Entendendo os músculos da face e pescoço na prática clínica
A maioria dos estudantes de fisioterapia e médicos iniciantes aborda os músculos da face e pescoço como se fossem listas para decorar. Na realidade, a função desses músculos é muito mais dinâmica e interconectada do que qualquer atlas anatômico mostra. A face tem mais de trinta pares de músculos estriados, e o pescoço não é simplesmente uma coluna com carne em volta. Eles trabalham em sinergia constante, e entender isso faz diferença direta no tratamento. O orbicular do olho, por exemplo, não serve apenas para fechar a pálpebra. Ele tem uma porção palpebral e uma porção orbital, e cada uma tem inervação e função distintas. A porção palpebral é responsável pelo piscar normal e pela lágrima; a orbital entra em ação durante o fechamento forçado. Na prática, pacientes com Síndrome do ORL (orbitorinofacial) muitas vezes têm disfunção isolada em uma dessas porções, e o tratamento precisa considerar essa diferenciação.
Músculos da face e pescoço: biomecânica e abordagem funcional
O platysma é um dos músculos mais subestimados nessa região. Ele não é apenas um músculo superficial do pescoço. Ele se insere na mandíbula, na linha do mento e na pele da face inferior. Quando um paciente presenta assimetria facial pós-AVC ou paralisia de Bell, o platysma frequentemente entra em spasticidade compensatória, puxando o canto da boca para baixo e criando uma aparência de "boca torta" que não reflete a real paralisia do facial. Eu tive um caso recente de uma paciente de 68 anos com sequelas de acidente vascular encefálico hemisférico esquerdo. A paralisia do facial era moderada, mas o que chamava mais atenção era uma retrção acentuada do cantus lateral do lábio inferior e da mandíbula do lado afetado. O padrão de ativação do platysma estava completamente alterado. O que fiz foi trabalho de liberação miofascial no platysma, seguido de neuromodulação com estimulação elétrica funcional para reeducar o zygomaticus maior e olevator anguli oris. Em quatro sessões, a assimetria em repouso reduziu significativamente.
Os músculos mastigatórios meritam atenção especial. O músculo temporal, o masseter e os pterigóideos formam um sistema que responde a cargas assimétricas o dia inteiro. Bruxismo, discrepâncias oclusais, dores cervicais crônicas — tudo isso se conecta. Um paciente que chega com cefaleia tensional persistente e dor pré-auricular muitas vezes não tem problema na articulação temporomandibular em si, mas sim uma hiperatividade do pterigoideo lateral, que puxa o disco articular para frente durante o dia todo. Uma informação que poucos mencionam: o pterigoideo lateral tem duas porções com funções distintas. A porção superior origina-se da asa do esfinço e insere-se no colo do côndilo e no cápsula articular. A porção inferior origina-se da face lateral da lâmina lateral do processo pterigóide. Durante o movimento de protrusão, a porção inferior é o principal responsável. Já a porção superior atua na estabilização do disco durante a abertura e fechamento. Quando há desordem temporomandibular com redução discal sem redução, muitas vezes a porção superior está em espasmo crônico, e tratamentos focados apenas no masseter e temporal não resolvem o problema.
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O esteriocleidomastóideo também é frequentemente mal compreendido. Bilateralmente, ele flexiona o pescoço. Unilateralmente, ele lateroflexiona e rotaciona o rosto para o lado oposto. Esse músculo tem fuso proprioceptivo em densidade muito maior do que músculos esqueléticos semelhantes, o que significa que ele envia informações proprioceptivas abundantes para o sistema vestibular. Distúrbios no SCM estão associados não apenas a dor cervical, mas também a tonturas e desequilíbrios posturais que pacientes e terapeutas frequentemente não conectam. Durante a avaliação, recomendo testar primeiro a presença de pontos-gatilho ativos no masseter e no temporal, que são os mais comuns emcefaleia de tensãosecundária a disfunção musculoesquelética. A pressão sobre o ponto-gatilho do masseter, por exemplo, pode gerar dor referida na região pré-auricular, no ouvido e até nos molares superiores. Pacientes frequentemente relatam "dor de dente" sem causa odontológica, quando na verdade a fonte é miofascial.
No pescoço, os músculos escalenos merecem destaque especial. O escaleno médio e o anterior podem comprimir o plexo braquial e a artéria subclávia, gerando sintomas de síndrome do escape torácico. A dor irradiada para o membro superior nesses casos muitas vezes é confundida com patologia cervical radicular. O teste de Adson, apesar de ter baixa sensibilidade e especificidade, ainda é útil como triagem inicial quando combinado com a palpação dos escalenos — que costumam estar endurecidos e dolorosos à pressão. Uma consideração importante sobre a inervação: os músculos da expressão facial são inervados pelo nervo facial (VII par craniano), com exceção do músculo pterigoideo lateral, que recebe ramificações do nervo trigêmeo (V par). Isso significa que lesões do facial afetam a expressão, mas não a mastigação. Por outro lado, lesões do trigêmeo comprometem a mastigação mas preservam a expressão facial. Esse diferencial é crucial no diagnóstico diferencial de pacientes com queixas mistas.
Na prática clínica diária, o que mais vejo são tratamentos incompletos porque o avaliador foca apenas no sintoma primário. Um paciente com dor no trapézio pode ter a origem no platysma. Um paciente com assobio ao dormir e ronco pode ter hipertonidade dos músculoshioideos e supra-hioideos, que deslocam a base da língua para trás durante o repouso. A avaliação deve sempre seguir uma cadeia funcional, não um esquema isolado por músculo. A termografia e a eletromiografia de superfície são ferramentas úteis para quantificar a assimetria de atividade muscular na face, mas na rotina clínica o mais viável continua sendo a palpação sistemática combinada com testes de movimento ativo e passivo. A sequência que utilizo é: avaliação postural global, palpação de todos os músculos da face e pescoço em busca de alterações de textura e dolorosidade, testes de amplitude de movimento da ATM e coluna cervical, e finalmente testes funcionais como mastigação simulada, deglutição e fala.
O tempo médio de avaliação completa com esse protocolo é de aproximadamente 25 a 35 minutos. A grande maioria dos pacientes com dores faciais e cervicais crônicas apresenta padrões de disparidade que podemsersidentificados nessa avaliação inicial. O que frequentemente diferencia um tratamento eficaz de um que estagna é a precisão na identificação desses padrões desde a primeira consulta.