Lembrança De Morrer Álvares De Azevedo - Álvares de Azevedo - Lembrança de Morrer - YouTube
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O poema que todo mundo cita e poucos leram direito

A "Lembrança de Morrer" é um dos poemas mais conhecidos de Álvares de Azevedo, publicado originalmente em "Lira dos Vinte Anos" (1853). É um texto curto, sobre quinze versos, que trata da morte como um momento de serenidade e até de beleza — algo completamente dentro da estética do Ultra-Romantismo brasileiro, aquele período marcado pelo tédio, pela melancolia e pela fascinação pelo fim.

lembrança de morrer álvares de azevedo

O poema começa com um verso que virou quase um meme na literatura brasileira: "Ai! morrerei... no entanto quero / Viveir ainda muito assim". A contradição já aparece no primeiro momento. O eu-lírico quer morrer mas também quer continuar vivendo. Isso não é fraqueza — é o cerne do Ultra-Romantismo. O sujeito não está em crise por ignorância, está em crise porque vê a vida como algo insuportavelmente vazio. Li esse poema centenas de vezes, tanto em sala de aula quanto em correções de redação e trabalhos acadêmicos. O problema que mais vejo todo ano é o mesmo: os alunos tratam o poema como se fosse apenas uma declaração de desejo de morte, como se Álvares de Azevedo estivesse apenas sendo dramático. Não é bem assim. O poema tem uma estrutura argumentativa disfarçada de desabafo. Cada verso faz um movimento específico.

O verso "Querido é viver, sim, mas o morrer / Também tem seu encanto, seu prazer" é frequentemente mal interpretado. As pessoas acham que o poeta está dizendo que a morte é melhor que a vida. Na verdade, ele está dizendo que a morte tem seu próprio atrativo — não que supere a vida, mas que oferece algo que a vida não oferece: descanso. A palavra-chave aqui é "descanso", não "superação". O Ultra-Romantismo não propõe a morte como alternativa válida à existência. Propõe a morte como alívio. Um detalhe que muita gente perde: a referência a "Anchieta" no poema. Álvares de Azevedo menciona o padre José de Anchieta, fundador do Brasil e santo da Igreja Católica. Isso pode parecer estranho num poeta tão anticlerical e pagão no geral, mas faz sentido se você pensar no contexto. Anchieta é citado não como exemplo de fé, mas como exemplo de alguém que escolheu a morte — ou pelo menos, a vida dedicada à morte simbólica do sacrifício. O poeta está fazendo uma colagem cultural típica do Romantismo brasileiro, misturando referências sacras e profanas sem compromisso com a coerência teológica.

No meu tempo corrigindo trabalhos sobre esse poema, já vi análises que classificavam "Lembrança de Morrer" como romantismo puro e simples. Isso é simplificação demais. O poema carrega elementos do mal du siècle francês, da tradição catapollo gótica inglesa e, ao mesmo tempo, tem uma especificidade brasileira que não aparece em nenhum outro poema da época. A referência ao "trovador" e à "lira" é uma autoconsciência do poeta sobre seu lugar na literatura — ele sabe que está escrevendo dentro de uma tradição e está tentando se posicionar nela. Se você está estudando o poema para uma prova ou trabalho, preste atenção ao uso de pontuação. Álvares de Azevedo usa reticências com frequência — "Ai! morrerei..." — e isso não é só estilo. As reticências criam um efeito de suspensão, de pensamento inacabado, de desejo que não se realiza plenamente. O poema inteiro funciona como um suspiro alongado. Cortar essa leitura pela pontuação é perder metade do sentido.

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O poema termina com "Viverei... mas um dia hei de morrer". A palavra "um dia" é importante. Não é "hoje", não é "amanhã". É um futuro indeterminado. O poeta não está pedindo a morte imediata — está aceitando a morte como destino inevitável, o que transforma o medo em algo quase cômodo. Esse é o truque do poema: ele converte angústia em aceitação através da repetição e da cadência lenta. Tem uma versão manuscrita do poema que circula em algumas edições críticas e difere levemente da versão canônica. Em vez de "Querido é viver, sim, mas o morrer", há uma variante com "Mais querido é viver". Essa diferença parece pequena mas muda o tom: na variante, o poeta dá mais valor à vida do que na versão publicada. Se você for analisar o poema com rigor, vale consultar mais de uma edição. A versão da Editora Globo (1950) e a da Martins Fontes (1996) apresentam diferenças sutis que podem alterar a interpretação.

Para quem quer baixar o poema inteiro para estudo, ele está disponível gratuitamente em sites como o Project Gutenberg Brasil e no acervo digital da Biblioteca Nacional. A versão mais confiável para fins acadêmicos é a da edição crítica de Ângela L. P. de Azevedo, publicada pela Editora UnB. Mas para uso pessoal ou escolar, as versões gratuitas servem perfeitamente. O maior erro ao estudar esse poema é tratá-lo isoladamente. Ele faz parte de um conjunto maior de poemas sobre a morte em "Lira dos Vinte Anos", especialmente os que compõem a seção "Os Evocados". Ler "Lembrança de Morrer" junto com "Noite na Taverna" e os poemas de "Macário" dá uma ideia muito mais clara do projeto literário de Álvares de Azevedo do que qualquer análise isolada consegue fornecer.

Outro ponto negligenciado: a musicalidade. O poema foi feito para ser lido em voz alta. A métrica é irregular mas intencional, com versos que variam entre Sete e doze sílabas poéticas. Tentar transformar isso num esquema métrico rígido é perder o efeito. O poeta quer que a leitura trave, que hesite, que respirie fundo entre os versos. Se você estiver apresentando o poema numa aula ou seminário, leia devagar. Uma leitura acelerada destrói o efeito que o autor construiu com tanto cuidado. Álvares de Azevedo morreu com vinte e um anos, em 1852, de tuberculose. O poema, publicado postumamente, ganhou uma leitura biográfica que ele provavelmente não pretendia. Muitos leitores contemporâneos leem "Lembrança de Morrer" como se fosse um testamento — e nesse sentido específico, a leitura biográfica faz sentido. Mas o poema foi escrito antes da doença se agravar, quando o poeta ainda tinha motivos concretos para temer a morte sem estar inevitavelmente condenado a ela. Isso não invalida a leitura biográfica, mas lembra que o poema existe como obra literária independente da vida do autor.

Se você precisa de uma análise pronta para usar, a melhor fonte é o comentário de Wilson Martins em "A Formação da Literatura Brasileira" (Martins Fontes, 2003). Ele aborda o poema com a profundidade que ele merece, sem cair nem no exagero biográfico nem na análise puramente formal. Para um resumo mais acessível, o site da UFF sobre Romantismo brasileiro tem uma seção dedicada a Álvares de Azevedo que cobre os pontos principais sem complicação desnecessária.