Proteínas Totais E Frações Para Que Serve - Exame de Proteínas Totais e Frações | PDF
Exame de Proteínas Totais e Frações | PDF

O que são proteínas totais e frações na prática

A gente pede esse exame principalmente quando o paciente tem um quadro que não se encaixa em nada específico ainda. Proteína total é o valor bruto de tudo que está dissolvido no soro. Frações são a separação dessas proteínas por eletroforese, que basicamente divide em albumina, alfa-1, alfa-2, beta e gama globulinas. Não é um exame de rotina. Eu já vi gente pedir proteína total e frações como se fosse hemograma, o que é perda de tempo e dinheiro. O correto é solicitar quando há indícios de processo inflamatório crônico, doença hepática, doença renal com perda proteica, ou suspeita de mioneloma. A interpretação das frações sozinha já te dá uma direção melhor do que a proteína total isolada.

proteínas totais e frações para que serve no dia a dia do laboratório

O método mais usado ainda é a eletroforese em gel de agarose. A amostra vai para o gel, aplica-se corrente elétrica, e as proteínas migram de acordo com carga e tamanho. Depois cora-se o gel e se lê os picos. Um analisador básico leva uns 40 minutos para rodar. Se o laboratório for pequeno e fizer tudo manualmente, pode levar 2 horas, considerando a fixação, a coloração e a lavagem. O resultado vem com valores absolutos e percentuais de cada fração. O que importa mesmo são os valores absolutos, porque a albumina às vezes cai e ospercentuais dos demais aumentam proporcionalmente sem que haja produção real de globulinas. Isso é um erro comum de leitura. Percentual alto de gama globulina não significa necessariamente gamapatição se a albumina estiver baixa e o total normal.

Refência aproximada para adultos: albumina entre 3,5 e 5,2 g/dL, alfa-1 de 0,1 a 0,4 g/dL, alfa-2 de 0,6 a 1,2 g/dL, beta de 0,7 a 1,4 g/dL, e gama de 0,8 a 1,8 g/dL. Esses valores variam conforme o método e o reagente. Sempre olhe a referência do seu laboratório. No meu dia a dia, o que mais aparece é elevação da fração gama. Pode ser desde uma resposta inflamatória infecciosa crônica até um mieloma múltiplo. A diferença é que na inflamação a elevação é policlonal, com um aumento difuso do arco gama. No mieloma, você vê um pico agudo, estreito, geralmente em alguma posição específica do padrão. Mas cuidado: nem todo pico agudo é mieloma. Linfomas, algumas hepatites crônicas, e até micoplasmose podem dar padrões que confundem.

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Um caso que eu não esqueço: paciente com proteína total dentro da normalidade, albumina normal, mas com aumento discreto da alfa-2. A primeira impressão era anemia ferropriva, o que eleva haptoglobulina e pode mudar esse perfil. Mas o ferritina estava alta, coombs negativo, e o paciente tinha hepatopatia alcoólica. A alfa-2 estava elevada por macroglobulina e também por alteração da clearance hepática. Sem a história clínica, eu teria mandado investigar outra coisa. Eletroforese isolada sem contexto clínico é apenas um desenho bonitinho. Outra pegadinha: hemólise. Se a amostra hemolisada passar pelo analisador, a hemoglobina livre pode interferir na leitura fotométrica, especialmente na faixa da beta-globulina. O resultado de transferrina pode sair falso alterado. O ideal é rejeitar amostras com hemólise grave e pedir novo coleta. Não adianta tentar corrigir depois.

A albumina tem uma utilidade prática que muita gente esquece. Ela é um reagente de fase aguda negativo. Ou seja, cai quando tem inflamação, desnutrição, perda renal ou hepática. Um paciente com cirrose pode ter albumina de 2,0 e proteína total de 5,8. Isso parece contradictório à primeira vista, mas faz sentido porque as globulinas, especialmente as gammaglobulinas, sobem para compensar. Se você olhar só a proteína total, pode achar que o paciente está bem nutrido. A albumina é que mostra o verdadeiro estado. Há situações em que a eletroforese convencional não resolve. Por exemplo, quando o pico monoclonal é muito pequeno e fica escondido na base do arco gama. Nesse caso, a imunoimfixação ou a imunofixação eletroforética (IFE) é o próximo passo. Ela identifica o tipo de cadeia pesada e a cadeia leve do imunoglobulina envolvida. Isso é indispensável para acompanhamento de mieloma, porque muda a conduta.

Um detalhe que poucas pessoas levam em conta: a posição do paciente interfere nos valores. Proteinemia e albumina podem variar cerca de 0,3 g/dL entre decúbito e ortostatismo, por concentração aparente do sangue. Se o paciente foi coletado em pé ou sentado durante muito tempo, o valor pode estar ligeiramente elevado. Não é um erro analítico, mas é um fator preanalítico que deve ser considerado quando o valor fica na fronteira da referência. O método de biureto para proteína total é simples e robusto. Ele detecta ligações peptídicas, então funciona para qualquer proteína. O problema é que não diferencia albumina de globulinas. Para isso, precisa-se da dosagem específica de albumina, que geralmente é feita com bromocresol verde ou bromocresol púrpura. Ambas têm interferentes. Ácidos graxos livres, bilirrubina em altas concentrações, e certos medicamentos podem alterar a reação. Se o resultado não fizer sentido, repita com o outro método ou solicite eletróforese para ver o padrão completo.

Uma limitação importante da técnica: a resolução. Eletroforese em agarose separa bem os grandes grupos, mas não consegue distinguir subfrações com precisão. Se você precisa ver se há um pico entre beta e gama, por exemplo, o método pode não ser sensível o suficiente. A cellulose acetato tem resolução diferente da agarose. Alguns laboratórios usam ambos os métodos. O ideal é saber qual metodologia o seu laboratório emprega e usar essa informação para interpretar os resultados. No final das contas, proteínas totais e frações para que serve é fornecer um panorama da resposta imunológica e do estado nutricional do paciente. O valor real está na integração com o quadro clínico, com outros exames, e com a evolução temporal. Um único ponto no tempo raramente dá resposta definitiva. Repetir o exame em intervalos de três a seis meses, quando indicado, mostra se o padrão é estável, progressivo ou regressivo. Isso às vezes vale mais do que o resultado isolado.