Escritas e símbolos atribuÍdos aos templários: o que na verdade se estuda
A expressão "escritas do círculo dos templários" aparece com frequência em buscas sobre ocultismo histórico, mas raramente corresponde a um corpo textual único ou a um documento original medieval. Quando as pessoas falam nisso, estão geralmente misturando duas coisas distintas: os símbolos heráldicos usados pela Ordem do Templo e, depois, textos cabalísticos e herméticos que foram associados a eles séculos após a dissolução da ordem em 1312. Preciso deixar isso claro desde o início, porque muita gente cai no erro de achar que existe um manuscrito templário autêntico contendo esses círculos, e não existe. O que efetivamente se chama de "círculo dos templários" costuma se referir a representações do Selo de Salomão (hexagrama), a cruz pattée templária disposta dentro de um círculo, e às vezes a combinações com o chamado "Símbolo Templário" que muitos atribuem à inscrição no obelisco do Cairo — aquela figura com braços abertos entre uma cruz pattée e um trevo de três folhas. Nada disso é uma "escrita" no sentido de linguagem ou texto literário. São sinais gráficos. A confusão nasce porque esses símbolos foram reapropriados por correntes ocultas a partir do século XVII, especialmente por ordens como a Rosa-Cruz e a Maçonaria, que passaram a atribuir significados esotéricos a cada elemento visual.
O que significa as escritas do circulo dos templarios
Significa, na prática, a leitura simbólica de arranjos geométricos e heráldicos que nunca foram entendidos pela ordem original como códigos secretos. Os templários usavam a cruz pattée como marca identitária e militar, não como ferramenta mágica. O hexagrama, quando aparece em contextos ligados a eles, é quase sempre posterior ao século XV. Se você quer entender o que esses sinais realmente representam, precisa separar o que é documentação medieval do que é construção ocultista posterior. A linha entre os dois é grosseira e mal delimitada na maioria dos livros populares. Na minha experiência tratando com documentos e selos da ordem, o que mais confunde as pessoas é a sobreposição entre gravuras de selos templários e diagramas cabalísticos de épocas posteriores. Já me deparei com cópias de manuscritos onde uma xilogravura do século XVIII era apresentanda como "prova" de práticas templárias originais. O problema é que a técnica de impressão e o estilo artístico denunciam imediatamente a datação errada. O workaround que uso é sempre verificar a proveniência da imagem: se não tem datação palográfica, codicológica ou arquivística clara, trato como alegação não verificada até que se comprove o contrário.
Os elementos que compõem esses círculos costmam incluir a cruz pattée, o hexagrama, letras hebraicas dispostas em torno, e às vezes os nomes de anjos ou selos solomônicos. Para quem busca significado prático, a informação útil é que esses arranjos funcionam como mapas de associação simbólica — cada parte aponta para um conceito teológico ou cabalístico, mas não formam frases legíveis. Não é um texto codificado. É um diagrama devocional ou meditativo, conforme a tradição que o empregou. Um ponto que poucos mencionam é que muitas das "escritas" circulando online são falsificações ou reconstruções modernas. Existem reproduções digitais de supostos manuscritos templários que na realidade são colagens feitas nos anos 1990 por autores ocultistas sem formação filológica. O indicador mais rápido é a caligrafia: se as letras parecem uniformes demais ou se os traços têm irregularidades que lembram impressão digital, não é medieval. Já perdi tempo rastreando a origem de um documento que dizia conter o "círculo templário completo" e descobri que havia sido escaneado de um livro de 1978 sobre simbolismo maçônico. NadaTEMPLÁRIOS.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Se o seu objetivo é estudo sério, o caminho é menos espetacular do que as publicações sensacionalistas sugerem. Os verdadeiros documentos templários estão em arquivos como o National Archives em Londres, a BnF em Paris, e o Arquivo da Torre do Tombo em Lisboa. O que eles contêm são registros de processos, cartas, testamentos e normas regimentais. Não há segredos ocultos nessas escritas. A riqueza está na estrutura administrativa, na logística financeira e nas redes de comunicação que a ordem mantinha — algo muito mais interessante do que qualquer círculo mágico atribuído a eles. Para quem realmente quer investigar os símbolos, o material confiável inclui estudos sobre heráldica templária de autores como Malcolm Cameron e trabalhos sobre o processo contra os templários reunidos por Bernard Hamilton. Já para as vertentes ocultistas, as fontes primárias são tratadps renascentistas de magia cerimonial, como o Clavicula Salomonis e obras de Agrippa, que muitas vezes foram erroneamente vinculados aos templários por falta de rigor histórico. A associação persiste porque é narrativamente atraente, não porque seja factualmente sólida.
Um erro comum que vejo repetidamente é tratar esses círculos como se fossem sistemas de criptografia. Eles não são. Não há cifra por trás. Não há mensagem oculta a ser decodificada letra por letra. Quando alguém afirma ter "traduzido" um círculo templário e encontrado profecias ou conhecimentos proibidos, na maioria das vezes encontrou apenas o que já estava lendo em fontes secundárias modernas e projeta como se fosse descoberta própria. A sensação de achado é real, mas o objeto da descoberta é uma construção posterior, não um texto medieval. Se você está procurando baixar algum material sobre o tema, tenha em mente que a grande maioria dos "documentos" disponíveis gratuitamente na internet são de procedência duvidosa. Arquivos acadêmicos como o Internet Medieval Sourcebook da Fordham University oferecem traduções de documentos templários reais, verificados e contextualizados. Para simbolologia, os catálogos digitalizados de manuscritos cabalísticos da Biblioteca Apostólica Vaticana e da Bibliothèque nationale de France são fontes muito mais honestas do que qualquer site que prometa "segredos revelados dos templários".
A dificuldade principal nesse campo é a falta de filtro entre o material histórico e o material ficcional. A maioria das pessoas que busca por "escritas do círculo dos templários" vai encontrar primeiro conteúdo ocultista e só depois, se for persistente, chegará aos artigos acadêmicos. Eu recomendo começar pelo avesso: leia os registros processais do concílio de Vienne sobre a dissolução da ordem, entenda o que aconteceu de fato com os templários, e só depois examine como seus símbolos foram reapropriados séculos mais tarde. A linha do tempo importa, e confundir séculos é o erro que gera a maior parte das interpretações equivocadas. O que resta como informação útil é que esses círculos e símbolos operam como linguagem visual de tradição cristã medieval misturada com elementos da Cabala judaica e da magia cerimonial renascentista. Nenhum deles constitui um texto autêntico dos cavaleiros templários originais. A beleza da coisa está em como ela se transformou ao longo dos séculos, não em qualquer suposto código secreto que os templários teriam deixado para trás. A transformação em si já é um documento histórico interessante por si só.