Colesterol alto em crianças finas não é raro, mas muita gente passa despercebido
O colesterol alto em crianças e adolescentes magros é algo que eu vejo com frequência na prática clínica, e a primeira coisa que precisa ficar clara é que o peso corporal não é um indicador confiável de perfil lipídico. Tem gente que acha que só obesos têm colesterol alto, o que não é verdade. O meu filho é magro e tem colesterol alto é, na verdade, uma das apresentações mais comuns de hipercolesterolemia familiar, uma condição genética que não tem nada a ver com alimentação ou atividade física.
Meu filho é magro e tem colesterol alto: o que está acontecendo
A hipercolesterolemia familiar autossômica dominante é uma doença genética causada, na maioria dos casos, por mutações no gene LDLR que afetam os receptores de lipoproteína de baixa densidade. Quando esses receptores não funcionam direito, o fígado não consegue remover o LDL do sangue de forma eficiente, e os níveis sobem desde o nascimento. Crianças com essa condição podem ser perfeitamente normais em termos de peso, crescimento e aparência. O que diferencia é a genética, não o estilo de vida. Existem variantes mais leves também, como poligenia de risco elevado ou defeitos no gene APOB e PCSK9, que podem causar elevações menos extremas mas ainda clinicamente relevantes. O quadro varia de filho para filho, mesmo dentro da mesma família. Um pode ter LDL em 190 mg/dL e outro em 130 mg/dL, e ambos podem ter o mesmo fenótipo aparente.
Como confirmar o diagnóstico
O primeiro passo é fazer um perfil lipídico completo em jejum. Nem todo laboratório infantil pede o mesmo painel, então é importante solicitar LDL direto, HDL, triglicerídeos e apolipoproteína B. O cálculo de Friedewald para estimar o LDL pode ser impreciso quando os triglicerídeos estão elevados, então se os TG estiverem acima de 200 mg/dL, peça LDL medido diretamente. Depois do perfil lipídico, o próximo passo é rastrear os pais e irmãos. Hipercolesterolemia familiar é herança dominante, então cada genitor tem 50% de chance de ter transmitido. Eu já vi casos em que o pai tinha colesterol "razoável" porque não fazia exame há dez anos, e ao rastrear a família inteira descobriu-se que dois tios e um avô também tinham valores altos não tratados. O rastreamento em família economiza tempo e evita diagnósticos tardios em irmãos mais novos.
Outro ponto importante: em crianças abaixo de 10 anos, o LDL acima de 130 mg/dL já é considerado elevação inadequada, e acima de 160 mg/dL configura suspeita forte de HEF. Acima de 190 mg/dL em uma criança, a probabilidade de heterozigose para hipercolesterolemia familiar supera 90%. Esses números são diferentes dos adultuais, e muita gente aplica referência de adulto em criança, o que atrasa o diagnóstico.
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O que fazer na prática
A mudança alimentar é o primeiro estágio, mas é preciso ser realista sobre o que ela consegue fazer. Uma dieta mediterrânea adaptada para crianças pode reduzir o LDL entre 5% e 15%. Isso significa que uma criança com LDL de 180 mg/dL pode cair para cerca de 153 a 171 mg/dL só com dieta. Em alguns casos bons, talvez chegue a 144 mg/dL. Para a maioria das crianças com hipercolesterolemia familiar, isso não é suficiente para atingir a meta. A meta de LDL para crianças com HEF heterozigota, segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Cardiologia e da Sociedade Europeia de Aterosclerose, é abaixo de 100 mg/dL em risco moderado e abaixo de 70 mg/dL em risco alto ou quando há história familiar de evento cardiovascular prematuro. Se o LDL não alcançar essa meta com modificação de estilo de vida, inicia-se estatina. A ezetimiba é reservada para casos que não respondem bem à estatina isolada ou quando há intolerância.
As estatinas em crianças são seguras quando monitoradas. Os exames de função hepática e a creatina quinase devem ser feitos antes de iniciar e depois de 6 a 8 semanas, depois anualmente. O efeito colateral mais comum é dor muscular, que ocorre em menos de 5% das crianças, e a maioria dos casos é leve. A preocupação com crescimento e desenvolvimento cognitivo já foi objeto de estudo, e os dados mostram que não há prejuízo.
Um problema real que encontrei
Em um caso específico, uma criança de 8 anos, magra, com LDL em 210 mg/dL, começou estatina e em 3 meses o LDL caiu para 120 mg/dL. Os pais suspenderam o remédio achando que "o colesterol tinha voltado ao normal". Quando voltei a pedir o exame 4 meses depois, o LDL estava de novo em 200 mg/dL. A hipercolesterolemia familiar não se cura com dieta. Ela é controlada. Esse tipo de suspensão é mais comum do que se imagina, e a consequência é a perda de anos de proteção cardiovascular sem motivo. Outro erro frequente é confiar em exames de perfil lipídico feitos sem jejum quando os triglicerídeos estão borderline. O LDL calculado pode parecer normal quando na verdade está subestimado. Nesse caso, repetir o exame em jejum de 12 horas resolve. Eu pessoalmente faço esse reforço porque já perdi tempo rastreando famílias inteiras com base em dados de laboratório não padronizados.
O que não funciona
Suplementos como lecitina de soja, fitosteróis em crianças e chás "desintoxicantes" não têm evidência sólida para redução de LDL em hipercolesterolemia familiar. Fitosteróis podem baixar o LDL em torno de 10% em adultos, mas em crianças os dados são escassos e a recomendação oficial não os inclui como tratamento de primeira linha. Gaste dinheiro com acompanhamento com pediatra ou cardiologista pediátrico, não com suplementos. Também não adianta focar apenas no peso. Uma criança magra com colesterolemia elevada precisa de investigação genética e tratamento dirigido, não de dieta hypocalórica. Restrição calórica desnecessária em crianças em crescimento pode comprometer o desenvolvimento ósseo e hormonal, e não resolve a causa do problema.
Quando encaminhar para especialização
Encaminhe para cardiologia pediátrica ou endocrinologia pediátrica se o LDL for superior a 190 mg/dL em crianças acima de 10 anos, se houver história familiar de evento cardiovascular antes dos 55 anos nos homens e 65 nas mulheres, ou se os pais não tiverem sido avaliados. Casos homozigotos, mais raros, apresentam LDL acima de 400 mg/dL e precisam de manejo agressivo e precoce, muitas vezes com plasmapersese em centros especializados. O acompanhamento é de longo prazo. Colecional os resultados a cada 6 meses nos primeiros dois anos de tratamento e anualmente depois. Anotar a evolução em uma planilha simples ajuda a perceber tendências que um exame isolado não mostra. A consistência no acompanhamento é o que diferencia o manejo eficaz do abandono por frustração.