O que é medico geriatra na prática
Muita gente acha que geriatra é o médico que cuida de idosos. A definição funciona na superfície, mas o dia a dia é bem diferente do que se vê em folhetos de plano de saúde. O medico geriatra é um clínico geral que fez residência na área de geriatria, com especialização em como o envelhecimento altera a farmacologia, a apresentação clínica das doenças e a relação entre múltiplas condições crônicas. Isso significa que um paciente de 78 anos com diabetes, insuficiência renal moderada e artrite não responde ao tratamento da mesma forma que um paciente de 45 anos com as mesmas doenças, mesmo quando os rótulos são idênticos.
Eu trabalhei com acompanhamento de idosos polimedicados e vi na prática como um protocolo padrão para hipertensão pode causar queda de pressão ortostática em três dias. O ajuste precisou ser feito com dosagens fracionadas de antihipertensivos e monitoramento domiciliar com registro de pressão em decúbito e em pé, separados por dois minutos. Sem esse protocolo simples, o paciente cairia e entraria no ciclo vicioso de fraturas e institucionalização.
o que é medico geriatra e por que ele existe
A geriatria nasceu como especialidade porque a medicina convencional foi construída em torno do paciente adulto único, com uma queixa principal e exames direcionados. O idoso raramente se encaixa nesse modelo. Ele chega com três queixas, sete medicamentos, três diagnósticos não resolvidos e um sintoma novo que ninguém identifica porque não parece com nada do livro-texto. O que o geriatra faz de diferente é a abordagem sistêmica. Ele avaliaal, cognitiva, psicológica e social antes deprescrever. O instrumento CGA, ou Comprehensive Geriatric Assessment, leva em média 40 a 60 minutos na primeira consulta e cobre mobilidade, estado nutricional, uso de medicamentos, depressão, cognição e rede de apoio. Uma consulta padrão de geriatria custa entre 250 e 600 reais em convênio, dependendo da região, e costuma ser agendada a cada três a seis meses após o primeiro acompanhamento.
Um ponto que poucos mencionam: a Síndrome da Fragilidade não aparece nos prontuários comuns. Ela é avaliada por critérios como perda de peso não intencional, fadiga, velocidade de marcha lenta, força de preensão manual reduzida e baixo nível de atividade física. Se você não medir a velocidade de marcha, que deve ser inferior a 0,8 metro por segundo em idosos fragilizados, perde um dos preditores mais fortes de internação e mortalidade. Eu uso uma fita métrica no consultório e cronômetro no celular. Custa zero e muda completamente o risco de alta de muitos pacientes.
Como funciona na prática
A primeira consulta de geriatria geralmente dura mais porque o profissional ouve antes de prescrever. O paciente chega com a lista de remédios, que em muitos casos precisa ser revista inteira. A polifarmácia é o maior problema prático. Idosos usam em média cinco a oito medicamentos, e pelo menos dois deles podem não ter mais indicação real ou estar causando efeitos adversos. O critério Beers, atualizado pela American Geriatrics Society, lista medicamentos potencialmente inapropriados em idosos. Eu já vi caso de idoso usando benzodiazepínico há dez anos para insônia, sem nenhuma reavaliação. A suspensão foi feita com redução de 10% a cada duas semanas, substituindo por higiene do sono e melatonina em doses baixas. O paciente teve abstinência controlada e melhorou a memória em seis semanas. Sem o criterio Beers na mesa, isso raramente acontece.
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Outro aspecto importante é a apresentação atípica de doenças. Pneumonia em idoso pode não ter febre, nem tosse, nem falta de ar aparente. Pode se manifestar apenas como confusão mental aguda. Eu já tive paciente que entrou no consultório porque a filha notou que ele estava "diferente", falando coisas sem nexo. O exame de imagem revelou pneumonia bilateral. Se o geriatra depender apenas dos sintomas clássicos, perde esses casos.
Quando procurar um geriatra
Não é necessário esperar chegar aos 80 anos. A consulta de avaliação geriátrica preventiva pode começar aos 65 anos, especialmente se houver múltiplas condições crônicas, quedas recorrentes ou mudanças cognitivas. Pessoas com cinco ou mais medicamentos em uso diário também se beneficiam muito de uma revisão geriátrica, mesmo que se sintam estáveis. O processo de encontrar um especialista funciona assim: procure no conselho regional de medicina do seu estado a lista de médicos com título de especialista em geriatria pela SBG, Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Verifique se o profissional está com a anuidade em dia. Não confie apenas em avaliações em sites de recomendação, porque a qualidade clínica real não aparece nessas plataformas.
Para quem mora em cidades menores, a teleconsulta de retorno é viável para ajustes de medicação e acompanhamento de condições estáveis. A primeira consulta, no entanto, deve ser presencial, porque o exame físico e a avaliação funcional precisam de presença. Em cidades sem geriatra, o clínico geral com treinamento em geriatria pode assumir o acompanhamento, mas o encaminhamento para o especialista é recomendado em casos de fragilidade confirmada ou diagnóstico cognitivo duvidoso.
O que a geriatria não resolve
A geriatra não é mágica. Ela não reverte a demência estabelecida, não repara fraturas e não substitui a reabilitação pós-AVC. O que ela faz é otimizar o que existe, reduzir danos iatrogênicos e manter a funcionalidade o máximo possível. Esse é o limite real da especialidade. O maior gargalo no Brasil é a carência de profissionais. Há cerca de 2.500 geriatras para uma população de mais de 30 milhões de idosos acima de 65 anos. Isso significa que o acesso é desigual e a espera por consulta pode variar de duas semanas a seis meses, dependendo da região. Em cidades do interior, muitas vezes não há nenhum geriatra. O paciente precisa viajar para capitais, o que onera a família e dificulta o seguimento.
Outro problema é a remuneração. A consulta de geriatria tem tabela restrita no SUS e em muitos convênios, o que desincentiva a expansão da especialidade. O gasto com avaliação geriátrica completa é alto em horas médicas, mas o retorno em redução de hospitalizações é documentado em estudos. Só que o sistema de saúde não reconhece esse ganho a curto prazo.
Resumo sem enrolação
O medico geriatra é o profissional que lida com a complexidade do envelhecimento, ajustando tratamentos, revisando medicações e prevendo quedas antes que aconteçam. Ele não trata uma doença isolada. Ele trata a pessoa idosa como um todo. Se você tem mais de 65 anos, usa cinco ou mais remédios, caiu alguma vez ou notou mudança na memória, uma consulta geriátrica vale o tempo e o custo. O retorno vem na forma de menos remédio, menos ida ao pronto-socorro e mais independência.