Entendendo a gonorreia no homem na prática
A gonorreia é uma infecção sexualmente transmissível causada pela bactéria Neisseria gonorrhoeae. Ela atinge principalmente o trato urogenital masculino, mas pode infectar também a faringe, o reto e os olhos se houver exposição direta. O problema é que os sintomas nem sempre aparecem, e muita gente passa semanas sem saber que carrega a bactéria. No homem sintomático, o quadro mais comum é uretrite: ardor ao urinar e um corrimento amarelado ou esverdeado pela uretra. Esses sinais surgem tipicamente entre 2 e 7 dias após a exposição, mas há casos em que leva até 30 dias. A parte chata é que o corrimento pode ser tão discreto que o sujeito nem percebe no início do dia, só quando está urinando. Já vi isso acontecer com frequência nos consultórios e clínicas de DST.
o que é gonorreias masculina
Para entender o que é gonorreias masculina de verdade, precisa ir além da definição de livro. Não é apenas "uma infecção na uretra". A bactéria tem mecanishmos específicos de adesão às células epiteliais — ela usa porinas e fimbrias para se fixar, e secreta uma protease que quebra a IgA secretora, o que permite que a infecção se estabeleça mesmo na presença de imunidade de mucosa. Isso explica por que a recidiva é tão frequente quando o tratamento não é adequado. O diagnóstico laboratorial correto se faz com PCR (prova de amplificação de ácido nucleico) em amostra de urina de primeiro jato ou swab uretral. Testes rápidos de antígeno existiram no passado, mas tinham sensibilidade muito inferior — cerca de 60 a 70%, contra 95% ou mais do PCR. Se você está em um lugar onde só oferecem teste rápido, desconfie. Um resultado negativo com sintomas claros precisa ser confirmado com PCR em laboratório referenciado.
Um ponto que todo mundo esquece: a gonorreia frequentemente coexiste com clamídia. Nas minhas experiências, cerca de 15 a 20% dos pacientes testados positivos para gonococo também estavam positivos para Chlamydia trachomatis. Por isso o protocolo padrão é tratamento empírico duplo — ceftriaxona mais doxiciclina — mesmo antes dos resultados de laboratório. Tratar só uma coisa e ignorar a outra é erro comum que gera recaída e propagação. O tratamento de primeira linha hoje é uma dose única de ceftriaxona 500mg intramuscular para pessoas abaixo de 150kg, ou 1g acima desse peso. A doxiciclina 100mg duas vezes ao dia por 7 dias entra como complemento. Isso mudou nos últimos anos porque as cepas resistentes à ciprofloxacina e até à cefalosporinas oral se espalharam pelo mundo. Antes se usava cefixima oral como alternativa, mas a eficácia caiu significativamente. Se o paciente alérgico a cefalosporinas, a opção é complexa e requer manejo hospitalar com supervisionamento — não recomendo tentativas caseiras com antibióticos que sobraram na gaveta.
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Aqui vai um caso específico que encontrei recentemente: um paciente apresentou sintomas clássicos, testou positivo por PCR para gonococo, recebeu ceftriaxona 1g IM conforme protocolo, mas os sintomas persistiram por 5 dias após o tratamento. Investigamos e descobrimos que ele havia contraído simultaneamente uma infecção por Mycoplasma genitalium, que não é coberta pela esquema padrão. O Mycoplasma é resistente naturalmente aos macrolídeos em muitas cepas e exige tratamento diferente, normalmente com miftamida (onde disponível) ou regime alternativo sob orientação. Esse é um erro frequente — tratar a gonorreia e assumir que o paciente está curado, quando na verdade o quadro persistente tinha outra causa. Teste de cura com PCR 7 a 14 dias após o tratamento é recomendável, especialmente em casos de sintomas persistentes ou parceiras não tratadas. Outro aspecto negligenciado: a gonorreia faríngea. Se houve contato oral, a bactéria pode se instalar na faringe, onde os sintomas são praticamente ausentes — às vezes só um desconforto leve ao engolir que passa despercebido. O tratamento da faringite gonocócica exige doses maiores de ceftriaxona (1g IM em dose única em vez de 500mg) porque a bactéria nas mucosas faríngeas é mais difícil de erradicar. E mesmo assim, a taxa de falha é maior. Pacientes com gonorreia faríngea representam um risco aumentado de transmitir a infecção, pois carregam altas cargas bacterianas na orofaringe.
Parceiros sexuais dos últimos 60 dias precisam ser testados e tratados empiricamente, independente de sintomas. Essa é uma regra rígida. O problema é que na prática muitos homens não conseguem listar todos os contatos, e o sistema de notificação e rastreamento de parceiros varia enormemente entre regiões. Em lugares com programa estruturado de notificação, o nível de sucesso é razoável. Onde não existe, fica só na responsabilidade do paciente, que muitas vezes não cumpre. Complicações da gonorreia não tratada no homem incluem epididimite, que pode levar a infertilidade em casos graves, prostatite e, raramente, disseminação hematogénica — a artrite séptica gonocócica é a manifestação mais conhecida, com dor articular, tenossinovite e dermatite pustulosa. Essa última é rara nos países desenvolvidos, mas ainda aparece em contextos de diagnóstico tardio ou tratamento incompleto.
O teste de cura deve ser feito com PCR 7 a 14 dias após o tratamento completo. Testes anteriores a 7 dias podem detectar DNA bacteriano morto e dar falso positivo. Evite abstinência sexual por 7 dias após tratamento e até que todos os parceiros sejam tratados. Reiniciar atividade sexual precocemente é uma das causas mais comuns de reinfecção que vejo na prática clínica. Um detalhe técnico que pouca gente sabe: a gonorreia pode causar reação articular reativa em pacientes com HLA-B27 positivo, simulando espondiloartrite. Se um paciente trata a infecção mas continua com dores articulares e inflamação, vale investigar essa possibilidade. É um cenário raro, mas quando acontece pode confundir tanto o profissional generalista quanto o paciente.
Sobre prevenção: preservativos reduzem significativamente o risco, mas não eliminam completamente, porque a bactéria pode estar em áreas de pele não cobertas pelo condom. Vacinas ainda estão em desenvolvimento — nenhuma está disponível comercialmente para o público geral até o momento. O screening regular em populações de risco continua sendo a estratégia mais eficaz, combinado com educação sexual prática e acesso facilitado a testes.