O Que É Ser Contemporâneo - O que e ser contemporaneo?
O que e ser contemporaneo?

O conceito de contemporaneidade não é o que você acha que é

A gente costuma confundir contemporâneo com "atual". Ser contemporâneo não significa viver na mesma época que alguém. Não é sinônimo de moderno, nem de recente. Tem a ver com uma relação temporal mais específica e, honestamente, mais problemática do que a maioria das pessoas imagina. Quando eu comecei a lidar com teoria crítica, achava que ser contemporâneo era simplesmente estar inserido no presente histórico. Aí eu li Giorgio Agamben e percebi que estava enganado. O texto dele "O que é o contemporâneo?" é denso, mas a ideia central é contraintuitiva: ser contemporâneo é aquela capacidade de perceber que você está desalinhado do seu próprio tempo. Ou seja, quem realmente vive o presente é quem não consegue se encaixar nele.

O que é ser contemporâneo de verdade

A definição prática que funciona na hora de aplicar esse conceito é a seguinte: ser contemporâneo é olhar para o seu tempo e perceber que ele não está funcionando como deveria funcionar. É uma espécie de cegueira seletiva que permite enxergar o que os outros ignoram porque estão ocupados demais vivendo o presente confortavelmente. Agamben fala que o contemporâneo é aquele que recebe luz proprio do seu tempo, mas esse luz não vem do presente em si, vem da sua escuridão. Traduzindo: você só vê de verdade aquilo que o seu momento não consegue iluminar naturalmente. Na prática, isso significa que ser contemporâneo exige um certo desconforto. Pessoas que estão plenamente adaptadas ao seu período histórico raramente são contemporâneas no sentido filosófico do termo. Elas simplesmente vivem. Os contemporâneos são aqueles que sentem o atraso, a falha, a discordância entre o que o tempo diz que deve ser e o que ele efetivamente é.

Um exemplo bem concreto que eu vi acontecer nos últimos anos: durante a pandemia, muita gente se adaptou rapidamente ao novo normal. Trabalhar de casa, usar máscara, aceitar a nova rotina. Eu diria que essas pessoas foram adaptadas, mas não necessariamente contemporâneas. Quem foi contemporâneo foi aquele que conseguiu perceber que a suposta "nova normalidade" escondia estruturas de poder que já existiam antes e que se aproveitaram da crise para se reforçar. Esses conseguiam ver o que o presente estava tentando ocultar sob o pretexto da emergência. O problema é que esse tipo de percepção não é confortável. Ninguém gosta de sentir que está fora de sintonia com o próprio tempo. Por isso a maioria das pessoas evita essa posição. Ela prefere se integrar ao presente do que questioná-lo. E isso é perfeitamente compreensível, mas significa que a contemporaneidade no sentido rigoroso é reservada para aqueles que têm disposição para o desconforto intelectual.

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A armadilha do presentismo

O maior erro que eu vejo pessoas cometendo é pensar que todo mundo que vive hoje é contemporâneo. Isso é um erro grave. Viver no século XXI não faz de ninguém contemporâneo. A contemporaneidade é uma postura ativa, não uma condição passiva. Ela exige um trabalho de leitura do tempo que a maioria das pessoas simplesmente não faz. Eu já participei de discussões acadêmicas onde pessoas usavam "contemporâneo" como sinônimo de "digtal" ou "conectado". Isso é um absurdo. Você pode ser a pessoa mais conectada do mundo e ainda assim estar completamente alheia às contradições do seu tempo. Na verdade, a conectividade excessiva pode até atrapalhar, porque cria a ilusão de que você está informado quando na realidade está apenas consumindo conteúdo superficial.

Outra armadilha comum é achar que o contemporâneo é necessariamente progressista ou de esquerda. Não é. Ser contemporâneo é uma questão de percepção temporal, não de posição política. Alguém pode ter uma visão extremamente reacionária e ainda assim ser contemporâneo no sentido agambeniano, porque consegue perceber as fissuras do seu tempo. A política entra quando você decide o que fazer com essa percepção, mas a percepção em si é anterior a qualquer posicionamento ideológico. O que eu recomendo na prática é evitar dois extremos. O primeiro é achar que contemporaneidade é só ter opinião sobre assuntos do momento. O segundo é achar que é algo inalcançável que só filósofos atingem. A verdade é que qualquer pessoa pode desenvolver essa capacidade com exercício intencional. O exercício básico é simples: pare de consumir notícias como se elas fossem o presente e comece a perguntar o que está sendo excluído delas. O que não está sendo dito? Quais histórias estão sendo omitidas? Qual estrutura de poder está se beneficiando dessa omissão?

Isso não é fácil. Leva tempo e exige que você aceite sentir-se desconfortavelmente deslocado. Mas é o único caminho real para desenvolver uma noção genuína do que é ser contemporâneo. A maioria das pessoas nunca vai por esse caminho porque o conforto intelectual é sedutor. Elas preferem acreditar que estão vivenciando o presente quando na realidade estão apenas reagindo a estímulos que o presente oferece de forma padronizada. No final das contas, a pergunta certa não é "o que é ser contemporâneo" como se fosse uma definição de dicionário. A pergunta certa é "eu estou sendo contemporâneo ou apenas vivendo no mesmo tempo que os outros?" A diferença é enorme e a maioria das pessoas não tem coragem de enfrentá-la.