Menstruação Retida No Útero - 5 coisas pra observar no seu ciclo menstrual - Fetalmed
5 coisas pra observar no seu ciclo menstrual - Fetalmed

O que acontece quando o sangue menstrual fica preso

O sangue menstrual pode acabar acumulando-se no interior do útero quando existe uma obstrução mecânica ou uma anomalia estrutural que impede a sua evacuação normal. Isto não é um mito. É uma condição clínica real com causas bem definidas. As mais frequentes são estenose cervical, síndroma de Asherman (aderências intrauterinas), malformações Müllerianas, e em alguns casos, o uso prolongado de DIU hormonal que altera a descamação endometrial. Há também situações menos óbvias, como a presença de pólipos endometriaís ou fibroids submucosos que criam um obstáculo físico ao fluxo.

Diagnóstico e manejo da menstruação retida no útero

O diagnóstico começa por história clínica e exame ginecológico, mas a imagem é decisiva. A transducers vaginal é o método de eleição. No sono, o líquido hemático aparece como conteúdo anecoico ou com fina sedimentação interna, diferenciando-se facilmente de hematomas ou colecções piogenes. O Doppler não mostra fluxo vascular dentro da colecção, o que ajuda a descartar massas sólidas. Em casos ambíguos, a histerossalangografia ou a ressonância magnética revelam a anatomia subjacente com precisão suficiente para planejar a intervenção. Uma situação prática que me aconteceu recentemente envolveu uma paciente de 34 anos com cianorreia e dor pélvica cíclica severa, sem história de cirurgias uterinas prévias. O ecógrafo mostrou distensão endometrial com conteúdo ecogénico homogéneo, sugerindo hematocolpos. A histeroscopia diagnóstica revelou uma estenose cicatricial cervical muito fina, quase imperceptível a olho nu, causada por uma curetagem realizada há oito anos. A dilatação mecânica guiada por histeroscópio operatório com canhão de monopolar permitiu criar via de escoamento. O procedimento durou cerca de 25 minutos. A dor pós-operatória foi mínima, e a menstruação voltou a um padrão normal dentro de seis semanas.

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Outro ponto que pouca gente considera é que a retenção de sangue menstrual nem sempre causa sintomas óbvios. Em mulheres com hímen imperfurado ou em adolescentes com trunco vaginalado, a principal apresentação pode ser amenorreia primária combinada com dor pélvica cíclica que aparece meses após a menarca. Muitas vezes, o diagnóstico só surge quando a paciente desenvolve endometriose secundária por refluxo tubário, algo que leva anos a manifestar-se de forma clássica. O retrofluxo menstrual crónico é um mecanismo patogénico subestimado e está directamente relacionado com a instalação de implantes endometriais em cavidade pélvica. O tratamento depende inteiramente da causa subjacente. Na estenose cervical simples, a dilatação progressiva com histeroscópio é suficiente na grande maioria dos casos. Nas aderências de Asherman, a lise adhesiva deve ser feita por via histeroscópica, preferencialmente com tesoura de Skinner ou bipolar de baixa potência, seguida de colocação de balão intrauterino ou dispositivo hormonal local durante 30 a 45 dias para prevenir re-celagem. A terapia hormonal de reposição pós-cirúrgica acelera a regeneração endometrial, mas não elimina o risco de recorrência, que varia entre 20% e 40% dependendo da gravidade inicial das aderências.

Há ainda a questão das complicações a longo prazo. A hematometra crónica não tratada pode levar a infecção secundária, formando um piometra — uma colecção de pus no interior da cavidade uterina. Isto é uma emergência relativa que requer drenagem imediata e antibióticos de amplo espectro. Outro risco é a disfunção tubária progressiva por refluxo menstrual repetido, aumentando a probabilidade de infertilidade tubária mesmo após a resolução da obstrução primária. Não há forma de saber com certeza qual destas sequelas vai desenvolver; cada caso é independente. Uma alternativa conservadora quando a cirurgia não está indicada ou é recusado pela paciente é o uso de anticoncetivos orais combinados ou protogesterona isolada. Estes medicamentos suprimem a proliferação endometrial e reduzem significativamente o volume menstrual, minimizando o acúmulo. O efeito é controvertido e funciona apenas enquanto o fármaco está a ser tomado. Ao suspender, o ciclo menstrual normal regressa, e com ele, o risco de nova retenção, se a obstrução anatômica persistir.

O acompanhamento pós-tratamento deve incluir ecografia de controlo aos três meses e, em casos de doença adherencial significativa, histeroscopia de revisão antes de qualquer tentativa de conceção. Mulheres com histórico de síndroma de Asherman grave têm risco aumentado de complicação obstétrica, incluindo placenta prévia, accreta e abortos de segundo trimestre, independentemente do sucesso da cirurgia inicial. Este facto costuma ser pouco discutido no contexto clínico rotineiro.