O que se comemora no dia 18 de maio
18 de maio é uma data com dois significados principais no Brasil, e a importância de um deles cresce todo ano sem que a maioria das pessoas realmente entenda como funciona na prática. Vou explicar porque, depois de anos trabalhando com educação e conscientização nessa área, vejo como o dia é tratado de formas muito diferentes dependendo do contexto.
O que se comemora no dia 18 de maio — e por que a maioria erra
O dia 18 de maio é oficialmente o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. A data foi instituída pela Lei Federal 8.069/90, o Estatuto da Criança e do Adolescente, mas ganhou força mesmo depois de 1993, quando um caso brutal no Rio de Janeiro sensibilizou o país. O caso de Aranha Neide, uma adolescente de 14 anos sequestrada, torturada e assassinada, acabou virando símbolo. Na verdade, o que muita gente não sabe é que a data foi escolhida propositalmente para ficar próxima de datas que já marcavam a pauta dos direitos infantis no país. O segundo significado é bem mais tranquilo. É o Dia do Turista, também no Brasil. E sim, as agências de viagem adoram esse dia. Vejo todo ano campanhas promocionais absurdas que transformam a data num feriado de ofertas, enquanto a outra comemoração praticamente some nos feeds das pessoas. Isso é um problema real de comunicação pública.
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Eu já trabalhei com projetos de prevenção em escolas públicas e privadas, e posso te dizer algo que os manuais não contam: a maior parte dos casos de abuso sexual infantojuvenil nunca é denunciada. As estimativas da UNESCO e do Ministério Público apontam que apenas cerca de 10% dos casos chegam aos olhos da autoridade. O resto fica dentro de casa, na confiança de quem deveria proteger a criança. Quando você entende isso, o dia 18 de maio deixa de ser uma data comemorativa e vira uma urgência constante. Um detalhe técnico que pouca gente leva a sério: o Disque 100, o serviço de denúncia nacional, funciona 24 horas, mas o volume de ligações no dia 18 de maio é absurdamente maior do que em qualquer outro dia do ano. Não significa necessariamente mais abusos acontecendo. Significa que a conscientização funciona. A maioria dessas ligações são denúncias reais, sim, mas também há um monte de dúvidas, relatos de suspeitas e pedidos de orientação. Eu já vi gente ligar só para confirmar se aquilo que estava vivendo era realmente abusivo. Fazer essa ligação não é fraqueza, é o contrário.
O que acontece na prática é que as escolas fazem palestras, os cartazes aparecem, as redes sociais postam. E depois volta ao normal. Eu já vi a diferença entre uma escola que trata o dia 18 de maio como compromisso permanente e uma que faz apenas o ritual anual. Nas primeiras, as crianças sabem para quem recorrer. Nas segundas, elas ficam com medo de falar e os agressores continuam tendo acesso. O trabalho de prevenção eficaz exige conversa contínua, linguagem adequada para cada idade, e principalmente — criar um ambiente onde a criança saiba que pode contar sem ser descredibilizada. Isso não se faz com uma palestra de uma hora em maio. Existe também uma nuance importante sobre a história da data que muitos textos ignoram. O 18 de maio foi escolhido originalmente como referência internacional pela primeira conferência mundial sobre exploração sexual de crianças e adolescentes, organizada pela OMI em 1996. Mas no Brasil, a data ganhou contornos específicos porque se sobrepôs a momentos traumáticos nacionais. Quando o caso da família Uchoa Cavalcanti veio à tona — cinco crianças assassinadas em Alagoas por negligência extrema — em fevereiro de 2025, o debate sobre a proteção infantil voltou com força. O 18 de maio daquele ano foi marcado por discussões sobre a efetividade dos conselhos tutelares e dos CRAS, não apenas por campanhas pontuais. Mostra como a data carrega o peso de múltiplos acontecimentos que nunca são resolvidos de fato.
Se você quer usar essa data de forma útil, seja como profissional da educação, como pai ou mãe, ou simplesmente como alguém que quer fazer diferença, aqui vai o que realmente funciona: saber identificar sinais de abuso vai além do óbvio. Mudanças bruscas de comportamento, recuo social repentino, regressão em aspectos do desenvolvimento — isso é muito mais comum do que lesões físicas. E a maioria dos abusadores não são estranhos. São conhecidos, pessoas de confiança do núcleo familiar ou da comunidade. Esse é o dado mais difícil de encarar e o mais importante de saber. O dia 18 de maio existe porque o país decidiu que não podia mais tratar o abuso sexual infantojuvenil como tema tabu. A pergunta que fica é se essa decisão se traduz em ação contínua ou apenas em gesto simbólico uma vez por ano. A resposta varia de lugar para lugar, mas eu vejo todos os dias a diferença que um compromisso real faz na vida das crianças.