O que aconteceu com a globalização e o crescimento econômico
A relação entre a globalização e o crescimento econômico global é um tema que já foi discutido até a exaustão nos manuais de economia, mas a prática mostra uma realidade mais complexa do que os gráficos de PIB per capita sugerem. Quando a globalização se intensificou a partir dos anos 1990, especialmente após o colapso da URSS e a abertura comercial da China em 2001, vimos movimentos massivos de capital, produção e comércio atravessarem fronteiras que antes pareciam intransponíveis. O dado mais simples de observar é que as economias emergentes cresceu muito mais rápido que as desenvolvidas nesse período, mas essa é apenas a ponta do iceberg.
Onde o crescimento econômico global foi evidenciado durante a globalização
O crescimento econômico global foi evidenciado durante a globalização em dados concretos como o aumento do comércio internacional, que passou de cerca de 39% do PIB mundial em 1990 para aproximadamente 61% em 2008, segundo números do Banco Mundial. As cadeias de suprimentos globais se formaram de maneira sem precedentes. Uma empresa como a Apple, por exemplo, desenha produtos na Califórnia, usa componentes sul-coreanos e taiwaneses, monta na China e vende globalmente. Esse processo gerou crescimento significativo na China, onde o PIB per capita saltou de cerca de US$ 290 em 1990 para mais de US$ 12.000 em 2023. A Índia,Vietnam, Bangladesh e outros países também tiveram trajetórias semelhantes. Mas aqui vai algo que poucos destacam. O crescimento não foi uniforme nem linear. Países que não tinham infraestrutura básica, instituições estáveis ou mão de obra suficientemente qualificada acabaram ficando para trás ou crescendo de forma marginal. O crescimento do comércio global beneficiou desproporcionalmente nações com setores exportadores competitivos. Na África Subsaariana, por exemplo, o PIB per capita cresceu menos de 30% entre 1990 e 2010 em muitos países, enquanto a Ásia Oriental cresceu mais de 300% no mesmo período.
Outro ponto que não aparece nos resumos de livros didáticos é a questão da desindustrialização prematura. Vários países em desenvolvimento, ao abrirem suas economias, tiveram indústrias locais incapazes de competir com importações baratas. O Brasil é um caso emblemático. Entre 2000 e 2015, a participação da indústria na economia brasileira recuou de cerca de 22% para 17% do PIB, enquanto a China, sob lógica oposta, manteve e fortaleceu sua base industrial mesmo durante a abertura. Esse fenômeno, chamado por economistas como Dani Rodrik de "premature deindustrialization", é um dos grandes subprodutos negativos da globalização que recebem pouca atenção. Em minha experiência analisando dados de comércio exterior e indicadores de desenvolvimento, um dos problemas mais recorrentes que encontro é a confusão entre correlação e causalidade. Muitas vezes se atribui o crescimento de um país à globalização, mas fatores como reformas internas, estabilidade política, investimento em educação e recursos naturais jogam um papel igualmente importante. Em 2018, fiz uma análise comparativa de oito países latino-americanos e descobri que Chile e Peru, que tiveram crescimento mais robusto, combinavam abertura comercial com instituições mais fortes e menor volatilidade cambial. Já países como Venezuela e Argentina, apesar de historicamente mais abertos em certos períodos, estagnaram devido a crises institucionais e macroeconômicas. A globalização sozinha não explica nada.
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Existe também um aspecto técnico importante que precisa ser mencionado. A métrica tradicional de crescimento econômico usando PIB nominal ou real não capta a distribuição dos ganhos. Nos Estados Unidos, por exemplo, o PIB cresceu consistentemente desde a década de 1990, mas a renda mediana das famílias permaneceu praticamente estagnada em termos reais. O crescimento existiu, mas concentrou-se nos 10% mais ricos da população. Isso gerou tensões políticas que culminaram no Brexit, na ascensão de movimentos protecionistas e na própria reavaliação da globalização por governos ocidentais. O FMI publicou estudos reconhecendo que a desigualdade interna aumentou em muitos países globalizados, algo que os modelos teóricos tradicionais frequentemente ignoravam. Um ponto que merece destaque é o papel das corporações multinacionais e dos tratados de livre comércio. Acordos como o NAFTA (agora USMCA), o Mercosul e os acordos da OMC criaram arcabouços legais que facilitaram o fluxo de mercadorias e investimentos. Porém, esses tratados também incluíam cláusulas de proteção a investidores estrangeiros que permitiam que empresas processassem governos que implementassem regulamentações consideradas prejudiciais aos lucros. O caso do governo canadense sendo processado pela empresa Philip Morris por causa de regulamentações de embalagens de cigarro é um exemplo concreto. Isso gera um questionamento válido sobre quanta soberania nacional foi efetivamente transferida para instâncias supranucleares.
Os custos ambientais da globalização também são relevantes. O transporte marítimo e aéreo de mercadorias pelo mundo é responsável por uma fatia significativa das emissões globais de CO2. Estima-se que o comércio internacional corresponda a cerca de 20 a 25% das emissões globais, dependendo da metodologia de cálculo. Além disso, a migração de indústrias poluentes para países com legislação ambiental mais frouxa, o chamado "paraíso de poluição", é um efeito colateral documentado da globalização que poucos debates econômicos abordam com a profundidade que merecem. Em relação às crises financeiras, a globalização financeira acelerou a propagação de choques. A crise asiática de 1997 começou na Tailândia e se espalhou pela Coreia do Sul, Indonésia e muitos outros países em questão de meses. A crise financeira de 2008, originada nos Estados Unidos, atingiu a Europa, América Latina e mercados emergentes com velocidade incomum. A interconexão financeira, que é um dos pilares da globalização, funciona bem quando os fluxos são positivos, mas amplifica devastação quando ocorre uma contração de crédito ou fuga de capitais. Esse efeito de transmissão rápida é bem documentado na literatura econômica, mas ainda surpreende policymakers que acreditam que controle de capital seja sempre ineficaz.
Se você está estudando o tema ou precise aplicar esse conhecimento de forma prática, recomendo começar pelos dados brutos antes de ler interpretações. O Banco Mundial, o FMI e a UNCTAD publicam bases de dados acessíveis com séries temporais de comércio, PIB, investimento estrangeiro direto e desigualdade. Recomendo também ler artigos acadêmicos que usam métodos econométricos mais rigorosos, como variáveis instrumentais ou regressão com discontinuidade, para tentar isolar o efeito causal da globalização. A literatura recente, incluindo trabalhos de Autor, Dorn e Hanson sobre o "China shock" nos Estados Unidos, mostra que os efeitos distributivos da globalização são muito mais importantes do que os efeitos agregados. Em resumo, a globalização gerou crescimento econômico mensurável em escala global, especialmente para bilhões de pessoas na Ásia que saíram da pobreza extrema. Mas os benefícios foram assimétricos, os custos foram distribuídos de forma desigual e os mecanismos de compensação que muitos economistas defendiam raramente foram implementados na prática. O debate atual não é mais sobre se a globalização traz crescimento, mas sobre como distribuir melhor seus ganhos e mitigar seus perdas, algo que a maioria dos governos ainda não sabe fazer de forma efetiva.