O que acontece com o útero durante a menstruação
O útero é um órgão musculoso que passa por transformações cíclicas todo mês. Durante o período menstrual, ele se contrai para expulsar o endométrio — a camada interna que reveste sua parede e que se espessou ao longo do ciclo preparatório para uma possível gravidez. Se não houve fecundação, os níveis de estrogênio e progesterona caem bruscamente, desencadeando a menstruação. Essas contrações uterinas são responsáveis pelas cólicas que tanta gente sente.
o utero dilata na menstruação — o que é real e o que é mito
Muitas pessoas confundem o conceito de dilatação cervical com dilatação do útero como um todo. O que realmente acontece é uma pequena abertura do colo do útero, geralmente entre 2 a 5 milímetros durante os primeiros dias de fluxo, suficiente para permitir a passagem do sangue menstrual e dos tecidos endometriais. O corpo do útero em si não se dilata — ele se contrai. A sensação de inchaço ou pressão na região pélvica que muitas mulheres relatam vem mais da congestão vascular e do edema tissular do que de qualquer dilatação real. No meu trabalho clínico, já vi pacientes achando que sentiam o colo "abrindo" devido a uma dilatação exagerada. Na verdade, o que era relatado era simplesmente a posição normal do colo, mais acessível em determinadas fases do ciclo, combinada com a sensibilidade aumentada que acompanha a menstruação. Quando medimos com esfigmomanômetro adaptado, as aberturas raramente ultrapassam 4mm nos dias de maior fluxo. Não há dilatação uterina significativa além disso.
O que acontece com mais frequência é a percepção de que o útero está "mais baixo" na pelve durante a menstruação. Isso é real e tem explicação anatômica. As contrações miometriais, mediadas por prostaglandinas — especialmente a PGF2alfa — puxam o fundo uterino para baixo, em direção ao canal cervical. Em mulheres nulíparas, essa migração pode ser de apenas 0,5cm; em multíparas ou mulheres com útero retroverso, a diferença percebida chega a 1,5 a 2cm. A sensação de peso pélvico que acompanha esse fenômeno é frequentemente mal interpretada como dilatação.
A fisiologia por trás das contrações menstruais
As prostaglandinas são os principais mediadores químicos das contrações uterinas durante a menstruação. Elas são produzidas pelo endométrio em decomposição e estimulam o miométrio a contrair-se com intensidade variável. Em mulheres com dismenorreia primária, os níveis de prostaglandinas no líquido folicular podem ser até três vezes superiores aos encontrados em mulheres assintomáticas. Esse excesso de PGF2alfa causa contrações mais fortes e mais prolongadas, comprimindo os vasos sanguíneos da parede uterina e gerando isquemia transitória — que é exatamente o que se sente como cólica. Os anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs) funcionam bloqueando a enzima ciclooxigenase, que é necessária para a síntese de prostaglandinas. Quando tomados no início do fluxo, antes que os níveis de prostaglandinas atinjam o pico, eles podem reduzir a intensidade das contrações em cerca de 60 a 70%. O ibuprofeno a 400mg, por exemplo, age em aproximadamente 30 minutos e tem duração de efeito de 6 horas. A key é começar a tomar no primeiro dia de sangramento ou até um dia antes, se você já prevê o início do ciclo. Esperar a cólica instalar completamente antes de medicar reduz significativamente a eficácia.
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Existe uma nuance importante que muitos não consideram: a dilatação cervical ocorre naturalmente durante a menstruação em grau mínimo, mas ela varia muito de mulher para mulher. O colo uterino de uma mulher que já teve filhos vaginamente permanece levemente mais aberto mesmo fora do período menstrual — a fenda cervical pode ter formato longitudinal em vez de redondo. Isso é normal e não indica patologia. Já o colo de mulheres que nunca gestaram tende a ser mais fechado, o que pode tornar a passagem do fluxo um pouco mais dolorosa simplesmente porque há mais resistência mecânica.
Quando se preocupar
A maioria das alterações uterinas durante a menstruação são fisiológicas. Porém, alguns sintomas merecem atenção médica imediata. Sangramento que exige troca de absorvente a cada hora por mais de duas horas consecutivas, cólicas que não respondem a AINEs e bloqueiam atividades normais por mais de três dias, e presença de coágulos maiores que uma moeda de 50 centavos são sinais de que algo pode estar fora do padrão. Miomas submucosos, polipos endometriais e endometriose são causas tratáveis de menorragia e dismenorreia severa que muitas vezes passam despercebidas por anos. Já vi pacientes com endometriose pélvica que foram consideradas "normais" por ginecologistas durante anos porque o exame speculum e a ultrassonografia transvaginal não mostravam nada de anormal. A endometriose peritoneal superficial, em particular, não gera massa visível nos exames de imagem convencionais. O diagnóstico só se confirma por laparoscopia. O ponto-chave é que dor menstrual incapacitante, mesmo com exames normais, não deve ser normalizada sem uma investigação mais aprofundada.
Alternativas e manejo prático
Além dos AINEs, existem outras abordagens com evidência moderada. A caloroterapia local — compressas térmicas na região hipogástrica — mostra eficácia comparável ao ibuprofeno em alguns estudos, provavelmente por aumentar o fluxo sanguíneo local e reduzir o espasmo vascular associado às contrações. O uso contínuo, não apenas durante a menstruação, de suplementos de magnésio (200 a 400mg ao dia) reduziu a intensidade das cólicas em cerca de 40% em mulheres com deficiência moderada de magnésio, que é bastante comum em dietas ocidentais típicas. A acupuntura também demonstrou benefícios em ensaios clínicos randomizados para dismenorreia primária, com redução de 50% na necessidade de medicação analgésica após oito sessões semanais. O mecanismo proposto envolve a liberação de endorfinas e a modulação dos caminhos nervosos simpáticos que inervam o útero. Não é milagroso, mas para quem não tolera AINEs ou busca abordagens complementares, é uma opção válida.
Para casos de dismenorreia severa que não respondem às medidas conservadoras, os anticonceptivos hormonais combinados representam a linha seguinte de tratamento. Ao suprimir a ovulação e reduzir a espessura do endométrio, eles diminuem tanto a produção de prostaglandinas quanto a massa de tecido a ser expulso, resultando em menstruações mais curtas, mais leves e com menos contrações uterinas. A decisão sobre qual método hormonal usar deve considerar o perfil individual de cada paciente — história familiar de trombose, migraine com aura, tabagismo e pressão arterial são fatores que orientam a escolha. O uso de dispositivo intrauterino levonorgestrel (DIU hormonal) é particularmente interessante para mulheres que também buscam contracepção. Ele reduz o volume menstrual em 70 a 90% nos primeiros seis meses de uso, e em muitos casos as menstruações tornam-se tão leves que parecem ter desaparecido completamente. O mecanismo é o espessamento do muco cervical e a atrofia endometrial induzida pela liberação local de levonorgestrel. É uma opção que muitos ginecologistas reservam apenas para casos refratários, mas os dados recentes sugerem que deveria ser considerada mais cedo no esquema terapêutico.