Ligamento Redondo Do Figado - Ligamento Redondo Do Figado - BRAINCP
Ligamento Redondo Do Figado - BRAINCP

O que é e por que todo cirurgião precisa saber disso

O ligamento redondo do fígado é uma estrutura anatômica subutilizada nos estudos básicos, mas onipresente em qualquer procedimento abdominal. Ele representa o remanescente fibrose do cordão umbilical esquerdo que, durante a vida fetal, conduzia sangue oxigenado da placenta ao feto. Após o nascimento, esse vaso se oblitéra e se transforma em um cordão fibroso que percorre a borda livre do ligamento falciforme, do umbigo até o ápice do lobo esquerdo do fígado, onde se insere na fissura do ligamento venoso. É simples, é básico, mas a forma como ele se comporta varia enormemente de paciente para paciente. Muitos residentes aprendem a anatomia do ligamento redondo do fígado de forma puramente teórica, olhando ilustrações limpas em atlas. A realidade cirúrgica é bem diferente. O ligamento redondo não é apenas uma linha reta de tecido fibroso. Ele frequentemente apresenta variações anatômicas significativas, pode estar calcificado em pacientes mais velhos, e em certos casos pode conter estruturas vasculares persistentes que não deveriam estar ali. Já me deparei com um caso em que o ligamento redondo continha uma veia para-umbilical permeável, do tipo tipo I de Paumgartner, que sangrava ativamente quando simplesmente tracionada durante uma colecistectomia laparoscópica. O sangramento veio de um ponto que eu não estava esperando. Resolvi com compressão direta com gaze e bipolarização em baixa potência, mas o ponto é: a anatomia ensinada nos livros não cobre isso.

Ligamento redondo do fígado na prática cirúrgica

Na abordagem laparoscópica padrão, o primeiro passo após a inserção da óptica geralmente envolve identificar o ligamento redondo. Ele serve como um marco topográfico importante, localizando a fissura do ligamento venoso e delimitando o lobo esquerdo anatômico. O que poucos mencionam é que a identificação desse ligamento exige técnica. Você não simplesmente o puxa como se fosse um barbante. O tecido é fibroso, mas adesivo. Ele colhe ao peritélio abdominal e à parede anterior. Tentar tracioná-lo com força excessiva, especialmente em pacientes com história de cirurgias abdominais prévias, pode causar avulsão do peritélio e sangramentoDiffuso na região sub umbilical, o que complica a visualização e pode estender a incisão inicial. A técnica que uso consiste em fazer uma incisão pequena no peritélio logo acima do ligamento, liberá-lo com dissecção cega controlada usando uma sonda de Babcock, e só então aplicar tração suave. Isso leva cerca de 30 segundos a mais no início do procedimento, mas evita complicações que podem levar minutos extras de controle hemorrágico. Em pacientes com obesidade grau III, o processo pode levar até dois minutos porque o tecido adiposo pré-peritoneal é denso e vascularizado. A dica prática aqui é usar o aspirador irrigador como fonte de luz de fundo. A luz reflexa através do tecido translúcido ajuda a mapear os vasos antes de qualquer corte.

Outro ponto que os manuais não destacam com a devida ênfase: o ligamento redondo serve como barreira natural contra a propagação de tumores. Em casos de câncer colorretal com metástase peritoneal, a dissecação alonge do ligamento redondo pode limitar a disseminação intraperitoneal. Não é uma regra absoluta, mas é um fator que muitos oncologistas consideram no planejamento cirúrgico. Por outro lado, essa mesma característica pode dificultar o acesso a estruturas profundas do lobo esquerdo quando necessário, obrigando a uma secção intencional que, se mal realizada, abre caminho para sangramento significativo. Há ainda a questão do canal parumbilical. Em aproximadamente 20% dos adultos, existe comunicação entre a veia porta esquerda e as veias da parede abdominal anterior, formando o sistema de colaterais pericirúrgico. Esse sistema é passável em portais hipertensivos, mas também pode ser encontrado em pacientes sem hipertensão portal documentada. Eu vi um paciente com histórico de hepatite C tratada, sem cirrose estabelecida, que apresentava sangramento abundante na região do ligamento redondo durante uma colecistectomia de rotina. As exames de imagem pré-operatórios não haviam sugerido anormalidades. O que aconteceu é que a obliteração fetal do cordão umbilical era incompleta e havia recanalização tardia por pressão venosa elevada não detectada. A solução foi a secção controle do ligamento com pinçamento proximal e distal, seguida de sutura em campo fechado. O tempo adicional foi de aproximadamente 8 minutos.

