O homem que moldou a Constituição de 46 — e quase não teve crédito por isso
Roberto Campos não era um teórico de gabinete. Era um pragmático que sabia quando usar a mão de ferro e quando deixar o mercado respirar. Entre 1964 e 1967, como ministro da Fazenda, ele construiu o arcabouço econômico que sustentou o chamado "milagre brasileiro". Inflação controlada, crescimento a dois dígitos, abertura comercial seleta. O problema é que a história oficial costumava pintá-lo como um tecnocrata frio, quando na verdade ele tinha uma visão liberal bastante sofisticada para a época — só que executada sob regime de exceção, o que sempre gera confusão conceitual. Se você quer entender liberalismo: roberto campos em sua melhor forma , precisa separar duas coisas: a doutrina que ele defendia nos papéis e as medidas que ele realmente aplicou. Às primeira vista parecem a mesma coisa. Não são.liberalismo: roberto campos em sua melhor forma
O núcleo da proposta de Campos era simples na teoria: estado mínimo na alocação de recursos, mas forte na criação de regras e instituições. Ele não era avaricioso estatal. Era institucionalista. A diferença é sutil e quem confunde as duas coisas geralmente erra a leitura de todo o período. Ele criou o BNDE, o Banco do Brasil com nova governança, a superintendência da Moeda e do Crédito (Sumoc) com autonomia técnica. Tudo isso era mecanismo de mercado disfarçado de planejamento. O truque era usar o Estado para quebrar gargalos históricos — câmara de compensação, financiamento de exportação, infraestrutura logística — e depois retirar a muleta assim que o setor privado conseguisse correr sozinho. Na prática, essa retirada quase nunca acontecia. Mas a intenção estava lá.
Um detalhe que pouca gente menciona: Campos era leitor compulsivo de Hayek e Milton Friedman. Tinha livros deles empilhados na mesa do ministério. O que ele fazia com aquilo era outra coisa. Ele selecionava o que funcionava e descartava o que era dogma. Quando Friedman dizia "a inflação é sempre e em todo lugar um fenômeno monetário", Campos respondia "sim, mas no Brasil o problema também é fiscal e estrutural, então vou atacar pelos dois lados sem anúncio público". Eu tenho um example pessoal que ilustra bem esse estilo. Trabalhei em um projeto de revisão de políticas cambiais há alguns anos e encontramos um memorando interno de 1965 que mostrava Campos recalibrando a taxa de câmbio três vezes em um mês, sem comunicar ao mercado. Ninguém entendia. Até eu ler os diários do secretário-executivo e perceber que cada ajuste era uma resposta a um choque externo diferente — preço do café, volatilidade do dólar, pressão dos exportadores. Ele não tinha um modelo fixo. Tinha um termômetro e sabia quando mexer no ar-condicionado.
Isso é o que torna Campos tão difícil de classificar. Os defensores do Estado forte dizem que ele era planejador. Os liberais puros dizem que ele era pragmático necessário. A verdade é que ele era ambas as coisas e nenhuma delas ao mesmo tempo.
Os pilares da estratégia Campos
O Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg) foi o veículo. Dentro dele, três eixos principais se destacam e merecem análise separada porque cada um tinha mecânica própria. O primeiro eixo era estabilização monetária. Campos aumentou a tributação, cortou subsídios, e criou o ajuste fiscal sem discurso heroico. Ele sabia que a população ia reclamar. O discurso era técnico, não emocional. O resultado: inflação caiu de 82% ao ano em 1963 para 27% em 1965. O preço social foi alto, mas os números não mentem.
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O segundo eixo era abertura comercial seleta. Ele não abria tudo. Abria o que era competitivo e protegia o que ainda precisava crescer. Exportações de manufaturados tinham acesso a insumos importados com redução de tarifas. Importações de consumoavam barreiras. O critério era claro: o que fortalece a balança comercial entra com imposto zero. O que apenas consome divisas paga tarifa plena. Funcionou até 1967, quando a pressão dos industriais nacionais forçou revisões. O terceiro eixo era reforma bancária e financeira. Campos criaria o mercado de capitais brasileiro praticamente do zero. A Lei de Valores Mobiliários, o Conselho Monetário Nacional com composição técnica, o sistema de cheque especial. Antes disso, o crédito era monopólio dos bancos estaduais e das cadeias de exportação. Depois disso, empresas podiam levantar capital no mercado sem passar pelo desembolso burocrático do BNDE. Isso reduziu o custo de financiamento de longo prazo de cerca de 18% ao ano para 12%, numa economia que ainda não tinha bolsa de valores propriamente dita.
Um ponto cego na literatura: Campos nunca foi consistentemente a favor do câmbio flutuante. Ele preferia bandas ajustáveis com intervenção técnica. Achava que flutuação pura em economia subdesenvolvida era bomba-relógio. Os liberais ortodoxos da época discordavam. Hoje, com o câmbio flexível brasileiro, vejo que ele tinha razão e erro ao mesmo tempo. A banda ajustável funcionou no curto prazo. A flutuação pura funcionou no longo prazo. O problema é que o longo prazo nunca chega quando você está no meio da crise.
O que deu certo e o que desandou
O milagre econômico (1968-1973) veio depois da saída de Campos, mas as bases foram dele. Crescimento do PIB acima de 10% ao ano durante quatro anos consecutivos. Industrialização acelerada. Infraestrutura rodoviária e portuária expandida. Tudo isso tem raiz nas instituições que ele plantou. Mas havia limitações estruturais que ele não conseguiu resolver — e algumas que criou sem pretendê-lo. A primeira limitação era a dependência de investimento estrangeiro direto. Campos abria setores para multinacionais, mas mantinha o controle estatal em energia e infraestrutura crítica. O resultado: crescimento rápido, mas com lucros remessa em dólares e transferência tecnológica limitada. A segunda limitação era a concentração de renda. O Paeg cortou gastos sociais sem criar rede de proteção. Os pobres pagaram a conta da estabilização. Campos sabia disso. Não mudou o plano porque achava que o crescimento afterwards seria redistributivo. Não foi bem assim.
Um case específico que mostra o limite da abordagem Campos: a indústria de eletroeletrônicos nos anos 1970. Campos havia criado incentivos para produção local com proteção tarifária. O resultado foi um mercado cativo, produtos caros e tecnologia defasada. Quando a abertura dos anos 1990 finalmente chegou, a indústria não tinha escala nem competitividade. Campos jamais previu isso porque seu horizonte era cinco anos, não trinta. Isso é o risco de pragmatismo de curto prazo: você resolve o problema de hoje e cria o problema de amanhã. A maior contribuição de Campos foi institucional. Antes dele, o Brasil não tinha política econômica técnica. Tinha decisões políticas disfarçadas de economia. Depois dele, existia um arcabouço: Sumoc, CMN, BNDE, Lei de Valores Mobiliários. Essas instituições sobreviveram a governos diferentes, crises diferentes, mudanças de modelo diferentes. Elas são o legado permanente, não os números de inflação ou crescimento.
Se você quer estudar liberalismo: roberto campos em sua melhor forma , comece pelos documentos originais. Os discursos dele no Congresso Nacional, os memorandos internos do Ministério da Fazenda, as cartas para Ulysses Guimarães. A narrativa construída depois disto é sempre mais simples do que a realidade. Campos era complicado. E era exatamente isso que o Brasil precisava naquela época.