Em 1990 foi assinado o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, com a intenção de padronizar a grafia entre os países lusófonos. Na prática, o que aconteceu foi uma simplificação artificial de regras que já funcionavam bem. Milhares de palavras perderam acento diferencial ou acento agudo e circunflexo em posições específicas, e quem trabalha com texto em português tem conviver com isso até hoje.
Palavras que perderam acento: o que mudou de fato
O acordo eliminou basicamente três tipos de acentuação. O primeiro grupo são os ditongos abertos ei e oi em palavras paroxítonas. Antes se escrevia idéia, heróico, asnéia. Depois passou a ser ideia, heroico, asnêia — embora esta última esteja praticamente extinta do uso corrente. O segundo grupo são os hiatos oo e ee. Palavras como vôo, vêem, dêem agora têm uma vogal só no singular mas mantêm o duplo no plural: voo e veem. O terceiro grupo são os acentos diferenciais em verbos, como pôde (passado) versus pode (presente). Esse acento também caiu, assim como o de fôrma para diferenciar de forma.
Isso tudo está na prática em vigor no Brasil desde 2009, quando o governo brasileiro promulgou o decreto que o internalizou, e em Portugal de forma semelhante. A questão é que a transição foi mal gerenciada. Livros publicados antes de 2009 ainda usam a grafia antiga, e muitos dicionários e corretores não atualizaram suas bases de dados por anos após a data-limite.
I recall uma situação específica envolvendo uma correção automática de texto que eu fiz para um editor em 2017. O corretor aplicou cegamente as novas regras e transformou herói em heroi em um conto literário. O problema é que a regra dos ditongos ei e oi só vale para palavras paroxítonas. Herói é oxítona, então o acento continua obrigatório. Eu precisei escrever um script em Python que primeiro classificasse a sílaba tônica de cada palavra usando um banco de dados lexêmico antes de aplicar qualquer substituição. Esse tipo de erro passa despercebido porque o corrector morfológico não diferencia a prosódia.
Para lidar com isso no dia a dia, o caminho mais direto é usar uma lista de verificação manual combinada com ferramentas automatizadas. Existem tabelas completas de palavras que perderam acento disponíveis em sites como o do portal da língua portuguesa e em wikis colaborativas. Um processo prático funciona assim: primeiro você faz uma busca por todas as formas antigas na sua documentação — termos como "açúcar", "avô", "charme" — e depois verifica cada uma contra a regra específica. Por exemplo, açúcar mantém o acento porque é uma paroxítona terminada em R, e a regra dos ditongos não se aplica aqui. Já ideia perde porque é paroxítona com ditongo aberto ei.
Quando a simplificação gera ambiguidade
O ponto mais problemático do acordo está nos casos em que duas palavras passaram a ser escritas exatamente igual. O verbo ver no presente do indicativo (ele vê) perdeu o acento e ficou idêntico ao verbo vir conjugado (ele vem), mas ele veem não existe — veem é a terceira pessoa do plural de ver, e aqui houve um esforço para manter a distinção através do duplo E. Ainda assim, ele pode (presente) e ele pôde (pretérito) agora são grafados da mesma forma, forçando o leitor a depender inteiramente do contexto temporal para desambiguar. Isso é um recuo na clareza gráfica que linguistas apontam frequentemente.
Outro detalhe que quase ninguém menciona: o acento no úmbigo e enxágue também caiu. Umbigo e enxague passaram a ser as formas padrão. Isso afeta diretamente redatores e revisores, porque é fácil deixar passar sem notar. Uma prática que eu adotei é manter um arquivo pessoal com as exceções mais comuns — aquela pequena lista de palavras que mantiveram o acento por não se encaixarem nas regras de simplificação. Leva cerca de 30 minutos fazer essa lista inicial, mas economiza horas de revisão depois.
Se você está trabalhando com localização ou revisão de textos em português, a recomendação mais honesta é usar um corretor baseado em regras explícitas e não em substituição cega de padrões ortográficos genéricos. Ferramentas como o LanguageTool configurado para pt-BR ou pt-PT seguem o acordo de forma mais consistente do que corretores embutidos em processadores de texto comuns, que muitas vezes ainda não foram totalmente sincronizados. E mesmo assim, sempre faça uma revisão manual final — especialmente em textos literários ou jurídicos, onde a ambiguidade gerada pela perda do acento diferencial pode causar mal-entendidos reais.