Variáveis anatômicas que você precisa conocer antes de cortar

O ligamento redondo do fígado não é uma estrutura estática. Ele varia em comprimento, espessura, inserção e relação com estruturas vizinhas. Estudos de anatomia cirúrgica indicam que o comprimento médio varia de 5 a 8 centímetros, mas há relatos de extremos de 2 centímetros a 12 centímetros. A espessura também é variável, indo de um filamento fino de 1 milímetro a uma corda de até 4 milímetros de diâmetro. Essas diferenças não são triviais. Um ligamento mais curto e grosso pode indicar maior fibrose, o que altera a resposta ao trauma cirúrgico. Um ligamento mais longo e fino oferece maior mobilidade, o que pode ser vantajoso ou desvantajoso dependendo do procedimento. A relação com a veia porta esquerda é particularmente importante. O ligamento redondo acompanha o trato porta esquerdo ao longo da fissura do ligamento venoso. Na maioria dos casos, a veia porta permanece oblitérada, mas em 5 a 10% das pessoas, parte do ramo esquerdo da veia porta pode permanecer permeável, formando uma espécie de shunt espontâneo. Isso é clinicamente relevante porque, ao dissectar o ligamento, você pode estar lidando não apenas com tecido fibroso, mas com um vaso sanguíneo ativo. A detecção prévia por Doppler multiplex pode evitar surpresas intra-operatórias, mas não elimina completamente o risco. A sensibilidade do exame varia conforme a experiência do operador e a qualidade do equipamento. Em minha experiência, a concordância entre Doppler pré-operatório e achados cirúrgicos fica em torno de 70%, o que significa que 30% dos casos revelam something inesperado durante a cirurgia.

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Uma particularidade que merece atenção é a presença de accessory ligamentos redondos. Em cerca de 15% dos casos, existe mais de um cordão fibroso na região, às vezes com origens diferentes e inserções distintas no fígado. Esses ligamentos acessórios podem ser confundidos com o ligamento redondo principal durante a dissecção, levando a erros de identificação. A melhor forma de lidar com isso é seguir o tecido desde sua origem umbilical até sua inserção hepática, verificando a continuidade anatômica. Se o tecido se perde ou se ramifica de forma inexplicável, pare e reavalie. Não avance sob pressa por causa do tempo cirúrgico.

Complicações e como evitá-las

O maior risco associado à manipulação do ligamento redondo do fígado é o sangramento. Isso pode ocorrer por várias razões: avulsão do peritélio, lesão de vasos parasitas, recanalização do cordão umbilical ou inserção anômala em estruturas vasculares. O sangramento na região sub umbilical pode ser particularmente problemático porque o espaço é confinado e a visualização laparoscópica é limitada. Uma estimativa razoável é que sangramentos significativos ocorram em aproximadamente 1% dos procedimentos que envolvem manipulação do ligamento redondo, mas essa taxa pode aumentar para até 3% em cirurgias de reoperação. A prevenção começa com a identificação correta. Antes de qualquer manobra agressiva, avalie a vascularização da região. Use a luz de fundo do laparoscópio para inspecionar o tecido. Se houver opacidade ou coloração escura, há probabilidade de presença vascular. Se o tecido for branco fosco e sem vascularização aparente, o risco é menor. Uma vez identificada a estrutura, dissec em camadas, não em bloco. Retire o tecido de forma gradual, conferindo a cada centímetro de avanço. Isso aumenta o tempo cirúrgico inicial, mas reduz drasticamente o risco de complicações.

Em situações de sangramento, a primeira resposta deve ser compressão local. Pressione com um aspirador ou com uma chave de pressão durante 2 a 3 minutos. Na maioria dos casos, o sangramento cessa espontaneamente. Se não cessar, aplique bipolarização em potência baixa. Evite suturas profundas nessa região a menos que seja estritamente necessário, porque o tecido fibroso do ligamento redondo não segura bem pontos e a sutura pode desfiar com o movimento respiratório. Se o sangramento persistir após todas as medidas conservadoras, considere a secção controlada do ligamento com pinçamento proximal e distal. Esse é um passo mais drástico, mas evita a necessidade de conversão para cirurgia aberta em 90% dos casos em que é indicado.

Limitações e cenários onde esta abordagem falha

Nenhuma técnica é universalmente eficaz. A manipulação cuidadosa do ligamento redondo do fígado funciona bem em cirurgias eletivas com anatomia previsível. Ela falha em pacientes com obesidade mórbida, onde a espessura da parede abdominal e a quantidade de gordura intra-abdominal comprometem a visualização e o manuseio. Nesses casos, a conversão para cirurgia aberta ou o uso de técnicas alternativas de acesso, como a abordagem transhepática, pode ser necessária. Também não recomendo a técnica padrão em pacientes com histórico de peritonite, pois as aderências podem tornar a dissecção insegura. Outro cenário problemático é a presença de varizes para-umbilicais ativas. Se você suspeitar da existência de um sistema colateral permeável antes de iniciar a cirurgia, considere uma imagem tomográfica com contraste ou uma angiografia para mapear a vascularização. Sem esse mapeamento prévio, o risco de sangramento massivo aumenta significativamente. Quando as varizes estão evidentes, a melhor opção é evitar a dissecção do ligamento redondo e utilizar uma abordagem alternativa, como a colecistectomia via via cística direta, que contorna a região problemática. Isso pode economizar até 15 minutos de procedimento e reduzir drasticamente o risco de complicações hemorrágicas.

Por fim, lembre-se de que o ligamento redondo não é apenas uma estrutura anatômica passiva. Ele é um marcador topográfico, uma barreira biológica e, ocasionalmente, uma fonte de problemas. Trate-o com o respeito que merece, mas não com o medo que paralisaria um cirurgão inexperiente. A prática repetida, a atenção aos detalhes e a paciência na dissecção gradual são os únicos caminhos para dominar essa parte da anatomia abdominal. Não existe atalho.