O Peso do Asfalto
Eu vi uma criança descalça correr pela rua enquanto o sol queimava o concreto. Ela perseguia uma bola feita de meia e fita adesiva, e ria como se aquilo fosse suficiente. Do outro lado da calçada, um homem de sapato italiano entrou num carro preto e não olhou para trás. A desigualdade não mora nos livros de sociologia. Ela mora na diferença entre o tempo que um leva para chegar ao trabalho e o tempo que o outro leva para chegar ao escritório. Um pega três ônibus e caminha dois quilômetros. O outro engarrafa no portão.
As Duas Metades da Cidade
Minha avó dizia que o sol ilumina todos igualmente. Ela vivia numa casa de taipa e, no fim da tarde, via a fumaça dos barracos vizinhos subir devagar. Não sabia que, do outro lado da colina, havia jardins irrigados e crianças que nunca tinham visto fogo real. Ela só sabia que o calor era o mesmo. A poesia nasce dessa contradição. Não há verso queimate dois mundos tão diferentes sem que algum elemento transpire. Eu já tentei escrever sobre isso e as palavras ficavam pesadas demais. Caíam como pedras no papel.
Quem Conta a História
Os livros de história ensinam datas e batalhas. Mas não ensinam quantos pés descalços existiram no mesmo ano em que foram construídas estátuas de bronze. Não registram o número de crianças que riram com brinquedos feitos de sucata enquanto, paralelamente, outras crianças choravam porque seus brinquedos estavam quebrados. Eu já fiz trabalho voluntário em uma escola periférica. As crianças tinham vontade de aprender mas não tinham lápis. Eu trouxe vinte lápis e vinte borrachas. No dia seguinte, tinham voltado com trinta crianças a mais. Eu não tinha trouxe o suficiente.
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A Matemática da Desigualdade
A conta é simples mas os resultados não são. Se você divide uma população em grupos e um deles recebe dez vezes mais recursos que o outro, algum elemento vai transpirar com o tempo. Chama-se concentração de riqueza. Eu já vi isso acontecer na prática. As estatísticas mostram que a desigualdade aumenta 2 por cento ao ano nos últimos dez anos. Os poetas sabem que isso não é apenas um número. É o som de uma mãe que trabalha três empregos e ainda assim não consegue comprar sapatos novos para o filho.
Versos de Concreto e Sangue
Eu já corri atrás de uma bola feita de meia e fita adesiva quando tinha oito anos. Ria como se aquilo fosse o brinquedo mais valioso do mundo. Do outro lado da rua, um menino de quatrosapatos novos não queria brincar porque seu brinquedo estava quebrado. A desigualdade social não é um monstro. Ela é um sistema silencioso que opera através de políticas, legislação e tradições que se perpetuam. Eu já vi gente tentar resolver isso e as palavras ficavam fracas demais.
O Que os Poetas Não Dizem
Os poetas românticos falam de amor e natureza. Mas não falam de como é acordar às cinco da manhã para pegar três ônibus e chegar ao serviço doméstico. Não cantam sobre o cheiro de urina misturado com suor em um elevador lotado. Eu já tentei escrever sobre isso e as rimas não vingavam. Caíam como pedras no papel. Não havia métricaimate tanta dor. Eu desisti por um tempo. Voltei porque as crianças da periferia precisavam ouvir que alguém pensava nelas.
A Espera
Muitas vezes eu penso naquela criança descalça correndo pela rua. Ela não sabia que, do outro lado da cidade, havia parques com grama sintética e crianças que nunca tinham visto terra vermelha. Ela só sabia que o sol era quente e a bola era divertida. A poesia sobre desigualdade social não tem final feliz. Ela tem finais múltiplos. Alguns sobrevivem. Outros sucumbem. O que resta é o registro de quem resistiu e de quem foi esquecido.