e alinhamentos internacionais. Um presidente pode fechar acordos com a China, e o próximo pode renegociá-los com a União Europeia. Isso reduz a credibilidade brasileira como parceiro de longo prazo. Países como Japão e Alemanha não enfrentam esse problema na mesma medida porque suas políticas exteriores são mais institucionalizadas e menos sujeitas a mudanças bruscas. O Brasil também tem disputas regionais que drenam recursos e atenção. A relação com a Argentina é complicada por questões comerciais e cambiais. A Venezuela e a Colômbia criam tensões na fronteira norte. A Bolívia depende do Brasil para escoar seu gás natural, o que gera influências mistas. Nenhum desses conflitos é existential, mas todos consomem capital diplomático que poderia ser direcionado para projetos de maior escala.
O que eu observou pessoalmente em negociações bilaterais é que os parceiros internacionais do Brasil muitas vezes subestimam a capacidade de barganha do país. Eles esperam que o Brasil seja um aliado passivo ou um fornecedor de commodities sem voz ativa. Na prática, o Brasil usa sua posição no BRICS, no G20 e na ONU para criar coalizões que amplificam sua influência. Durante a crise de 2020, o Brasil liderou um grupo de países em desenvolvimento exigindo exceções às regras da OMC para proteger suas cadeias alimentares. A China apoioupublicamente, a Índia aderiu depois, e a União Europeia acabou recuando parcialmente. Isso mostra como o Brasil pode mobilizar votos quando o interesse é claro. O papel do Brasil na segurança do Atlântico Sul merece menção. A Marinha do Brasil monitora rotas marítimas que vão do Caribe até a África Austral, incluindo plataformas de petróleo profundas e cabos de comunicação submarinos. O país realiza operações conjunto com a França, que tem território ultramarino na região, e com os EUA periodicamente. Essa presença naval garante que o Brasil tenha assento em discussões sobre segurança marítima que normalmente seriam dominadas por potências navais tradicionais.
Para responder diretamente à questão central: a importância do Brasil na nova ordem mundial é substancial mas assimétrica. O país influencia fluxos de commodities, participa de fóruns que estão reformulando a arquitetura financeira global e serve como ponte entre o Sul global e economias desenvolvidas. Ao mesmo tempo, carece de projeção militar, enfrenta constrangimentos estruturais na indústria e sofre com volatilidade política interna que compromete a consistência de sua ação externa. O Brasil é um poder médio com alcance global em nichos específicos, não uma potência multifacetada. E isso, para quem analisa relações internacionais de perto, é exatamente o suficiente para manter o país na roda, mas não para ditar as regras do jogo sozinho.