Quando eu comecei a corrigir redações, minha primeira impressão era que os alunos simplesmente erravam o português. Mas depois de alguns meses, percebi que o problema não era exatamente gramatical. Era sobre o que não se coloca no papel quando se faz uma dissertação-argumentativa, especialmente num contexto como o ENEM. Vou listar aqui as palavras e expressões que vão te prejudicar, e explicar por que elas aparecem tanto.
Palavras que nao podem usar na redacao: os vícios mais comuns
Os principais candidatos à rejeição ou à perda de pontos são certos conectivos e marcadores de opinião que substituem argumentação real. A palavra "achismo" existe por um motivo. Quando o aluno escreve "eu acho que" ou "na minha opinião", está usando uma frase de preenchimento. O corretor já sabe que é sua opinião. O texto é, por definição, uma produção sua. Isso não agrega nada.
Outro item frequente é o uso de "muito", "tanta coisa", "demais". São advérbios de intensidade que não especificam nada. Substituir por algo concreto resolve o problema rapidamente. Em vez de dizer que um problema é "muito grave", cite o dado ou o contexto que demonstra a gravidade.
Expressões do tipo "hoje em dia", "atualmente", "nos dias de hoje" são redundantes. Se você está escrevendo no presente, o termo já está implícito. O mesmo vale para "com certeza", "sem dúvida nenhuma", "obviamente". São marcas de entusiasmo barato que tentam dar peso a afirmações que ainda não foram provadas.
Eu já vi redação inteira construída em cima de "por isso", "então", "logo", "portanto" usados de forma indiscriminada. A diferença é que esses conectivos precisam ter uma relação lógica clara entre duas ideias. Se a premissa não está lá, o conectivo vira um muleta sintática. Eu costumava marcar isso e pedir para o aluno reler o parágrafo anterior para verificar se a conclusão realmente nascia do argumento, ou se era apenas um gancho sonoro.
Tem ainda o caso dos neologismos e gírias. "Tipo", "né", "aff", "resenha". Às vezes o aluno achava que estava sendo criativo. Não era. Era registro inadequado. A norma culta da redação não proíbe criatividade, mas exige que ela esteja no nível adequado ao gênero.
Um problema mais sutil que eu encontrei muitas vezes envolve o uso de "povo" e "governo" como sujeitos genéricos. Quando o texto diz "o povo quer..." ou "o governo deve...", sem especificar qual povo ou qual governo, a generalização perde força. Eu via corrigendo isso pedindo para o aluno nomear exatamente o grupo ou a instância que estava sendo citada. Uma vez, uma aluna escreveu "o governo não faz nada" em todo o segundo parágrafo. O texto inteiro virou reclamação sem alvo. Após eu mostrar que bastava especificar "o governo federal no quesito saúde pública", ela conseguiu reestruturar o argumento em dez minutos.
Como substituir essas expressões na prática
A primeira coisa é ler seu texto em voz alta. Palavras de preenchimento tendem a soar mais evidentes quando faladas. "Na minha visão pessoal" soa desnecessário quando dito em tom normal. Isso é um teste rápido que funciona na maioria das vezes.
A segunda é revisar conectivos. Cada "portanto", "logo", "consequentemente" precisa ser justificado pelo que foi dito antes. Se não tiver antecedente lógico, o conectivo está sobrando.
Termos vagos como "coisas", "assuntos", "problemas" merecem substituição por nomes próprios. "Problemas sociais" é fraco. "Desigualdade racial e acesso à educação" é um problema social nomeado. Nomes específicos dão densidade ao texto.
Repetição de verbos também atrapalha. "É", "tem", "faz" aparecem demais. Variar o repertório verbal exige ler textos bem escritos, mas isso é trabalho de longo prazo. O ganho imediato vem da retirada dos vazios.