Poesia De Amor Machado De Assis - Machado de Assis - A poesia está em tudo, na guerra como no amor.
Machado de Assis - A poesia está em tudo, na guerra como no amor.

Entendendo a poesia de amor em Machado de Assis

A poesia de amor machado de assis é um terreno que muita gente pisa sem saber o que está pisando. Machado é lembrado como o grande mestre do romance realista, autor de Memórias Póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba. Mas ele começou como poeta. Publicou sua primeira coletânea, Fazends Casimiro, em 1869, quando tinha apenas 23 anos. Escreveu verso durante toda a vida, mesmo quando já estava consagrado na prosa. O problema é que os leitores costumam chegar na poesia machadiana com a ideia errada do que esperam encontrar. Eu li Machado de Assis completo pela primeira vez há alguns anos, num período em que tava bastante viciado em literatura brasileira do século XIX. Comecei pelos romances, claro, todo mundo começa por aí. Mas foi quando cheguei nos versos que percebi que tinha uma camada que eu não tinha percebido antes. A poesia de amor dele não é o que a gente espera de um poeta lírico. Tem ironia. Tem desconfiança. Tem um ceticismo que corta bastante.

Poesia de amor machado de assis: o que realmente está aí

O que existe de poesia de amor machado de assis concentra-se principalmente em dois livros: Fazends Casimiro (1869) e Americanas (1875). Há ainda poemas soltos espalhados por jornais e revistas da época, muitos deles reunidos postumamente em volumes como Versos e Rimas. A qualidade é irregular. Os primeiros versos, os da fase pré-romântica, são mais convencidos, mais típicos do lirismo sentimental da época. Vai se aperfeiçoando com o tempo, mas nunca abandona completamente aquela postura de desconfiança em relação ao sentimento amoroso. Um detalhe que poucos notam: Machado quase nunca escreve um poema de amor puro, sem camadas. Mesmo quando parece estar declarando paixão, tem sempre um troco, um contraponto, uma dúvida pairando por cima. Isso é característico de toda a obra dele, não só da poesia. O romanceiro faz o mesmo com os personagens. O narrador de Brás Cubas narra a própria vida com uma ironia devastadora. Na poesia, o efeito é mais contido, mas o mecanismo é o mesmo.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Quando eu estava analisando os poemas com mais cuidado, percebi que o maior erro das pessoas é ler Machado de Assis poeta como se fosse um Boca do inferno ou um Cruz e Souza. Não é. Ele tem seus momentos líricos de verdade. "Soneto da despedida" é um deles, e é bonito de fato. Mas a maioria dos poemas de amor dele opera num register diferente. Eles não celebram o amor. Eles o examinam. O observam como quem olha um inseto sob uma lupa, com curiosidade misturada com certa reprovação. Um caso concreto que me marcou: eu tava preparando uma análise de "Amor de programas" e passei semanas tentando justificar que o poema era ironia pura. Achei que tinha lido errado. Mas quanto mais eu relia, mais convincente ficava a leitura irônica. O poema fala de um amor que se declara em teatros e passeios públicos, num cenário construído, artificial. Machado não está descrevendo paixão. Está descrevendo uma encenação. A questão é que essa leitura não é óbvia na primeira leitura. O poema tem linguagem que pode ser tomada como séria. Só com releituras sucessivas a estrutura irônica fica clara. Eu demorei pra chegar nessa conclusão porque meu primeiro instinto era ler o poema como declaração amorosa genuína, o que é exatamente o efeito que Machado quer produzir. A pegadinha é o ponto.

Outro aspecto importante: Machado tem poemas que são simplesmente agradáveis, sem grandes ambiguidades. "No meio do caminho" não é um poema de amor, mas mostra como ele conseguia ser enxuto e direto. Já os poemas de amor mais bem-sucedidos, como os sonetos de Americanas, têm uma economia de linguagem que poucos poetinhas da época conseguiam igualar. Ele não gastava palavras à toa. Cada verso tinha uma função. O grande problema prático de estudar poesia de amor machado de assis é que a crítica literária brasileira tende a relegá-la a segundo plano. Os livros didáticos falam dos romances. As teses de doutorado focam na prosa. A poesia machadiana fica num limbo, conhecida mas pouco estudada. Quando você encontra análises, muitas vezes são superficiais, repete o que já foi dito em manuais básicos. Isso dificulta muito para quem quer uma leitura mais aprofundada. Eu acabei precisando cruzar edições diferentes, consultar comentários de críticos como José Veríssimo e Alfredo Bosi, e ainda assim fiquei com a impressão de que tinha coisas que eu não estava conseguindo captar direito.

Uma limitação real que eu gostaria de deixar clara: não adianta procurar em Machado de Assis o mesmo tipo de poesia de amor que se encontra em Castro Alves ou no romantismo brasileiro. Ele nunca foi um poeta apaixonado no sentido convencional. Se você procurar por isso, vai se frustrar. O que vale a pena procurar é a precisão com que ele dissecava as relações humanas, mesmo quando escrevia verso. E os melhores poemas são justamente aqueles em que essa dissecção se transforma em beleza, sem perder o rigor.