O que essa especialidade realmente envolve no dia a dia
A geriatria é a área da medicina que cuida de pessoas idosas, geralmente a partir dos 60 anos, mas com um foco diferente do clínico geral. O trabalho não se resume a tratar doenças isoladas. O que uma médica geriatra faz é avaliar o funcionamento global do organismo envelhecido, considerando múltiplas condições simultâneas, uso de diversos medicamentos e a preservação da autonomia funcional.
medica geriatra o que faz na prática clínica
No consultório, a consulta inicial costuma levar entre 40 minutos e uma hora, às vezes mais. A avaliação começa com uma anamnese detalhada que abrange não só queixas médicas, mas capacidade para realizar atividades básicas como tomar banho, se vestir, alimentar-se, e atividades instrumentais como administrar finanças, fazer compras, usar medicamentos corretamente. Você não vai conseguir entender o quadro completo só com exames de laboratório. A polifarmácia é um dos pontos centrais. Idosos frequentemente usam entre cinco e dez medicamentos diariamente. Uma das primeiras ações da geriatria é revisar toda essa lista, identificar interações perigosas, drogas com efeitos colaterais que mimetizam doenças (como anti-histamínicos causando confusão mental em vez de alergia), e considerar a desprescrição quando indicada. Já vi casos em que uma alteração simples na dose de um anti-hipertensivo resolvia uma queda recorrente que estava sendo tratada com Fisioterapia sem eficácia porque a causa raiz nunca tinha sido identificada.
A síndrome geriátrica é outro conceito-chave. Diferente de uma doença única, são condições multifatoriais que surgem do envelhecimento e de problemas combinados. Quedas, incontinência urinária, delirium, síndrome da fragilidade, sarcopenia, dor crônica, dependência funcional. Cada uma dessas síndromes exige uma abordagem que vai além do tratamento farmacológico. Na minha experiência, o delirium pós-cirúrgico em pacientes com mais de 75 anos é constantemente subestimado por equipes hospitalares. Quando não é reconhecido precocemente, o tempo de internação pode aumentar em média cinco dias e a mortalidade hospitalar dobra. A avaliação da cognição não se limita ao Miniexame do Estado Mental. O MEEM tem sensibilidade reduzida para detectar comprometimento leve e depende muito do nível educacional do paciente. Em pacientes com menos de oito anos de estudo, pontuações entre 17 e 23 podem ser falsamente consideradas normais quando na verdade já indicam declínio cognitivo. Nesses casos, prefiro utilizar o teste dos cinqo palavras de Dubois ou a bateria cognitiva completa do NEURON, que leva cerca de 20 minutos adicionais mas oferece muito mais precisão diagnóstica.
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A prescrição de exercícios físicos orientados é parte rotina do acompanhamento geriátrico. Fortalecimento muscular, treino de equilíbrio e exercícios de mobilidade reduzem quedas em aproximadamente 23%, segundo metanálises consolidadas. Porém, a adesão continua sendo o maior obstáculo. Pacientes que moram sozinhos e não têm rede de apoio tendem a abandonar o protocolo em média após três meses. O acompanhamento multidisciplinar com fisioterapeuta especializado em geriatria melhora significativamente essa taxa, mas nem todos os sistemas de saúde oferecem esse suporte de forma estruturada.
Limitações e cenários onde a geriatria não resolve tudo
A geriatria não é solução para todas as condições do idoso. Doenças degenerativas avançadas como Alzheimer estágio III, insuficiência cardíaca classe IV, doença renal crônica em diálise, exigem manejo complexo que muitas vezes sobrepõe cuidados paliativos. Nessas situações, o foco muda da prolongação da sobrevida com qualidade para conforto e dignidade no final da vida. Ainda vejo médicos prescrevendo benzodiazepínicos como primeira linha para insônia crônica em idosos, o que agrava risco de quedas, piora cognição e aumenta mortalidade. É um erro comum que persiste com frequência absurda na prática clínica. O acesso também é restrito. No Brasil, existem poucos geriatras por habitante, especialmente fora dos grandes centros urbanos. A fila de espera para consulta particular em geriatria pode levar de três a seis meses em capitais. No SUS, o tempo médio supera dois anos. Isso significa que muitos idosos com problemas geriátricos complexos acabam sendo atendidos apenas em emergências, quando as condições já estão descompensadas.
Outro ponto importante: a geriatria funciona melhor quando integrada a uma equipe multiprofissional. Sozinha, sem nutricionista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, enfermeiro e assistente social, as intervenções têm alcance limitado. O modelo de atenção geriátrica baseado apenas em consultas médicas isoladas produz resultados muito abaixo do esperado. Dados do Sistema Único de Saúde mostram que unidades com equipe completa têm redução de 31% em hospitalizações evitáveis comparado a consultas isoladas. A atuação da médica geriatra abrange prevenção, diagnóstico, tratamento e reabilitação, mas também inclui uma dimensão que muitos não consideram: a comunicação de más notícias, o planejamento antecipado de cuidados, a discussão sobre testamento vital e diretrizes antecipadas de vontade. Esses temas são delicados, muitas vezes evitados por famílias e profissionais, mas fazem diferença real na qualidade dos cuidados no fim da vida. Discutir preferências de tratamento enquanto o paciente ainda tem capacidade de decisão é uma das funções mais negligenciadas dessa especialidade.