O pronome neutro existe na língua portuguesa
A pergunta não é tão simples quanto parece. Se você ler gramáticas tradicionais, vai encontrar uma resposta seca: não, português não tem pronome pessoal neutro de terceira pessoa. Mas se você observar o idioma sendo usado de verdade, vai perceber que a realidade é mais complicada do que o manual diz.
pronome neutro existe na língua portuguesa: o que a gramática fala
Os manuais dizem que os pronomes pessoais do caso oblíquo em português são "o, a, os, as" (acusativo), "lhe, lhes" (dativo) e "me, te, se, nos, vos" (reflexivo/recíproco). Nenhum deles é marcado como neutro. "Ele" e "ela" são masculinos e femininos. O suposto "neutro" que muita gente menciona é, na verdade, o uso de "o" como objeto direto genérico, que pode referir-se a coisas abstratas, ideias, situações. Isso é uma questão de regência, não de gênero gramatical propriamente dito. Os pronomes demonstrativos, sim, têm uma forma claramente neutra: "isto, isso, aquilo". Eles funcionam perfeitamente como substitutos de conceitos sem gênero definido. "Não gostei disso" — o "disso" não se refere a um substantivo masculino ou feminino, mas a uma ideia, uma situação. É o mais próximo de um pronome neutro que o português padrão oferece.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Eu já vi muita gente confundir isso nos fóruns. A resposta certa é que existe, sim, um funcionamento neutro no português, mas não sob a forma de um pronome pessoal separado. Os demonstrativos neutros resolvem grande parte das necessidades. Quando você precisa se referir a algo abstrato ou indeterminado, usa "isto/isso/aquilo" ou o pronome "o" com valor genérico. Um problema real que eu enfrentei ao trabalhar com análise sintática foi identificar o sujeito de orações como "Foi aquilo que aconteceu". O "aquilo" é um pronome demonstrativo neutro funcionando como sujeito. A gramática normativa muitas vezes trata esse tipo de construção com desconfiança, mas na prática é perfeitamente natural. Quando eu tentava analisar isso como se fosse uma estrutura de inversão com "que", acabava complicando desnecessariamente. A solução mais direta é tratar "aquilo" como sujeito nominal, ponto final.
Outra nuance importante é o uso de "o" como partícula apassivadora ou pronome de tratamento em certas construções. Em variedades mais conservadoras, ainda se encontra "Viu-se o projeto" ou "Anunciou-se o resultado". Isso não tem relação direta com gênero. É uma questão morfossintática. A variação regional também influencia muito essa questão. No português europeu, por exemplo, o uso de "lhe" como objeto direto é mais frequente do que no Brasil, o que gera discussões sobre se seria uma espécie de marca neutra funcional. Eu acho que não — é mais uma questão de preferência dialetal do que de sistema pronominal neutro propriamente dito.
O que eu recomendo na prática é parar de buscar um "neutro" que não existe na tabela de pronomes pessoais e começar a observar como os demonstrativos e o "o" genérico funcionam nos textos que você lê. A gramática normativa não ajuda muito nisso, então o melhor caminho é a observação direta do uso real. Dicionários e gramáticas podem te dar a resposta teórica, mas a resposta prática está em como as pessoas falam e escrevem todos os dias. Se você quer uma referência rápida para consulta, o CiberDúvidas e o Dicionário Priberam têm entradas sobre pronomes demonstrativos que cobrem esse terreno de forma razoável. A resposta curta é: sim, existe um funcionamento neutro no português, mas não na forma de um pronome pessoal. O sistema demonstrativo cumpre esse papel, e o "o" genérico complementa. O resto é questão de análise e variação dialetal.