O Que O Boto Cor De Rosa Come - Boto-cor-de-rosa: conheça a espécie que é uma lenda da Amazônia
Boto-cor-de-rosa: conheça a espécie que é uma lenda da Amazônia

O que o boto cor de rosa come na prática

O boto cor de rosa é um predador de fundo. Ele não caça no meio da coluna d'água como os golfinhos oceânicos. Ele vai até o leito dos rios, usa o focinho alongado para revirar lama e areia, e arranca o que encontra ali.

o que o boto cor de rosa come

A dieta básica é composta principalmente por peixes de pequeno e médio porte que vivem próximos ao fundo. As espécies mais registradas em estudos estomacais incluem bagres (família Pimelodidae), piranhas, pacus, dourados e alguns espécies de charuteiros. Em algumas regiões do Amazonas, os estômagos também retornaram com fragmentos de crustáceos, especialmente caranguejos de água doce. O que muita gente não sabe é que ele é oportunista de verdade. Em períodos de seca, quando os peixes ficam concentrados nas lagoas que vão secando, o boto consegue se alimentar basicamente do que estiver disponível. Já vi relatórios de animais se alimentando de lagostas de rio e até de anfíbios quando a oferta de peixes despencava.

Um detalhe prático que os pesquisadores precisam levar em conta: o boto tem dentes pequenos e cônicos. Ele não mastiga. O método é pegar a presa e engolir inteira, na direção certa — geralmente cabeça para frente. Se o peixe for grande demais, ele precisa manusear com as barbatanas peitorais e o focinho até conseguir o ângulo de deglutição. Isso limita o tamanho máximo da presa a algo em torno de 30 a 40 centímetros na maior maioria dos casos. No período de cheia, a diversidade da dieta aumenta porque os peixes se dispersam pela várzea. Nas águas barrentas dos igarapés, o boto depende muito da ecolocalização. O som reflete nos corpos dos peixes escondidos entre raízes e troncos submersos. Já tive problema pra diferenciar o sinal de um peixe do de um objeto morto na lama durante coleta de dados acústicos. A solução foi calibrar o equipamento com gravações de boto se alimentando em cativeiro e comparar os padrões de reverberação. A diferença entre o eco de um peixe vivo e o de um tronco submerso é sutil mas consistente — o peixe gera uma assinatura acústica mais complexa devido às bolsas de ar na bexiga natatória.

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Há também a questão da digestão. Como ele engole tudo inteiro, ossos e escamas vão junto. Os estudos de micropaleontologia das cobras-do-rio e dos botos mostram que os ossos dos peixes se acumulam nos estômagos e são regurgitados depois como cosmeiros. Isso é útil pra quem quer montar a dieta sem dissecar o animal — basta coletar os cosmeiros nas margens onde eles descansam. Outro ponto que os manuais nem sempre destacam: o boto não come plantas. Às vezes fragmentos de vegetação aparecem nos conteúdos estomacais, mas é ingestão acidental durante a busca por presas no fundo. Ele não é herbívoro nem folívoro. É estritamente carnívoro.

A quantidade diária de comida varia bastante. Um adulto de cerca de 2 metros consome algo entre 5 e 10 quilos de peixe por dia, dependendo da atividade e da temperatura da água. Em águas mais frias, o metabolismo desacelera e ele come menos. Na secagem das lagoas, ele pode ficar dias sem comer se os peixes fugirem para os rios principais antes que o boto consiga isolá-los. Se você está estudando a dieta desses animais, o método mais confiável hoje combina análise de cosmeiros, biópsia de gordura para isótopos estáveis de nitrogênio e carbono, e telemetria acústica. Cada método tem suas limitações. Cosmeiros mostram o que foi comido nas últimas horas. Isótopos revelam a dieta média dos últimos meses. Telemetria mostra onde e quando ele caça. Usar só um deles dá uma visão incompleta e às vezes enganosa.

A teoria antiga de que o boto come principalmente birins e matrinxãs de pequeno porte ainda aparece em muitos materiais didáticos, mas os dados mais recentes de estudos no médio Solimões e no tapajós mostram uma distribuição muito mais ampla, com predominância de bagre simi e jaraqui em várias áreas.