Por que "precisam ser" e "precisam serem" geram tanta dúvida
Você já viu isso em algum teste de concurso, revisão de texto ou debate acalorado de fórum. A pergunta é simples na aparência: devo escrever "precisam ser" ou "precisam serem"? A resposta curta é que as duas formas existem no português, mas atendem a lógicagramaticais diferentes, e a escolha errada soa estranho para quem lê. Vou começar pela coisa que a maioria dos manuais não explica direito. O verbo precisar funciona de duas maneiras distintas. Na maioria das vezes, ele é transitivo direto quando quer dizer "necessitar de algo" e pede o infinitivo impessoal. Isso significa "ele precisa ser aprovado". Mas quando o assunto ganha plural, muita gente entra em pânico e coloca o infinitivo pessoal, achando que concordância é obrigatória em todo lugar. Não é.
A regra prática: precisam ser ou precisam serem
A forma precisam ser é a mais comum e a mais segura na maior parte das situações. Ela usa o infinitivo impessoal, que não se flexiona em número ou pessoa. Quando o sujeito da oração principal já está claro, não há necessidade de mudar a forma do infinitivo. "Os documentos precisam ser entregues amanhã." "Os funcionários precisam ser treinados." Isso está certo. A forma precisam serem surge quando se aplica o infinitivo pessoal. O infinitivo pessoal se flexiona no plural: fazer fazerem, ser serem. Ele aparece quando o sujeito do infinitivo é diferente do sujeito da oração principal ou quando se quer dar ênfase à pessoa gramatical. "Eu vi que eles precisam serem convocados por escrito." A forma com se existe, mas é menos frequente no português brasileiro contemporâneo.
O problema é que muitos materiais didáticos e professores tratam o infinitivo pessoal como obrigatório sempre que o sujeito é plural. Isso é um exagero. O infinitivo impessoal após precisar é amplamente aceito e frequentemente preferível por soar mais natural. A confusão acontece porque o português europeu faz uso mais frequente do infinitivo pessoal do que o português brasileiro.
Quando cada forma é adequada
Use "precisam ser" (infinitivo impessoal) quando:
- O sujeito da oração principal também é o sujeito do infinitivo.
- Você está escrevendo em português brasileiro em contexto formal ou informal.
- Quer manter a construção mais direta e fluida.
Use "precisam serem" (infinitivo pessoal) quando:
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- O sujeito do infinitivo éexplicitamente diferente do sujeito principal e você quer marcar isso.
- O contexto exige a flexão do infinitivo por coerência com a norma culta prescritiva.
- Você está escrevendo em português europeu, onde o infinitivo pessoal é mais usual.
Exemplos práticos
"As metas precisam ser atingidas até dezembro." Sujeito: "as metas". Ambas as partes se referem às mesmas metas. Infinitivo impessoal. Correto. "Os candidatos precisam serem entrevistados pelo comitê." Aqui tem um pequeno atrito. "Os candidatos" é sujeito de precisam, mas o sujeito de serem entrevistados também são os candidatos. Nesses casos, o impessoal "precisam ser entrevistados" soa melhor. O pessoal "precisam serem entrevistados" não está errado, mas é redundante do ponto de vista da clareza.
"Eu disse que vocês precisam serem mais cuidadosos."precisam é "vocês", e o sujeito de serem também é "vocês". De novo, o impessoal "precisam ser mais cuidadosos" seria a escolha mais natural na maioria dos registros.
O erro mais comum que eu vejo todo dia
A maioria das pessoas erra por excesso de cuidado. Elas veem um sujeito no plural, entram em modo panicado e acham que todo verbo próximo ao sujeito precisa concordar em número. Não é assim que funciona com o infinitivo impessoal. O infinitivo impessoal é, por definição, imutável. Ele não recebe flexão de número. "É preciso que eles sejam aprovados." Note que sejam está no subjuntivo porque mudou de modo verbal, mas isso é outra história. Outro erro frequente é confundir a estrutura com a construção haver de + infinitivo. "Hão de ser aprovados." Nesse caso, o verbo haver é que se flexiona, não o infinitivo. Muita gente tenta aplicar a mesma lógica ao precisar e acaba gerando construções duplamente flexionadas que ninguém usa.
Um caso específico que me deixou cabelo branco uma vez
Estava revisando um contrato de prestação de serviços onde havia a frase: "Os relatórios precisam serem entregues em formato digital." O cliente pediu correção. Eu mudei para "Os relatórios precisam ser entregues em formato digital." O cliente discordou e disse que a versão com se estava em um manual de redação da empresa dele. Eu verifiquei o manual. O manual citava uma norma prescritiva de 1945 que não refletia o uso contemporâneo. A solução foi manter a forma impessoal e adicionar uma nota de rodapé explicando que a versão com infinitivo pessoal também é gramatical, mas menos recomendada pelo uso corrente. Isso resolveu o impasse sem comprometer a clareza do texto.
Dica técnica: como testar rapidamente
Troque o verbo precisar por ter de ou dever. Se a frase mantiver o sentido original com o infinitivo impessoal, então precisam ser é a forma mais adequada. "Os documentos têm de ser entregues" soa perfeitamente natural. "Os documentos têm de serem entregues" soa artificial. O mesmo teste funciona com devem ser. Outra verificação rápida: substitua o sujeito por um pronome. "Eles precisam ser aprovados." Se a frase ainda funcionar sem o se, você provavelmente não precisa dele. A presença do se no infinitivo pessoal é marcadora, não obrigatoriedade universal.
Resumo objetivo
"Precisam ser" é a forma padrão, mais usada e mais recomendada no português brasileiro para a maioria das situações. "Precisam serem" é gramaticalmente possível mas menos natural, sendo mais comum no português europeu ou em contextos onde se busca marcar explicitamente a flexão do infinitivo pessoal. Se você está em dúvida, escolha precisam ser. Vai soar certo para a grande maioria dos leitores e corretores. A diferença entre as duas formas não é uma questão de certo e errado absoluto. É uma questão de registro, preferência regional e intenção comunicativa. O infinitivo impessoal domina o uso corrente. O infinitivo pessoal tem seu lugar, mas esse lugar é mais restrito do que muitos materiais didáticos pretendem fazer crer.