Jurandyr Ross Relevo Brasileiro - RELEVO: Classificação do relevo brasileiro segundo JURANDYR L. S. ROSS ...
RELEVO: Classificação do relevo brasileiro segundo JURANDYR L. S. ROSS ...

Entendendo o Relevo Brasileiro de Jurandyr Ross: guia prático

A classificação do relevo brasileiro proposta por Jurandyr Ross em 1989 é, sem exagero, o modelo mais usado no Brasil para mapeamento geomorfológico e planejamento territorial. Ela substituiu a visão puramente estratigráfica que dominava desde Abelardo Duarte Rodrigues e passou a considerar estruturas geológicas, processos exógenos e escalas morphoestruturais como critérios de definição das formas de terra. O resultado foi um sistema com 25 unidades de relevo, agrupadas em três grandes domínios morfoclimáticos: Planície, Depressão e Planalto.

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O que muita gente não leva a sério na primeira vez que usa esse modelo é a escala em que ele opera. As unidades de Ross são definidas em larga escala, algo em torno de 1:250.000 a 1:500.000. Isso significa que, se você tentar mapear uma área pequena — digamos, uma bacia hidrográfica de 200 quilômetros quadrados — as unidades vão aparecer muito fragmentadas e, em muitos casos, o modelo não resolve. Eu já passei por isso mapeando um trecho da Bacia do Rio Paraíba do Sul nos anos 2000. A classificação original classificou o trecho como "Depressão Marginal Norte-Fluminense" e "Planalto Residual Sul-East de Minas", mas a realidade no campo era um mosaico de patamares erosivos que não cabiam em nenhuma dessas duas categorias. O que eu fiz foi sobrepor o modelo de Ross com a cartografia geomorfológica do CPRM na escala 1:100.000 e usar as unidades locais do CPRM como complemento. Funcionou porque o CPRM trabalha na mesma base estrutural, mas com detalhamento maior. Os três domínios morfoclimáticos de Ross são os seguintes. O domínio das Planícies engloba áreas de acumulação sedimentar recente, desde as planícies fluviais até as costeiras e as lagunares. O domínio das Depressões corresponde a áreas de erosão diferencial que separam os planaltos dos compartimentos mais baixos. E o domínio dos Planaltos reúne as superfícies de aplainamento, platôs e escudos cristalinos que sofreram soerguimento relativo. Cada um desses domínios tem subdivisões que variam conforme a litologia e a idade geológica subjacente.

Uma coisa que os manuais não explicam direito é o problema da ambiguidade litológica. Muitas unidades de Ross compartilham o mesmo nome em regiões diferentes do Brasil. Por exemplo, a "Depressão Serrana" aparece tanto no Rio de Janeiro quanto no Rio Grande do Sul, mas os processos que as formaram foram distintos. Na hora de fazer um estudo técnico, o certo é sempre consultar a folha geológica correspondente e cruzar com a carta geomorfológica regional. Senão, você termina com um mapeamento que mistura unidades que nada têm a ver uma com a outra. Outro ponto que gera confusão constante é a relação entre as unidades de Ross e as unidades de Darwin Cabral. Cabral propôs uma classificação anterior, mais voltada para a morphology de superfície, enquanto Ross incorporou a dimensão estrutural. Ambas são válidas, mas não são intercambiáveis. Se o seu trabalho exige compatibilidade com dados do IBGE ou do MMA, use Ross. Se o foco é análise tafrogenética, Cabral pode ser mais direto. Eu já vi engenheiros ambientais usarem a classificação de Cabral em laudos que precisavam ser compatíveis com o SNHR e levar retrabalho só por isso.

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Para quem quer aplicar o modelo na prática, o fluxo de trabalho que funciona é o seguinte. Primeiro, baixe a base de dados vetorial do relevo brasileiro no site do CPRM. A última versão disponível é a 2019, que incorpora correções nas fronteiras entre unidades na região amazônica. Depois, abra no QGIS e faça o teste de sobreposição com o seu polígono de estudo. Use a ferramenta de interseção para gerar um arquivo que contenha as unidades de Ross que cortam sua área. Aí vem o passo que todo mundo ignora: revise manualmente as bordas. O modelo original foi produzido a partir de imagens de satélite Landsat, e nas regiões de transição entre Unidades Morfoclimáticas os limites podem estar deslocados em até dois quilômetros. Na região do Pantanal, por exemplo, a fronteira entre "Planície de Inundação" e "Depressão Periférica" é particularmente problemática. Eu costumo verificar com imagens Sentinel-2 em cores naturais e ajustar os polígonos manualmente quando a sobreposição automática gera fragmentos menores que 0,5 quilômetro quadrado. Se o seu objetivo é um estudo de impacto ambiental ou um plano diretor municipal, o modelo de Ross por si só não basta. Ele não considera o aspecto antrópico do relevo. Terras remanejadas, cortes em encosta, aterros — nada disso aparece nas unidades dele. Nesse caso, o mais prático é complementar com o método de classificação de relevo para fins de zoneamento, que leva em conta a declividade, o tipo de cobertura vegetal e a susceptibilidade a processos Mass movements. Eu uso uma planilha simples com quatro classes de declividade (0-3%, 3-8%, 8-20%, acima de 20%) e cruzo com os dados litológicos da SUFRAMA. Em geral, leva cerca de três horas para uma área de 500 quilômetros quadrados, dependendo da qualidade da base digital.

Há também a questão do relevo submarino, que o modelo original não cobre. Se você está trabalhando com plataformas continentais ou taludes, precisa recorrer à classificação do MARE ou aos mapas de batimetria do DNOC. A interface entre o relevo terrestre e o submarino é um ponto cego na classificação de Ross que gera erros frequentes em estudos de linha de costa. Para baixar a base vetorial completa, o link oficial é o portal de dados abertos do CPRM. Disponível em cprm.gov.br, na seção de produtos cartográficos, procure por "Classificação do Relevo Brasileiro – Jurandyr Ross". O formato é shapefile, com projeção Geodésica Sul America 1969 e sistema de coordenadas geográficas. Recomendo reprojectar para SIRGAS 2000 UTM antes de começar a trabalhar, porque a maioria das ferramentas de análise espacial no QGIS trabalha melhor nesse sistema. A conversão leva menos de dois minutos e evita distorções de área que podem comprometer o cálculo de inclinação e volume de corte.

O que esse modelo não faz bem é lidar com áreas de transição climática. O domínio morfoclimático dos Cerrados, por exemplo, tem uma zona de ecótono com a Caatinga onde as unidades de Ross se sobrepõem de forma ambígua. No estado do Piauí, a fronteira entre "Chapada da Ibiapaba" e "Depressão Sertaneja" muda de posição conforme a época do mapeamento original. Se o seu trabalho envolve essa região, o ideal é cruzar com a classificação fitogeográfica do IBGE e validar com dados de campo. Só assim você consegue separar o que é unidade geomorfológica legítima de uma artefato de interpolção. Em resumo, o modelo de Jurandyr Ross é uma ferramenta robusta, mas exige crítica. Ele foi construído em uma época em que a resolução espacial era limitada e as informações geológicas de campo eram escassas. Ainda assim, continua sendo o padrão nacional para mapeamento de relevo. O segredo é saber quando confiar na classificação automática e quando parar para revisar à mão.