O que sabemos sobre a relação de Heidegger com o nazismo
Martin Heidegger se filiou ao Partido Nazista em maio de 1933 e assumiu a reitoria da Universidade de Freiburg no mesmo ano. Não foi uma adesão tardia ou decorrente de pressão externa. Ele escreveu cartas aos colegas denunciando "elementos indesejáveis" no corpo docente e deu o discurso de posse mais citado na história da filosofia alemã, onde usou termos como "Führer" e "povo" de maneira praticamente incondicional. A questão que ainda gera discussão acalorada entre especialistas é se isso tem a ver com a filosofia dele ou se foi apenas um erro biográfico isolado. O arquivo dos manuscritos de Besinnung, descobertos em 2014 e publicados em 2018 pelaeditora Vittorio Klostermann, mudou muito o debate. Nessas notas, escritas entre 1938 e 1940, Heidegger critica abertamente o regime nazista por ser materialista e racista. Ao mesmo tempo, condena os judeus por "não terem raiz" e expressa simpatia pela "missão histórica" do povo alemão. Essa contradição não resolve nada. Apenas mostra que a posição dele era mais confusa do que os documentos públicos sugeriam.
hermenêutica e responsabilidade: reflexões sobre heidegger y el nazismo
Quando se estuda esse período, o primeiro erro que vejo gente cometer é tratar os textos públicos de 1933-1934 como se fossem a última palavra de Heidegger. Eles não são. O reitorado durou pouco mais de um ano. Ele pediu demissão em abril de 1934, alegando problemas de saúde. Os motivos reais provavelmente incluíram atritos com o Ministério da Educação nazista, que não gostava da forma como ele nomeava professores. Mas sair do cargo não significa que ele se desvinculou do partido. Ele permaneceu membro até 1945. O segundo erro, mais sutil, é ler a Filosofia como se o projeto das Contribuições à Filosofia e da obra publicada posterior fossem uma ruptura total com o passado. Muitos intérpretes, especialmente da escola de Frankfurt e de certos heideggerianos franceses, quiseram pintar essa linha divisória. A verdade é que temas como destino do povo, luta,_groundamento histórico_ aparecem na obra dele antes e depois do nazismo, com variações de tom mas sem descontinuidade estrutural. Isso não prova que o nazismo estava nos Beinaus, mas mostra que o terreno conceitual já estava preparado.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Eu li os primeiros volumes das _Gesamtausgabe_ durante um projeto de pesquisa em Freiburg em 2019. O problema prático é que os arquivos pessoais de Heidegger estão divididos entre o Centro Heidegger em Freiburg e o Instituto de Arquivo Filosófico em Marburg. Quando você tenta rastrear correspondências dele com Carl Schmitt — o jurista nazista e teórico do conceito de político — precisa as duas coleções. Schmitt era amigo íntimo e influenciador evidente. Heidegger nunca reconheceu isso publicamente, e nas anotações privadas ele às vezes usava tom irônico em relação a Schmitt, mas a troca de ideias era constante. Uma armadilha comum na literatura secundária é citar o _Carta sobre o Humanismo_ (1946) como prova de que Heidegger se distanciou do nazismo. O texto é importante, mas é um documento retórico. Heidegger ali nega que sua filosofia tenha implicações éticas ou políticas diretas. Isso é uma estratégia filosófica, não uma admissão de culpa. Ele diz que a pensar está acima da moral. Leia com cuidado.
O que resta para quem quer estudar isso de forma séria? Os documentos básicos são:
- O discurso de posse reitoral, _Die Selbstbehauptung der deutschen Universität_ (1933).
- As cartas aos colegas do departamento de filosofia assinadas em 1933-1934.
- Os manuscritos de _Besinnung_ (GA 66, 67, 68).
- A correspondência com Hannah Arendt, especialmente a que trata de 1933-1935.
- O depoimento de Löwith sobre seus anos em Freiburg.
Não existe uma versão definitiva e consensual. O debate entre Momme Brodersen, Charles Guignon, Carlo Michalek e outros nunca se encerrou. A edição crítica dos manuscritos de _Besinnung_ ainda está sendo revisada. Novos documentos podem aparecer. Se você está escrevendo um trabalho acadêmico sobre o tema, o mais seguro é não tomar partido definitivo e deixar claro quais fontes está usando e quais lacunas permanecem.