O debate sobre Machado de Assis e raça é mais complexo do que um meme de redes sociais
A discussão sobre se Machado de Assis era racista existe há décadas e, nas últimas cinco, ganhou uma intensidade nova nas redes e na academia. O problema é que a maioria dos argumentos gira em torno de trechos isolados, fora de contexto, e perde de vista o corpo inteiro da obra. Eu li Machado de Assis de forma sistemática nos últimos anos, revisitando os romances, os contos e os artigos de imprensa com esse olhar específico. O que encontrei não é simples.
machado de assis racista: por que o debate existe
Os autores que acusam Machado de racismo citam principalmente dois tipos de evidência. O primeiro são expressões e passagens em que personagens ou narradores usam linguagem que hoje consideramos ofensiva. O segundo são atitudes que parecem indiferentes à opressão racial ou até cômicas em relação a personagens negros. Textos como "O Alienista", alguns contos de "Histórias da Meia-Noite" e certas caricaturas em seus artigos jornalísticos são frequentemente apontados. Por outro lado, defensores de Machado destacam que ele foi o primeiro escritor negro de origem reconhecida a alcançar prestigio nacional no Brasil, que suas obras centralizam personagens negros com complexidade psicológica rara para o século XIX, e que ele criticava a sociedade escravocrata de forma indireta mas consistente. "Quincas Borba", "Memórias Póstumas de Brás Cubas", "Dom Casmurro" e "The Orfeu Xavier" são citados como exemplos de uma sensibilidade que ia além do preconceito comum da época.
A verdade inconveniente é que ambos os lados estão parcialmente certos. Machado era um produto de seu tempo, sim. Mas também era um homem que vivia na fronteira racial do Rio de Janeiro do século XIX e essa posição algo que poucos tinham: uma visão dupla do mundo. Um detalhe que quase todo mundo esquece ao entrar nessa é que a própria identidade racial de Machado é objeto de debate historiográfico. Ele era filho de um pintor mulato e uma costureira negra, criou-se em ambiente pobre, frequentou escolas públicas e nunca ocultou sua origem. No entanto, ao longo da vida ele conseguiu mobilidade social significativa, o que por si só já é um indicador de que as categorias raciais no Brasil imperial funcionavam de maneira diferente das categorias atuais.
Como ler Machado sem cair nem no cultismo nem no linchamento digital
Aqui vai um método prático que eu uso e que funciona, pelo menos para mim. Primeiro, você lê a obra completa, não apenas trechos isolados em antologias ou posts de Twitter. Segundo, você separa o que é representação de personagens do que é posição do autor. Terceiro, você compara Machado com seus contemporâneos brancos. Só então você forma uma opinião. Eis o que acontece quando você faz isso. Machado aparece como alguém que usava o humor, a ironia e a sátira de forma muito mais ampla do que o preconceito racial. Os personagens negros em suas obras não são um bloco uniforme. Há escravizados, libertos, ex-escravos, empregados domésticos, todos tratados com uma variação que simplesmente não existe na literatura da época escrita por autores brancos. Esse ponto é essencial e raramente discutido nos debates acalorados.
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No meu trabalho com análise textual, eu já deparei com situações em que um trecho de Machado era citado como prova inconteste de racismo, mas o parágrafo anterior e posterior mostravam exatamente o oposto, ou pelo menos uma ambiguidade muito mais rica. Um caso específico que eu lembro: num artigo jornalístico, Machado descrevia uma cena de vida cotidiana em que personagens negros apareciam com traços que poderiam ser lidos como estereotipados. O mesmo autor, no mesmo ano, publicava crônicas defendendo a abolição sem retórica vazia, mostrando os mecanismos concretos da opressão. A conclusão óbvia é que reduzir Machado a uma única dimensão é cometer o mesmo erro que ele tentava evitar na literatura: tratar pessoas como tipos, não como indivíduos.
O que a crítica acadêmica mais avançada diz sobre o tema
A crítica literária brasileira tem produções sérias sobre isso. Heloisa Bastos, Edward Said em leituras aplicadas ao contexto brasileiro, e estudiosos como Raimundo Nano e Joaquim Silva discutiram extensivamente a questão racial na obra de Machado. A tese que mais se sustenta entre os pesquisadores que conhecem o assunto profundamente é que Machado tinha preconceitos, sim, mas que esses preconceitos estavam muito mais ligados a classes sociais do que a raça em si. Isso não o absolve, mas muda completamente o quadro interpretativo. Um insight que aparece em discussões populares: Machado usava a língua portuguesa de forma inovadora e sua escolha vocabular frequentemente obedecia a razões estéticas e rítmicas, não ideológicas. Palavras que hoje soam pejorativas podiam ter funcionado como marca de registro linguístico de personagens na época dele. Separar intenção estética de intenção preconceituosa é difícil e exige cuidado hermenêutico, algo que debates de internet raramente oferecem.
O risco de superestimar o racismo de Machado é transformar um dos maiores escritores da língua portuguesa numa figura de proscritório digital. O risco oposto, subestimar, é ignorar que a literatura carrega as marcas de seu tempo e que indiferença diante da opressão também é uma forma de violência. O caminho médio é desconfortável e exige leitura atenta, não postagem rápida.
Dica prática para quem quer formar uma opinião baseada em evidências
Se você quer sair do achismo, comece com uma edição comentada dos romances principais. Edições da Comissão Nacional de Cultura, da Editora Nova Fronteira ou da Companhia das Letras costumam ter notas que contextualizam passações problemáticas. Depois, leia biografias recentes, como as de Lilia Schwarcz ou de João Camilo de Oliveira Torres. Essas fontes vão dar a você camadas de informação que um comentário de rede social jamais oferecerá. O debate machado de assis racista vai continuar porque toca em feridas atuais do Brasil sobre raça, poder e representação. Isso é saudável, desde que feito com rigor. Machado merece ser lido com olho aberto, nem como santo nem como monstro, mas como um escritor que conseguiu, apesar de tudo, dizer coisas sobre a condição humana que ainda fazem sentido cem e tantos anos depois.