O que ler de Thomas More e por onde começar
Thomas More escreveu pouca coisa se comparado a autores modernos, mas o que deixou tem um peso enorme na literatura política e filosófica. A maioria das pessoas conhece só Utopia, mas o resto da obra dá uma visão muito mais completa do homem. Se você vai montar uma biblioteca ou fazer pesquisa acadêmica, recomenda-se olhar além do mito.Os principais livros de thomas more
O catálogo é pequeno, mas cada título tem particularidades editoriais que valem a pena saber antes de comprar ou baixar.Utopia (1516) – A obra-prima. Escrita em latim, dividida em duas partes. A primeira é uma crítica velada às estruturas sociais da Inglaterra de Henrique VIII; a segunda descreve a sociedade imaginária da ilha de Utopia. As traduções para o português variam muito em qualidade. A edição da Nova Fronteira (tradução de José Geraldo Vieira) é das mais acessíveis, mas a versão da UnB com notação crítica é mais indicada para quem precisa de precisão filológica.
A História do Rei Ricardo III (1513/1520s) – Mais um texto em latim que serviu de fonte para a peça de Shakespeare. More descreve Ricardo como um tirano corrupto, mas historiadores modernos já apontaram viés nessa narração. Vale ler com a consciência de que é propaganda política disfarçada de crônica. O Diálogo do Conforto contra a Tribulação (1534) – Escrito na Torre de Londres poucos meses antes da execução. É uma reflexão estoico-cristã sobre como manter a integridade diante da perseguição. Menos conhecido que Utopia, mas talvez o mais honesto dos livros dele.
Resposta ao Luterano (Responsio ad Lutherum, 1523) – Uma refutação contundente das ideias de Martinho Lutero. More argumenta com erudição, citando padres da Igreja e concílios. O texto é longo e exigente, mas mostra um More teólogo que vai muito além do caricato intelectual que a cultura pop costuma apresentar. Uma Diálogo sobre as Heresias (1529) – Mais uma obra de polêmica religiosa. Lessa e direto, sem rodeios. Útil para entender o clima intelectual da Inglaterra dos anos 1520.
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Como escolher a edição certa
Eu já perdi tempo comprando edições de Utopia que pareciam boas no catálogo e eram péssimas na prática. O problema principal são as notas de rodapé ausentes ou superficiais. Quando você lê uma passagem sobre a organização política utópica sem saber que certa descrição faz alusão a costumes venezianos da época, perde metade do sentido. Recomendo sempre versões com aparato crítico, mesmo que o preço seja maior. A diferença entre uma tradução sem notas e uma com notas é abissal. Um caso específico: comprei uma edição mais barata de Utopia há alguns anos e descobri que o tradutor havia simplificado termos latinos cruciais, como "nullius possessionis" (sem propriedade privada), virando algo genérico demais. Perdi duas horas tentando entender trechos que faziam todo o sentido na versão crítica. O workaround foi comparar o trecho problemático com a edição da UnB e anotar as divergências. Se você trabalha com texto acadêmico, essa comparação manual quase sempre vale o esforço.Onde encontrar os livros
Alguns títulos estão em domínio público no Brasil, o que facilita bastante a busca por versões gratuitas.O Projeto Gutenberg Brasil disponibiliza Utopia em tradução portuguesa. É uma versão funcional para leitura informal, mas não substitui uma edição crítica para estudo aprofundado. O Domínio Público do governo federal (www.dominiopublico.gov.br) também hospeda de edições antigas. Lá é possível achar fac-símiles em latim, que são úteis se você tiver base para ler o original.
Para edições comentadas e traduções recentes, livrarias físicas e online como Amazon, Mercado Livre e Kindle oferecem as versões da Nova Fronteira, da UnB e da Edusp. O custo varia entre R$ 20 e R$ 60 dependendo da capa e da editora.