O que é risco ambiental na pratica
Risco ambiental e o conceito de dano ambiental nao sao a mesma coisa. Voce ja viu laudos que tratam como se fossem sinônimos, e isso mata processos todo dia. A gente define risco ambiental basicamente como a chance de um agente — seja quimico, biologico ou fisico — causar algum dano a um receptor especifico. O agente pode estar na agua, no solo, no ar. O receptor pode ser um ecossistema, uma populacao humana, uma fonte de abastecimento. A matematica por trás e simples: risco = perigo vezes exposicao. A parte que ninguém conta é que a exposicao é o fator que mais varia e que voce consegue controlar com muito mais facilidade do que o perigo em si.
quais sao os riscos ambientais mais comuns em obras e indústrias
Os riscos ambientais mais recorrentes que eu vejo em campo caem em alguns grupos claros. Tem a contaminacao do solo por hidrocarbonetos, que aparece quase sempre em postos de combustivel antigos ou oficinas mecanicas abandonadas. Tem a lixiviacao de metais pesados de residuos minerarios. Tem a contaminação de aqüiferos por chorume de aterros irregulares. Tem a emissao de material particulado de atividades industriais sem controle adequado. Tem a alteracao de drenagem natural do terreno que gera erosao acelerada e assoreamento de corpos d'agua proximos. Tem a perda de cobertura vegetal que reduz a resilienza do solo e aumenta o risco de deslizamentos em encostas. Nao eh uma lista exaustiva, mas cobre a maior parte dos chamados que chegam pra mim. E olha que eu nao estou nem mencionando riscos biológicos, como proliferação de vetores em areas alagadas, porque a maioria dos escritorios nem cobra isso nos relatórios. Mas o risco ali existe.
O que mais me irrita em avaliacao de risco ambiental eh a tendencia de as pessoas calcularem o perigo e ignorarem a via de exposicao. Eu fui chamado pra avaliar um terreno que tinha historico de industria de galvanoplastia. A analise de solo mostrou concentracoes de cromo hexavalente bem acima do limite de intervencao. Todo mundo entrou em pânico. O problema real é que o terreno era usado como area de preservacao permanente, nao havia habitacao humana proxima e o lençol freatico estava a mais de oito metros de profundidade, protegido por uma camada argilosa significativa. O risco efetivo era baixo. O perigo era alto. Essa distincao determina se voce chama a Defesa Civil ou se apenas coloca uma cerca e acompanha periodicamente. No caso dessa galvanoplastica, a solucao que eu propus foi uma monitoragem trimestral da qualidade da agua subterranea por dois anos, com piezometros instalados a montante e a jusante do limite do terreno. Se os niveis permanecessem estaveis, o plano de remediacao poderia ser dispensado. Economizei mais de duzentos mil reais pro proprietario em relacao a uma escavacao e destocagem convencional. Levei duas semanas a mais no cronograma, mas o dono do terreno agradeceu.
Como identificar e mapear riscos ambientais no seu projeto
Voce precisa de um metodo, nao de uma intuição. O metodo basico que eu uso tem cinco etapas e leva em media de tres a cinco dias uteis para ser executado em uma area urbana de porte medio, dependendo da disponibilidade de dados existentes. Primeiro, voce faz o levantamento basico. Reunir memoriais descritivos, mapas geologicos, informacoes sobre o uso e ocupacao do solo no raio de cinco quilometros, dados pluviometricos dos ultimos vinte anos e documentacoes anteriores do proprio imovel. Isso costuma levar dois dias. A maioria das pessoas pula essa etapa porque quer chegar rapido no campo. O erro mais comum que eu vejo eh exatamente esse: chegar no terreno sem saber o que procurar.
Segundo, voce passa pro campo. Levantamento visual, coleta de amostras de solo em pontos estrategicos, verificacao de fontes potenciais de contaminacao, annotacao de desmatamentos, erosoes, depositos irregulares de residuos. Aqui eh onde a experiência fala mais alto. Eu sei olhar um talude e identificar que a vegetacao rasteira substituindo a mata nativa ali indica um processo de degradação que começou ha pelo menos tres anos. Ou vejo uma mancha de oleo escurecendo o solo perto de um curso d'agua e sei que provavelmente ha um vazamento cronico em algum equipamento nas proximidades. Nao tem teste de laboratorio que substitua isso. Terceiro, voce leva as amostras ao laboratorio. O critério de selecao do laboratorio deve considerar a acreditacao do INMETRO e a capacidade analitica para os contaminantes de interesse. Nao adianta mandar analisar so o que voce quer que seja achado. Se ha suspeita de hidrocarbonetos, peça BTEX e PAHs completos, nao so o indice de hidrocarbonetos totais. A diferenca é que o indice total eh uma numero unico que esconde completamente quais compostos estao presentes, e voce pode ter benzeno, que eh cancerigeno confirmado, numa concentracao perigosa enquanto o numero total parecer tranquilo.
