Quem foi Mauá e por que o nome virou época
Irineu Evangelista de Sousa nasceu em 1813 no Rio Grande do Sul, em uma família de pequenas posses. Começou vendendo doces e livros nas ruas de Montevidéu quando ainda era adolescente, porque a Guerra da Cisplatina tinha obrigado a família a fugir. Aprendeu inglês e francês sozinho, fazendo trading de importação e exportação. Depois voltou ao Rio de Janeiro, começou do zero de novo, e em poucos anos construiu o maior império industrial do Brasil imperial. A chamada "era Mauá" se refere basicamente ao período entre meados dos anos 1850 e início dos anos 1870, quando ele estava no auge das operações. Foi quando ele financiou e construiu a primeira ferrovia brasileira, a Estrada de Ferro Dom Pedro II, inaugurada em 1858. Foi quando criou a Companhia de Navegação Lagoa dos Patos, que ligava o Rio Grande do Sul ao Mato Grosso por via fluvial. Foi quando fundou o Estaleiro Mauá, no Caju, que construía navios a vapor de ferro — algo que praticamente não existia na América Latina na época. Também finanziou o primeiro sistema de iluminação a gás do Rio de Janeiro, a primeira companhia de telégrafo, e teve participação decisiva no Banco do Brasil, que ele ajudou a reorganizar.
O que foi a era Mauá: contexto econômico e político
O que foi a era Mauá não se resume a uma lista de empresas. O ponto central é que ele representava um modelo de desenvolvimento que colidiu frontalmente com os interesses estabelecidos no Brasil do século XIX. O padrão ouro, a moeda forte, as taxas de câmbio favoráveis ao comércio exterior britânico — tudo isso beneficiava os exportadores de café e açúcar, que queriam câmbio alto e mão de obra barata. Mauá queria industrialização, infraestrutura pesada, câmbio estável e um banco central que financiasse o desenvolvimento. Isso colocava ele contra quase todo mundo: os fazendeiros de café, os comerciantes importadores portugueses, e dentro do próprio governo imperial, onde correntes liberal ortodoxa e moçorepublicana viam a atuação dele como perigosa. Uma coisa que poucos mencionam é que o colapso dele não foi só por inimigos políticos. O Estaleiro Mauá, por exemplo, tinha um problema crônico: a matéria-prima de ferro e aço precisava ser importada, e os custos logísticos destruíam a margem. Ele conseguia construir navios que competiam com os estaleiros britânicos, mas o volume de produção era limitado pela falta de siderurgia nacional. Você tenta vender um navio a vapor para a Marinha brasileira e leva três anos negociando, enquanto o capital fica imobilizado. Isso acontecia repetidamente.
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Outro detalhe que passa despercebido: Mauá não era um homem de Estado. Ele nunca pediu cargo público. Sempre se manteve como empresário privado financiando projetos que o governo não queria ou não podia fazer. E essa ambiguidade era exatamente o problema. Quando precisava de garantia do governo para empréstimos internacionais, dizia que era iniciativa privada. Quando o governo queria usar o dinheiro dele para obras públicas sem assumir dívida, ele aceitava. O equilíbrio era precário e dependia de favores políticos pontuais. O fim veio em 1871, com a chamada Questão Mauá. O governo Provisório da República Rio-Grandense, em meio à Guerra do Paraguai, havia confiscado barcaças e navios da Companhia de Navegação Lagoa dos Patos para uso militar, prometendo indenização posterior. Mauá cobrou. O governo brasileiro, sob pressão dos fazendeiros de café e das facções políticas adversárias, se recusou a pagar integralmente. Os credores internacionais perceberam que o risco Brasil tinha subido, e o crédito externo secou. Mauá entrou em liquidação em 1874. Vendeu ativos por valores below market, perdeu o controle do Banco do Brasil, e morreu em 1889 praticamente endividado, apesar de ter sido o homem mais rico do Brasil em seu tempo.
Alguém poderia chamar isso de tragédia. É mais preciso chamar de síntese de como funciona o desenvolvimento industrial em economia dependente: você precisa de capital, tecnologia, proteção temporária e um Estado capaz de garantir contratos. Mauá teve os três primeiros por um período limitado. O quarto nunca existiu de forma consistente. O que resta da era Mauá não são só ferrovias e estaleiros, mas a demonstração prática de que industrialização semi-periférica exige um equilíbrio político que raramente se mantém por mais de duas décadas sem institucionalização.