O'que É O Conhecimento - O Que Significa Conhecimento Empírico - GITEDU
O Que Significa Conhecimento Empírico - GITEDU

Conhecimento não é o que você acha que é

Passei anos tentando definir o que é o conhecimento pra mim mesmo, e a coisa mais honesta que posso dizer é que ele se parece muito menos com uma biblioteca bem organizada e mais com um arquivo quebrado que às vezes funciona e às vezes não. Quando eu comecei a trabalhar com gestão do conhecimento em empresas de tecnologia, me deparei com um problema engraçado: os funcionário mais novos sabiam resolver tudo, mas não conseguiam explicar porquê. Os mais velhos sabiam explicar, mas não resolviam mais nada. Eu ficava no meio achando que sabia o que era o conhecimento porque eu lia filósofos, mas na prática eu não sabia distinguir conhecimento tácito de explícito direito até perder três semanas num projeto porque assumi que todo mundo tinha o mesmo conhecimento implícito que eu. O que é o conhecimento de verdade? A definição de dicionário fala em "conjunto de informações e habilidades que você adquiriu por experiência ou educação". Soa boba quando você lê em voz alta. A parte que ninguém conta é que conhecimento não é informação. Informação é um dado num contexto. Conhecimento é informação que você já testou contra a realidade e descobriu que funciona, ou que não funciona, ou que funciona só em certas condições que você lembra de cabeça mas não consegue escrever num manual. Eu tenho conhecimento de que o servidor de produção costuma cair depois de três dias sem reiniciar. Isso é conhecimento. A documentação diz que o servidor precisa de manutenção a cada 72 horas. Isso é informação. O conhecimento é pior porque ele vive na sua cabeça e some quando você vai embora.

O que é o conhecimento na prática

Aqui vai algo que vai contra o senso comum: conhecimento profundo às vezes é negativo. Você sabe o que não fazer melhor do que sabe o que fazer. Quando eu estava configurando um pipeline de deploy para um cliente no interior de São Paulo, o problema não era que o time não soubesse usar a ferramenta. Era que eles sabiam demais. Tinham aplicado seis camadas de automação num sistema legado que não aguentava duas. Eu tive que desaprender três coisas que eu achava que eram melhores práticas e voltar pra lógica mais simples possível. O conhecimento que importava ali era saber que simplicidade era a resposta, não complexidade. Outra coisa que as pessoas não entendem: conhecimento e memória são coisas diferentes. Memória é guardar. Conhecimento é saber usar o que você guardou numa situação nova. Eu já vi engenheiros formados em escolas top que travavam numa situação que não estava nos exercícios da faculdade. Eles tinham memória, não conhecimento. O conhecimento só se forma quando você erra, corrige, e erra de novo de um jeito diferente até a correção virar instinto.

Como construir conhecimento que realmente serve

A primeira regra prática é parar de coletar informação e começar a registrar falhas. Eu mantinha um arquivo simples, só texto, onde eu anotava o que quebrava e porquê. Não era bonito. Era confuso. Mas depois de dois anos esse arquivo virou meu melhor material de consulta. Quando alguém me perguntava algo, eu não ia Google. Eu abria o arquivo e procurava algo parecido. O conhecimento real começa aí: num registro honesto do que deu errado, não do que deu certo. A segunda regra é o método de ensino invertido. Em vez de você ler sobre algo e tentar aplicar, tente explicar pra alguém que não entende nada. Se você não consegue explicar de forma simples, você não entendeu. Não tem como enganar a si mesmo nessa hora. Eu já tentei passar aquele truque pra um estagiário que tinha acabado de chegar e percebi que eu estava pulando três passos que eu dava como óbvios. Esses três passos eram exatamente o conhecimento que eu tinha mas não sabia que tinha.

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Tem um terceiro ponto que parece óbvio mas ninguém segue: conhecimento se degrada. Eu vi uma empresa inteira confiar num procedimiento documentado que tinha cinco anos. Quando o ambiente mudou, o procedimento continuava idêntico. Ninguém questionou porque estava escrito e parecia autoridade. Documentação sem revisões periódicas é pior que documentação inexistente porque dá uma falsa sensação de segurança. Coloquei data de validade em tudo que eu escrevia. Se o documento não fosse revisado a cada seis meses, ele virava obsoleto automaticamente. Funcionou.

Limitações que ninguém conta

O conhecimento tácito tem um problema sério: você não consegue transferi-lo de forma confiável. Eu tentei durante meses criar documentação que captasse o raciocínio de um especialista sênior da equipe. Ele dizia "depende" o tempo inteiro. "Depende" de quê? "Depende do jeito que o outro sistema responde". Não tinha fórmula. Eu passei duas semanas gravando reuniões dele com clientes pra tentar extraír o padrão. O padrão existia, mas era tão contextual que não daria pra replicar. A solução que encontrei foi mais simples: em vez de tentar documentar o conhecimento dele, eu fiz com que um junioresse aproximassem até aprenderem junto, coisa que levou quatro meses em vez de quatro dias. Existe também o problema do custo de oportunidade. Todo tempo gasto construindo conhecimento é tempo que você não está construindo produto. Eu vi times inteiros paralisados em retrabalho de documentação porque a cultura da empresa dizia que conhecimento precisava ser formalizado antes de ser usado. Resultado: ninguém trabalhava, só documentava. O conhecimento só vale quando é aplicado, não quando é arquivado. A regra prática que eu segui foi: documente no momento da dor, não antes. Se você ainda não errou daquela forma, não adianta escrever sobre isso. Espera errar. Aí documenta.

Conhecimento também depende de contexto cultural. Eu trabalhei com times distribuídos entre Brasil e Portugal e percebi que o que era considerado conhecimento claro num lugar era completamente obscuro no outro. Não era diferença técnica. Era diferença de referência. Um termo que usávamos no Brasil não existia no vocabulário técnico português deles. Passamos dois dias discutindo sobre algo que na verdade era só uma palavra diferente pra mesma coisa. A lição prática foi: antes de assumir que alguém não tem conhecimento, verifique se vocês estão usando as mesmas palavras.