Livro De Charles Baudelaire - Livro: O spleen de Paris, de Charles Baudelaire - Novo - Pouso Cultural
Livro: O spleen de Paris, de Charles Baudelaire - Novo - Pouso Cultural

Ler Baudelaire não é fácil, e a maior parte das edições piora a experiência

Achei um livro de charles baudelaire na gaveta da livraria há anos, encadernação capenga, margens apertadas, tradução que transformava o francês em um português sem jeito. Dei uma lida e abandonei. Voltei meses depois com outra edição, de preferência da Editora 34 ou da Martin Claret, e aí a coisa fez sentido. A diferença entre uma boa e uma má edição de As Flores do Mal é brutal. Não é questão de gosto, é questão de ter traduções que respeitam os versos. O problema principal com Baudelaire é que ele escrevia em francês do século XIX com um vocabulário preciso, e muita tradução moderna simplifica demais. Versos como "Que a beleza tome o diabo sob a sua proteção" ganham outro sabor quando traduzidos corretamente. O leitor brasileiro médio nem percebe que está lendo uma versão diluída.

Como escolher o livro de charles baudelaire certo

Procure edições com tradução direta do francês, não de versões em espanhol ou inglês. A Editora 34 tem uma tradução do Carlos Drummond de Andrade que é sólida, ainda que antiga. A Martins Fontes também publicou versões respeitáveis. Evite edições de bolso sem nota tradutória ou comentários. Essas edições baratas costumam cortar poemas inteiros ou misturar títulos diferentes do original. Uma coisa que ninguém avisa: As Flores do Mal tem várias versões publicadas ao longo da vida de Baudelaire. Ele refez o livro múltiplas vezes. A versão de 1857 é a mais conhecida, mas a de 1861 já tinha alterações significativas. Se você quer ler o livro como ele ficou no final, procure a edição revista. A diferença está na disposição dos poemas e em alguns trechos reescritos.

Eu tive um problema específico com uma edição da Companhia das Letras que vinha com notas de rodapé extremamente resumidas. Os comentários eram tão curtos que não ajudavam em nada. A solução foi comprar uma versão crítica da Universidade de Paris, traduzida por Henri Paris, que traz notas extensas sobre cada poema. Não é leitura leve, mas é a única forma de entender o que Baudelaire estava fazendo de verdade. Levar cerca de duas horas extras de leitura, mas compensa.

A estrutura do livro e por que muita gente desiste na primeira leitura

As Flores do Mal não é um livro linear. É dividido em seções temáticas: "Pensamento Abstrato", "Quadros Parisienses", "Vinhos e Rosas", entre outras. A seção "Quadros Parisienses" é onde Baudelaire mostra seu talento como observador urbano, descrevendo a cidade de Paris com uma precisão que incomoda. Ele fala de mendigos, prostitutas, idosos solitários, crianças perdidas. Nada romântico. Tudo cru. Muita gente compra o livro esperando algo romântico e se decepciona quando encontra poemas sobre decadência e morte. Baudelaire não escreveu para confortar ninguém. Ele escreveu porque via coisas que outros ignoravam. A beleza, para ele, estava justamente naquilo que a sociedade preferia não olhar.

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Um detalhe técnico que passa despercebido: Baudelaire usava o alexandrino francês, um verso de doze sílabas, mas com uma música interna que não se mantém em português. O tradutor precisa decidir entre manter a métrica ou priorizar o sentido. As melhores traduções escolhem o sentido e ajustam a métrica para que o poema funcione em português. Traduções que tentam copiar cegamente o alexandrino acabam soando artificiais.

Onde conseguir uma cópia confiável

Livrarias físicas em capitais grandes costumam ter pelo menos duas edições diferentes. Se não tiver, a Amazon e a Mercado Livre têm opções, mas cuidado com vendedores que oferecem edições piratas ou digitalizações mal feitas. O preço de uma edição boa varia entre 30 e 60 reais. Se estiver muito mais barato, desconfie. Existe também a possibilidade de ler em domínio público no site do Domínio Público do governo federal, mas os arquivos em PDF lá costumam ter problemas de formatação. Versículos quebrados no meio da linha, títulos faltando, páginas invertidas. Não recomendo como primeira experiência com Baudelaire.

Se o objetivo for estudo acadêmico, a melhor opção é a obra completa publicada pela Gallimard na coleção Plêiade, que inclui todas as variantes e rascunhos. É caro, mas é a referência definitiva. Para leitura casual, qualquer tradução respeitável do século XX serve.

O que fazer depois de terminar o livro

Baudelaire tem outros livros que valem a pena. "O Espírito do Mal" é uma coletânea menor. "As Paramesas" é diferente das Flores do Mal tanto no tom quanto na estrutura. "Pequenos Poemas em Prosa" é onde ele experiments com um formato que antecipou o modernismo. Se você gostou das Flores, comece por aí. Também existe uma correspondência enorme dele que mostra como ele pensava sobre arte, literatura e vida. As cartas são ácidas, inteligentes e frequentemente desencorajadoras. Não são leituras confortáveis, mas são honestas.

Um último aviso: não tente ler As Flores do Mal de uma vez. São quase duzentos poemas, e muitos deles exigem pausa. Leia três ou quatro por dia, releia os que marcou, anote o que não entendeu. A recompensa não é imediata, mas chega.