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Quarto, voce compara os resultados com os padroes da sua jurisdicao. No Brasil, os valores de intervencao variam conforme a resolucao do CONAMA e as normas estaduais ou municipais. Sao Paulo tem a propria lista. Minas Gerais tem a propria. O Rio Grande do Sul tem a propria. Nao existe um unico padrao nacional unico para todos os fins. Eu ja vi engenheiros compararem resultados deSao Paulo com os valores de Minas Gerais e concluir erroneamente que o solo estava dentro da normalidade. Isso é um erro juridico grave. Quinto, voce redige o laudo. O laudo precisa conter: objetivos, metodologias utilizadas, resultados brutos e interpretados, conclusões técnicas e recomendações. Recomendações sao obrigatórias. Laudo sem recomendação é apenas um documento academic que nao serve pra nada pratico.
Pegadinhas que voce nao quer descobrir tarde demais
Existem algumas armadilhas que aparecem repetidamente e que valem a pena conhecer antes de começar. Uma delas eh o prazo de validade das informacoes de laboratorio. Amostras de solo para analise de compostos organicos volateis perdem volatilidade rapidamente se nao forem mantidas em cadeia de custodia adequada e em temperatura de zero a quatro graus Celsius. Eu já recebi amostras que foram coletadas numa sexta-feira a tarde e entregues no laboratorio na segunda de manha. Os resultados de BTEX estavam completamente comprometidos. O proprietario queria embasar um pedido de licenca com aquele laudo. Eu rejeitei olaudo. Perdi o cliente, mas ganhei a consciencia tranquila. Outra pegadinha eh confundir presença de contaminante com risco real. Ter cromo no solo num terreno industrial desativado no interior de Goias nao significa automaticamente que ha risco a saude. Depende de onde essa agua de chuva que percola pelo solo vai parar. Se ela vai para um aqüifero livre que abastece poços rasos de comunidades vizinhas, o risco é alto. Se ela encontra uma camada impermeavel e vai se espalhar lateralmente em direcao a um rio distante, o risco é diferente e a gestao eh outra. Voce nao resolve problema de aqüifero confinado com a mesma estrategia de problema de lençol freatico raso.
Tem ainda o problema da heterogeneidade do solo. voce pode coletar tres amostras e todas virem negativas, enquanto uma quarta amostra, feita a dois metros de distancia, revela contaminacao crítica. O solo nao eh uniforme. Por isso os protocols de amostragem sempre preveem malha de coletas, amostragem composite e replicatas. Negligenciar isso eh cortar custo no lugar errado.
Quando o risco ambiental escapa do seu controle
A realidade é que voce nao consegue controlar tudo. Tem situacoes em que o passivo ambiental é de terceiros e voce só tem acesso limitado ao terreno. Tem casos em que a contaminacao veio de uma fonte que nao pertence a quem contrata seu servico, e voce precisa demonstrar essa distincao no laudo. Tem ainda a questao do tempo: processos de biorremediacao levam meses ou anos. Monitoramento passivo pode durar décadas. Ninguém gosta de ouvir isso, mas eh verdade. Se voce esta lendo isso porque precisa fazer uma avaliacao de riscos ambientais agora, o caminho mais seguro eh contratar um profissional com registro no CREA ou no CAU, dependendo da area de formacao, e exigir que o laudo siga as normas tecnicas aplicaveis. Na ausencia de norma específica, a ABNT NBR 15.250 para investigacao de area contaminada eh a referencia mais solida que temos no Brasil.
Eu ja vi gente tentar fazer tudo sozinha usando kits de teste portateis de pH e condutividade eletrica. Esses kits servem para uma triagem inicial, nao para substituir a analise laboratorial. O custo de um laudo profissional varia bastante, mas num terreno urbano medio voce gasta entre oito mil e vinte mil reais, dependendo da complexidade e do estado em que a.area se encontra. Investir menos do que isso geralmente significa gastar o dobro depois para corrigir o erro.