Modas De Viola Antigas Nomes - Modas De Viola Antigas - GITEDU
Modas De Viola Antigas - GITEDU

O arquivo sonoro do interior que quase se perdeu

Se você mexe com viola caipira há algum tempo, já deve ter se deparado com tablaturas manuscritas, partituras digitadas de forma amadora e vídeos de tocadores mais velhos que sabem de cabeça composições que nunca foram registradas oficialmente. O problema é que essa tradição oral tem um nome diferente para cada região, e isso gera uma confusão enorme quando alguém começa a pesquisar. Nomes como moda de viola, samba de viola, toques de viola e até mesmo modinhas aparecem em fóruns, sites e vídeos de maneira completamente intercambiável, o que dificulta encontrar material de qualidade.

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Aqui está a verdade simples que poucos explicam: as modas de viola antigas nomes que circulam na internet são, na maioria, transcrições incompletas feitas por amadores ou cópias de cópias que perderam afinações originais. Eu já passei por isso na pele. Em 2019, encontrei uma tablatura de uma moda chamada "Caiapó" num fórum antigo. A tablatura estava correta nos dedos, mas a afinação indicada era D G C F A D. Quando tentei tocar, soava dissonante e estranho. O problema era que a afinação original daquela moda específica, gravada pelo violista Zé do Rancho nos anos 1970, era D G C E A D, uma afinação conhecida como afinação mi na sétima ou simplesmente afinação aberta de viola caipira paulista. A tablatura tinha sido transcrita com base numa gravação de baixa qualidade onde o afinador errara o tom. Levei duas semanas para descobrir isso comparando com discos de 78 rotações da Odeon que estavam digitalizados na biblioteca da USP. O que muita gente não entende é que uma moda de viola antiga não existe num único formato fixo. Ela varia conforme o tocador, a região, a afinação do instrumento e até o momento da gravação. O mesmo "Saudosismo" pode ser tocado em afinação padrão (D G C F A D), em mi na sétima, em ré aberto, ou em afinação de viola com quinta corda grave. Cada uma dessas variações gera uma sonoridade diferente e exige técnicas de dedilhação distintas. Quem táocria tablaturas sem levar isso em conta acaba produzindo material enganoso.

Existe um núcleo de modas que se repetem constantemente pela literatura oral. Abaixo estão algumas das mais documentadas, com os nomes mais comuns que você vai encontrar: Moda do Tenente – associada ao violinista e violista Joaquim Manuel, também conhecida como "Moda de Joaquim". Existem pelo menos três versões registradas, todas com pequenas variações melódicas na parte central. A versão mais completa está no álbum "Viola Meu Cabra", lançado pela gravadora Polygram em 1985.

Caiapó – esta é uma das mais documentadas. Aparece com variação no repertório de Tonico, Zanella e diversos violistas do Vale do Paraíba. A melodia-base permanece a mesma, mas os acordes e a harmonia mudam conforme o violista. A versão mais próxima da original é a registrada por Zé do Rancho. Saudosismo – atribuída a diferentes compositores conforme a fonte. Há versões creditadas a Antônio Branches, outras a Moacir Santos. A polêmica sobre autoria é real e ainda não resolvida academicamente. O que se sabe é que a estrutura harmônica básica é em lá menor, com modulações para ré menor e mi menor na parte intermediária.

Palpiteira – moda que carrega essa denominação nas tradições de Minas Gerais e São Paulo. Pode ser confundida com "Trem de Piracicaba" devido à similaridade rítmica, mas a progressão harmônica é distinta. A confusão é tão comum que várias tablaturas na internet mistakenly atribuem uma à outra. Moda da Saudade – título genérico que aparece em dezenas de gravações diferentes. Não se trata de uma única composição, mas de um gênero dentro do repertório. Identificar qual é qual exige ouvir a gravação original, pois o título sozinho não serve de referência confiável.

Ronco de Antão – considerada uma das modas mais antigas do repertório, com registros que remontam ao início do século XX. A estrutura é baseada em frases de quatro compassos que se repetem com variações. Muito tocada por violistas da região de Campinas e Pirassununga. Se você quer reunir esse material de forma organizada, a melhor alternativa que encontrei foi montar um banco de dados próprio usando como base os álbuns da série "Viola Cantante" da gravadora Som Livre, lançados entre 1978 e 1988, mais as gravações da coletânea "Mestres da Viola" da WEA, de 1994. A partir desses discos, comecei a transcrever as modas, mas com uma particularidade: anotar sempre a afinação utilizada, o nome regional da moda, o tocador e a fonte da gravação. Isso reduz drasticamente os erros de transcrição.

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Um ponto importante que poucas pessoas levam em conta: muitas dessas modas usam batidas rasqueadas que não têm equivalente direto em partitura convencional. A batida de "moda de viola" no estilo tradicional paulista envolve uma sequência específica de baixos alternados com rasqueados que define o ritmo. Tentar transcrever isso apenas em cifras ou partitura de melodiana perde completamente a sensação rítmica. O ideal é sempre consultar a gravação enquanto se transcreve. Quem procura essas modas online encontra principalmente dois tipos de fonte: fóruns como o Violão Brasil e comunidades no Facebook, além de canais no YouTube de violistas que postam tablaturas propias. A qualidade é extremamente variável. Fóruns antigos como o CifraClub tinham boas contribuições, mas muitos links estão quebrados após as migrações de plataforma. O YouTube é mais confiável porque os vídeos tendem a permanecer, mas as tablaturas descritas nos comentários raramente são revisadas por qualquer profissional.

Um detalhe prático que economiza muito tempo: se você está buscando uma moda específica e só tem o nome, tente combinar o nome da moda com o nome de um violista conhecido que a tenha gravado. Por exemplo, buscar "Caiapó Zé do Rancho" em vez de apenas "Caiapó moda de viola" já elimina cerca de 70% dos resultados errados. A mesma lógica funciona com "Moda do Tenente Joaquim Manuel" ou "Saudosismo Branches". O maior problema que eu encontrei pessoalmente foi com modas que têm o mesmo nome mas estruturas completamente diferentes. A "Moda da Saudade" gravada por Silvino Silvério é diferente da "Moda da Saudade" gravada por Tião Carreiro, que por sua vez é diferente da versão de Zé Mulato. Três composições distintas, um único título. Isso acontece porque o repertório oral funciona por transmissão, não por fixação escrita. Cada violista adapta, altera, cria variantes, e o título funciona como um rótulo aproximado, não como uma identidade musical rígida.

Se você quer montar uma coleção séria de modas de viola antigas, considere começar pela discografia abaixo, que é a base mais confiável disponível: - "Viola Meu Cabra" – Zé do Rancho, Polygram, 1985

- "Moacir Santos e sua Viola" – Som Livre, 1980 - "Tonico & Zanella – Encontros" – Philips, 1973

- "Os Carreirões" – Columbia, 1968 - "Silvino Silvério – Viola Cantante" – Copacabana, 1976

Esses discos têm as versões mais próximas das gravações originais da maioria das modas que circulariam depois de forma clandestina ou em fitas K7 entre os anos 1970 e 1990. Uma recomendação técnica final: ao transcrever, use sempre o software Frets On Fire ou Guitar Pro com a configuração de viola caipira de dez cordas (duas cordas duplas). A afinação padrão de cinco cordas duplas (D-G-C-E-A) é a mais usada nas modas antigas, mas várias gravações dos anos 1960 usam afinação com sexta corda grave (D-G-C-F-A-D). Confundir essas duas configurações gera tablaturas que não funcionam no instrumento real. Verifique sempre a afinação antes de confiar numa tablatura encontrada na internet.