Quem é considerado o pior papa da história e por quê
Vou direto ao ponto. Quando se fala em pior papa da história, a maioria das fontes aponta para três nomes: João XII, Bento IX e Alexandre VI. Cada um tem seus motivos, mas os critérios variam enormemente dependendo de quem escreve a história. Se você leu algum livro didático, provavelmente recebeu uma versão sanitizada. Fontes medievais e renascentistas tinham um interesse claro em demonizar adversários políticos, então precisa cross-checkar tudo.
O caso do pior papa da história na prática
João XII, nascido Octavianus, foi eleito papa em 955 com apenas 18 anos. Seu papado durou até 964. O que ele fez de tão ruim? Bem, isso depende da fonte. O Livro Pontifical descreve ele como um déspota que transformou o Palazzo Laterano em uma taberna, ordenou ordens sagradas por suborno e acabou sendo acusado de perjúrio, incesto e assassinato por sínodos convocados por inimigos políticos. Alguns desses relatos podem ser propaganda do Sacro Império Romano-Germânico, que queria depor ele. Mas mesmo filtrando o exagero, a realidade era suficientemente terrível. Bento IX é outro nome que aparece com frequência. Ele comprou o papado em 1032, algo documentado pelo cronista São Pedro Damião. Teoricamente ele abdicou em 1045 para se casar, mas depois voltou atrás e ocupou o trono novamente. Essa sucessão confusa gerou até um antipapa, Silvestre III, durante quatro meses. A coisa toda se resolveu quando seu padrinho, Teofylacto, conde de Tusculo, vendeu o cargo para Hugo, que foi consagrado como João XIX. Então você tem basicamente um papa que comercializou a posição, saiu, voltou e vendeu de novo. O canonista grigorianu posterior usou isso como argumento central contra a simonia, e a crítica histórica moderna tende a confirmar os fatos básicos, ainda que os detalhes sensacionalistas devam ser tratados com cautela.
Alexandre VI, Rodrigo Borgia, é o mais conhecido do grande público. Reinou de 1492 a 1503. As acusações incluem nepotismo escandaloso, envolvimento no assassinato de seu próprio filho Cesare Borgia contra rivais, e uma rede de amantes e filhos ilegítimos que funcionava como uma máquina política. O problema aqui é que muitas das piores histórias vieram de propaganda dos família Borgia adversários, especialmente os Sforza e os Medici. Mas o nepotismo dele era real e documentado. Ele elevou vários parentes a cardeais e cargos temporais, criando um verdadeiro estado dentro do estado papal. O conde Gian Battista Caetani, em seu trabalho de 1926 sobre os Borgias, compilou documentos que mostram que a realidade era menos sanguinária do que os folhetos de propaganda, mas ainda assim profundamente corrupta do ponto de vista eclesiástico. Tem outro papa que as pessoas esquecem e deveria lembrar: Inocêncio VIII, governou de 1484 a 1492. Foi o responsável pela bula Inter Gravissimas, que autorizou a Inquisição Espanhola de forma mais agressiva, e permitiu que os conquistadores espanhóis tratassem povos indígenas como legítimos alvos de subjugação. Isso abriu portas para décadas de abuso colonial. É um exemplo de como o "pior" nem sempre é o mais barulhento.
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Quando eu estava pesquisando para um artigo sobre corrupção curial no século X, acabei entrando fundo nos atos do Concílio de Benevento de 967, que tentou depô-los João XII. O que eu descobri foi que muitos dos acusadores eram bispos que haviam sido depostos pelo próprio papa anteriormente. Ou seja, havia um padrão claro de vingança institucional misturada com acusações genuínas. A solução que eu encontrei foi comparar os relatos com documentos contemporâneos não-papais, como cartas do imperador Otão I e crônicas municipais italianas. Os documentos imperiais tendem a ser hostis, mas as crônicas urbanas de Roma e Ravena oferecem um contraponto útil. Cruzando as fontes, a conclusão mais honesta é que João XII era um governante incompetente e moralmente questionável, mas talvez não o monstro de sangue que os cronistas otonianos pintaram. Um erro comum que vejo em discussões sobre esse tema é comparar papas de épocas diferentes com os mesmos padrões morais. O papado do século X operava num contexto feudal onde o cargo era essencialmente um feudo disputado por famílias romanas. Julgar João XII pelos padrões do Vaticano II é anacrônico. Da mesma forma, Alexandre VI é frequentemente condenado com mais veemência do que papas do século XX que assinaram decretos com consequências humanitárias discutíveis, mas que nunca tiveram seus nomes associados a escândalos sexuais públicos. A seletividade na memória histórica é real.
Outro ponto que pouca gente considera: a questão das fontes. Quase tudo que sabemos sobre os papas medievais mais infames vem de escritores que tinham um interesse político direto em manchá-los. O Papa Formoso, por exemplo, teve seu cadáver exumado e julgado em 897 no chamado "Sínodo Cadaveroso". Esse evento é citado como prova da barbárie da época, mas os detalhes que temos vêm principalmente do biógrafo Agobardo de Lyon, que era adversário político do papa que ordenou o julgamento. Sem documentos independentes, fica impossível separar fato de ficação política. Se você quer uma referência sólida, o Encyclopedia of the Middle Ages editado por Jean-Claude Schmitt e o trabalho de Helene Tillmann sobre a Igreja no século X são bons pontos de partida. Para Alexandre VI, a biografia de John Paul Adams, publicada em 1997, usa registros de arquivo que muitos autores anteriores não consultaram. Para João XII, os atos conciliares estão disponíveis na Monumenta Germaniae Historica, mas leia com os pés atrás. Tradução em inglês existe no site de Patrick Geary, mas o original latino é mais preciso.
Não existe consenso acadêmico sobre qual foi efetivamente o pior. A lista muda dependendo se você prioriza corrupção financeira, violência física, heregia doutrinária ou danos históricos de longo prazo. Bento IX provavelmente se destaca em corrupção institucional. João XII em incompetência e brutalidade pessoal. Alexandre VI em nepotismo estrutural. Inocêncio VIII em consequências históricas globais. Cada um é o pior num aspecto diferente, e reduzir tudo a um único nome é simplificar demais um assunto que não se presta a simplificação.