Parte Liquida Do Sangue - Composição Do Sangue Imagens de Stock - Imagem: 36852614
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O que é e como lidar com isso na prática

A parte liquida do sangue é o plasma, que corresponde a cerca de 55% do volume total do sangue. É uma solução aquosa amarelada que carrega proteínas, eletrólitos, hormônios, anticorpos, nutrientes e resíduos metabólicos. Os outros 45% são as células sanguíneas: hemácias, leucócitos e plaquetas. Quando um hemograma completo é solicitado, o laboratório separa essas duas frações para análise independente. Eu trabalho com coleta e processamento de amostras clínicas há anos, e o plasma é onde mais erro acontece, não por falta de técnica, mas por pressa. O plasma contém fatores de coagulação, albumina, globulinas, fibrinogênio e uma série de substâncias que alteram rapidamente se a amostra não for manejada corretamente. Temperatura, tempo de centrifugação e o tipo de tubo coletor fazem diferença real nos resultados.

Parte liquida do sangue: separação e preparo correto

A separação do plasma das hemácias é feita por centrifugação. O sangue coletado em tubo com anticoagulante — geralmente EDTA, citrato ou heparina — precisa ser girado entre 1.500 e 2.000 rpm por 10 minutos. Passado esse tempo, as células sedimentam no fundo do tubo e o plasma permanece na camada superior, facilmente transferível com uma pipetaPasteur ou seringa adaptada. O tipo de anticoagulante define qual análise pode ser feita. EDTA preserva a morfologia celular para hemograma, mas quelata cálcio e interfere em testes de coagulação. Citrato de sódio é o padrão para coagulograma, mas a proporção sangue-citrato precisa ser exata — erro nessa relação dilui a amostra e altera o TP e TTPa. Heparina é usada quando se precisa de plasma livre de íons cálcio para química sanguínea, mas não serve para hematologia.

Um problema concreto que eu enfrentava frequentemente era a hemólise pós-centrifugação. Amostras que pareciam perfeitas ao olho nu liberavam hemoglobina após o giro, contaminando o plasma e inviabilizando dosagens de potássio, LDH eAST. A causa raramente era a agitação da amostra durante a coleta. Na maioria das vezes, o problema estava na velocidade de centrifugação ou no tempo entre coleta e processamento. Sangue que fica mais de duas horas sem centrifugar em temperatura ambiente começa a ter metabolismo celular alterado, os íons vazam e a hemólise é consequência. A solução que eu adotei foi simples: padronizar o tempo máximo de processamento em 90 minutos para a maioria das análises, usar centrífuga com controle de temperatura quando disponível, e nunca girar acima de 2.000 rpm para evitar o efeito de cisalhamento nas hemácias residuais. Isso reduziu minha taxa de rejeição de amostra por hemólise de aproximadamente 8% para menos de 2% em três meses.

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O plasma também pode ser preparado por decantação natural, sem centrífuga, mas o tempo necessário é de pelo menos quatro horas em posição vertical, e o rendimento é menor. Em laboratórios pequenos ou em campo, isso é viável, mas a claridade do plasma resultante nunca será a mesma, e partículas de fibrina podem interferir em análises automatizadas.

O que o plasma mostra e onde estão as armadilhas

O plasma contém albumina, que responde por cerca de 60% das proteínas totais, e é o principal responsável pela pressão coloidosmótica. Globulinas alpha, beta e gamma completam o quadro, incluindo imunoglobulinas, proteínas de transporte e fatores de coagulação. A dosagem de proteínas totais no plasma é um indicador direto do estado de hidratação do paciente — hemodilução baixa a concentração, enquanto desidratação a eleva. Um detalhe que poucos levam em conta é que o plasma de pacientes com lipemia extrema pode mascarar resultados espectrofotométricos. Triglicerídeos acima de 1.000 mg/dL tornam o plasma leitoso e afetam dosagens de sódio, glicose e bilirrubina em analisadores automáticos. O workaround prático é realizar a leitura com branco de lipemia ou centrifugar a amostra em alta velocidade (10.000 rpm por 15 minutos) para remover o plasma sobrenadante livre de lipídios antes da análise.

A estabilidade do plasma varia conforme a análise. Eletrolítos como sódio e potássio são relativamente estáveis por até 48 horas a 2°C a 8°C. Enzimas como ALT e AST degradam-se mais rapidamente, com queda significativa após 24 horas mesmo sob refrigeração. Para hormonios e marcadores tumorais, o ideal é congelar o plasma a -20°C ou -80°C em até duas horas após a separação, pois ciclos de descongelamento e recongelamento podem desnaturar proteínas e invalidar resultados. Também é importante notar que o plasma não é o mesmo que o soro. O soro é obtido sem anticoagulante, após a coagulação completa do sangue, o que significa que todos os fatores de coagulação foram consumidos. Diferenças entre plasma e soro existem para glicose, cálcio e proteínas, e usar valores de referência de soro para amostras de plasma gera erros diagnósticos. Glicose no plasma é até 15% menor que no soro porque a água do plasma dilui os solutos de forma diferente da matriz coagulada.

A parte liquida do sangue é mais sensível do que aparenta. Ela exige controle de tempo, temperatura e tipo de coleta desde o momento da venopunção. Ignorar isso gera resultados que parecem plausíveis mas são clinicamente errados. A maioria dos problemas que eu vi em laudos fora da curva tinha raiz no preparo da amostra, não na análise em si.